Acordo Mercosul–União Europeia é aprovado e pode elevar exportações do Brasil em até US$ 7 bilhões, com impactos na indústria, empregos e investimentos
A aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, confirmada nesta sexta-feira (09/01/2026), poderá gerar aumento de até US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras, segundo estimativa da ApexBrasil. Negociado por mais de 25 anos, o pacto é considerado o maior acordo econômico já firmado entre os dois blocos, com impacto direto sobre a indústria, efeitos graduais sobre commodities e reflexos geopolíticos relevantes em um cenário internacional marcado por disputas comerciais.
Impacto imediato na indústria e redução tarifária
A ApexBrasil avalia que a indústria de transformação brasileira será a principal beneficiária no curto prazo. O acordo prevê redução imediata de tarifas para setores estratégicos, como máquinas e equipamentos de transporte, motores e geradores de energia elétrica, autopeças — incluindo motores de pistão — e aeronaves. Também se destacam oportunidades para couro e peles, pedras de cantaria, facas e lâminas e produtos da indústria química.
Atualmente, mais de um terço das exportações brasileiras à União Europeia é composto por bens industrializados. Com a diminuição das barreiras comerciais, a expectativa é de ampliação da participação desses produtos, favorecendo a diversificação da pauta exportadora e o aumento do valor agregado das vendas externas.
Efeitos graduais para commodities e salvaguardas
Para as commodities, o impacto tende a ser progressivo. O texto do acordo estabelece a redução gradual das tarifas para itens como carne de aves, carne bovina e etanol, com prazos de até dez anos para eliminação total, condicionados a cotas e mecanismos de salvaguarda.
Esses dispositivos permitem o monitoramento das importações e buscam proteger setores sensíveis, sobretudo produtores rurais europeus, ao mesmo tempo em que oferecem previsibilidade ao exportador brasileiro. A ApexBrasil ressalta que a implementação cuidadosa dessas regras será decisiva para o equilíbrio do acordo.
Multilateralismo e dimensão econômica do pacto
Em nota, o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, afirmou que o acordo simboliza uma vitória do multilateralismo em um contexto de enfraquecimento das instituições internacionais. Segundo ele, o mercado integrado entre Mercosul e União Europeia reúne mais de 700 milhões de consumidores e um PIB aproximado de US$ 22 trilhões, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e à frente da China.
A avaliação reforça a leitura de que o pacto amplia a previsibilidade das regras comerciais e cria um ambiente mais estável para investimentos, em contraste com políticas protecionistas e tensões geopolíticas recentes.
Repercussão política e articulação diplomática
No mesmo dia da aprovação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, agradecendo o apoio espanhol no Conselho Europeu. Lula destacou que a decisão representa sinal positivo em defesa do comércio internacional baseado em regras previsíveis.
Na agenda bilateral, os líderes também trataram da situação na Venezuela, defendendo o respeito à Carta da ONU e rejeitando o uso da força nas relações internacionais. O diálogo incluiu ainda a perspectiva de uma nova edição do foro “Em Defesa da Democracia – Combatendo os Extremismos”, a ser realizada na Espanha.
Avaliação do setor produtivo brasileiro
Entidades empresariais reagiram de forma amplamente positiva. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou o acordo como passo decisivo para a inserção internacional do Brasil. Dados da entidade indicam que, em 2024, a cada R$ 1 bilhão exportado à UE, foram gerados 21,8 mil empregos, R$ 441,7 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção.
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) avaliou o pacto como marco estratégico para ampliar investimentos, estimular inovação e fortalecer uma agenda alinhada a princípios ESG, com destaque para bioeconomia e energia limpa. Já a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) projeta crescimento de 25% a 30% das exportações do setor no médio prazo.
Indústria regional e cautelas setoriais
Federações industriais como Fiesp, Firjan e Fiemg manifestaram apoio, ressaltando, porém, a necessidade de atenção à implementação. Em Minas Gerais, por exemplo, as exportações ao bloco europeu somaram US$ 31 bilhões entre 2021 e 2025, com superávit expressivo, o que exige cuidado com setores mais sensíveis à concorrência externa.
