Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026

Acordo Mercosul-UE: saiba quais setores serão mais beneficiados e prejudicados no Brasil

A agroindústria será a maior beneficiada do Brasil com o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. A estimativa é que o acordo provoque um crescimento extra de 2% no setor em 17 anos, de acordo com estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No Brasil, de acordo com o estudo, nenhum setor como um todo deve ser prejudicado: serviços devem crescer 0,41% no período, extração mineral, 0,08%, e indústria de transformação, 0,04%. Segmentos específicos desses setores, porém, poderão ter perdas. É o caso dos equipamentos elétricos (-1,6%) e de máquinas e equipamentos (-1%).

“A indústria sempre foi o problema para o Mercosul fechar o acordo com a União Europeia. No Brasil, há segmentos que ganham e outros que perdem. E isso é típico de acordos comerciais. Por aqui, esses ganhos e perdas quase se anulam”, diz Fernando Ribeiro, um dos autores do estudo do Ipea. “Por isso, é importante olhar o efeito total do acordo para a economia. E, aqui, ele é positivo”, acrescenta.

A indústria dos demais países do Mercosul deverá ter uma perda de 0,32% em 17 anos, enquanto a da União Europeia deverá ganhar 0,22%, ainda de acordo com a pesquisa de Ribeiro.

Na agroindústria brasileira, o segmento de carnes de aves e suínos será o que receberá maior impulso com o acordo. O crescimento previsto é de 9,2%. “A avaliação é positiva. A gente ganha mais espaço de venda e tem um ambiente de negócios melhor”, diz o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin.

Por ora, Santin vê um potencial maior para o segmento de aves. Isso porque no de suínos não há um acordo sanitário que permita, hoje, a venda para os países europeus. “O acordo prevê uma cota para a exportação de carne suína do Mercosul para a União Europeia, mas atualmente o Brasil não tem empresas habilitadas para exportar.”

Para os frangos, o acordo autorizará, após seis anos, a entrada de 180 mil toneladas de carne sem taxação. Essa cota terá de ser dividida entre os países do Mercosul.

Hoje, o Brasil pode vender para o bloco europeu 346 mil toneladas de carne de frango, cuja tributação, dependendo do corte, pode chegar a 15%. Acima dessa volume, os impostos praticamente inviabilizam a exportação brasileira. A cota para o Mercosul, portanto, amplia o volume que pode ser embarcado para a Europa.

Da produção brasileira de frango, 35% é exportada atualmente. Os principais mercados são China, Japão e Emirados Árabes. A União Europeia compra menos de 5% dos embarques.

Como ocorre com o segmento de carne de frango, todos os outros terão prazo para as tarifas zerem zeradas. No café, por exemplo, que hoje é tarifado em 9% ao chegar ao bloco europeu, serão quatro anos. No limão, sete anos.

Apesar do potencial positivo para a agropecuária brasileira, o setor se diz preocupado com as salvaguardas que foram aprovadas pela União Europeia. Elas poderiam limitar as exportações do Mercosul, mas não chegaram a ser discutidas entre os dois blocos e não fazem parte do texto que deverá ser assinado na semana que vem. Entre elas, está uma aprovada pelo Parlamento em dezembro que autoriza investigações sempre que o preço de um produto do Mercosul for pelo menos 5% inferior ao do mesmo item na UE ou se o volume das importações isentas de direitos aduaneiros aumentar mais de 5%.

Na análise da diretora de relações institucionais da Confederação da Agricultura e Pecuária Brasileira (CNA), Sueme Mori, as salvaguardas são uma sinalização negativa para a ampliação do comércio entre os blocos, sobretudo porque elas não foram negociadas entre os países participantes do acordo.

Indústria de transformação

Entre os segmentos industriais do Brasil, o que mais se beneficiará é o de calçados, com alta prevista de 3,2%. “Para nós, é muito importante que o acordo aconteça, mas o impacto não virá no curto prazo”, diz o presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira.

O acordo prevê que, após sua entrada em vigor, os impostos de importação europeu sob calçados levem, em média, dez anos para serem zerados – daí a ausência de um impacto no curto prazo. Hoje, dependendo do modelo, os calçados brasileiros são taxados entre 3,5% a 17% para entrar no bloco europeu. Sapatos de couro, que são os que o Brasil mais embarca para a Europa, são tributados em 8%. Nesse caso, o imposto deverá atingir zero em sete anos.

O Brasil produz 930 milhões de pares de sapatos por ano e havia crescido 4,3% em 2024. No ano passado, porém, o tarifaço de Donald Trump limitou as exportações do setor e a alta esperada para a produção passou de 2% para 0,2%. Ampliar a penetração no bloco europeu pode, portanto, favorecer o setor, que hoje tem nos EUA um importante cliente.

A União Europeia importa cerca de 40% da produção mundial de sapatos, o equivalente a 3,2 bilhões de pares. O Brasil, no entanto, abocanha apenas 1% desse mercado. Por isso, há um potencial importante do acordo para o setor calçadista brasileiro.

Também na indústria, máquinas e equipamentos estão entre os que devem sair prejudicados do acordo. O Ipea calcula uma retração de 1%, ou US$ 674 milhões, em 17 anos.

No segmento, está previsto que a atual tarifa de 12,6% leve dez anos para ser zerada. Em uma tentativa de amenizar esse impacto, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) tem conversado com o governo, desde 2019, para que se desenvolvam no País medidas que aumentem a competitividade do segmento.

A diretora de mercado externo da Abimaq, Patricia Gomes, afirma que a reforma tributária – aprovada em 2024 – está entre essas medidas que podem alavancar as empresas. “A carga tributária permanecerá, mas a simplificação do sistema deve ajudar o segmento.”

Gomes destaca que outras medidas que podem melhorar a competitividade, como financiamentos mais baratos, dependem da taxa básica de juros da economia. Hoje, ela está em 15%, um patamar que torna empréstimos caros para as companhias.

O segmento de eletroeletrônicos, por sua vez, deverá ser afetado de modo dúbio pelo acordo, de acordo com a simulação do Ipea. Enquanto para o de equipamentos elétricos, a projeção do Ipea é de retração de 1,6%, para o de eletrônicos, a estimativa é de alta de 0,3%.

Para o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, no entanto, o dado do Ipea é equivocado. O executivo não vê risco de os elétricos se prejudicarem: “Em quatro anos, todo equipamento elétrico que vendermos para a União Europeia terá tarifa zero. O que eles venderem para nós, só terá tarifa zerada entre 10 a 15 anos. Esse tempo de abertura do mercado é positivo para nós”.

Hoje, os equipamentos elétricos europeus são tributados em 16% para entrar no Brasil. Barbato destaca que o segmento brasileiro é menos competitivo que o chinês, mas não perde para o europeu. “E temos quatro anos para ganhar ainda mais competitividade.”

 

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