No setor agropecuário, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) avaliou o acordo como avanço relevante, mas defendeu proteção às cadeias produtivas nacionais, citando preocupações com importações de leite em pó e a necessidade de políticas de defesa comercial.
Governo destaca efeitos sobre emprego, inflação e sustentabilidade
Os ministros Fernando Haddad e Simone Tebet classificaram o acordo como histórico, com potencial para ampliar investimentos, gerar empregos e contribuir para a redução da inflação ao aumentar a oferta e a concorrência de produtos.
O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo trabalha para que o pacto entre em vigor ainda em 2026, após a aprovação pelo Parlamento Europeu e pelos congressos dos países do Mercosul. Segundo ele, a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio próxima de US$ 100 bilhões.
Etapas finais e ratificação europeia
A aprovação pelo Conselho Europeu foi confirmada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que classificou a decisão como histórica. O acordo ainda precisa do aval do Parlamento Europeu para entrar em vigor. Caso confirmado, a expectativa é de assinatura formal nos próximos dias, com início do processo de internalização nos países envolvidos.
Alcance, riscos e desafios do acordo
A aprovação do acordo Mercosul–União Europeia representa marco relevante para a política comercial brasileira, especialmente após décadas de negociações e em um contexto de fragmentação do comércio internacional. O potencial de diversificação da pauta exportadora e de ganhos para a indústria é evidente, assim como o fortalecimento do multilateralismo.
Entretanto, os benefícios não são automáticos. A efetividade do pacto dependerá da capacidade de adaptação das empresas brasileiras, de investimentos em produtividade e do acompanhamento rigoroso das cláusulas de salvaguarda. Setores sensíveis, tanto industriais quanto agropecuários, exigirão políticas de transição e defesa comercial bem calibradas.
Há ainda desafios institucionais, como a ratificação parlamentar e a harmonização regulatória, além de tensões geopolíticas que podem influenciar a implementação. O acordo abre oportunidades, mas também impõe exigências estruturais que testarão a competitividade do Brasil no médio e longo prazo.
Principais dados do acordo Mercosul–União Europeia
1) Dimensão econômica do acordo
Maior acordo econômico já firmado entre os dois blocos
Mercado integrado com mais de 700 milhões de consumidores
PIB combinado estimado em US$ 22 trilhões
2) Impacto nas exportações brasileiras
Aumento potencial de até US$ 7 bilhões nas exportações do Brasil
Ampliação da participação de produtos industrializados na pauta exportadora
Fortalecimento da diversificação de mercados externos
3) Setores industriais beneficiados (efeito imediato)
Máquinas e equipamentos de transporte
Motores e geradores de energia elétrica
Autopeças (motores de pistão)
Aeronaves
Couro e peles, pedras de cantaria, facas e lâminas
Indústria química
4) Commodities e agropecuária (efeito gradual)
Carne bovina
Carne de aves
Etanol
Tarifas reduzidas progressivamente, com eliminação em até 10 anos
Aplicação de cotas e salvaguardas comerciais
5) Emprego, renda e produção
Mais de 3 milhões de trabalhadores vinculados a empresas exportadoras para a UE
A cada R$ 1 bilhão exportado, geração média de 21,8 mil empregos
R$ 441,7 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção por R$ 1 bilhão exportado
6) Investimentos e competitividade
Expectativa de maior fluxo de investimentos europeus no Brasil
Estímulo à inovação, produtividade e integração em cadeias globais
Ambiente regulatório mais previsível para o setor produtivo
7) Sustentabilidade e compromissos regulatórios
Regras comerciais associadas a compromissos ambientais
Incentivo à bioeconomia, energia limpa e inovação sustentável
Alinhamento a princípios ESG
8) Etapas institucionais para entrada em vigor
Aprovação pelo Conselho Europeu concluída
Necessidade de ratificação pelo Parlamento Europeu
Aprovação pelos congressos nacionais do Mercosul
Expectativa de vigência ainda em 2026, após internalização
9) Contexto geopolítico e estratégico
Fortalecimento do multilateralismo
Redução da dependência de mercados isolacionistas
Ampliação da previsibilidade nas relações comerciais internacionais
