Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Sustentabilidade é mais oportunidade do que ônus, explica professor da FGV

A sustentabilidade deixou de ser apenas uma bandeira ambiental e passou a ser vista como uma estratégia de desenvolvimento. 

Em vez de ser considerada uma carga ou uma obrigação punitiva, ela está se tornando uma grande oportunidade para fortalecer as práticas de produção e ampliar a competitividade. 

Essa mudança de paradigma revela que, quando impulsionada por incentivos e inovação, a sustentabilidade pode transformar a economia e tornar o Brasil um exemplo mundial.

Daniel Vargas, especialista em direito, governo e políticas públicas e professor da FGV Direito Rio, afirma que a sustentabilidade deve ser vista como uma rota de crescimento, não como uma imposição. 

“A sustentabilidade é um balanço positivo entre custos e oportunidades, não uma ameaça de ‘endividamento’ em massa da sociedade. A ideia é identificar rotas de avanço da economia rumo a um patamar de baixo carbono, que sejam amigáveis ao crescimento e à prosperidade verde”, explica em entrevista ao Agrofy News.

Tensão entre dois roteiros
Segundo Vargas, existe uma tensão no Brasil e no mundo entre dois modelos de sustentabilidade, ambos cientes dos graves problemas ambientais. 

O primeiro modelo se baseia em um sistema de controle rigoroso, que monitora cada etapa do processo produtivo com uma abordagem de fiscalização e punição. Aqui, o foco é na fiscalização “antes” e “depois da porteira”, com exigência de licenças ambientais e multas em caso de danos ambientais.

“O sistema de controle se baseia na capacidade de monitorar minuciosamente todas as ações do processo produtivo”, afirma o professor. 

Embora esse modelo busque proteger o meio ambiente, ele pode gerar um clima de desconfiança, tratando o produtor como um potencial infrator. Essa abordagem policial pode criar receios, burocracia e inibir a inovação, sem incentivar práticas ambientais sustentáveis.

“Essa visão tem uma característica muito policial. Um sistema do eu desconfio até que eu possa controlar e ter uma demonstração cabal de que tudo aquilo que está acontecendo é de fato seguro e legitimo, assim que funciona”, explica.

Em contrapartida, o segundo modelo, que vem ganhando força, propõe que a sustentabilidade seja encarada como uma estratégia de desenvolvimento contínuo. 

Ao invés de focar na fiscalização, este modelo defende que a sustentabilidade seja uma meta alcançada por meio de qualificação e investimento em tecnologias.

A inovação, as boas práticas e as novas técnicas produtivas tornam-se centrais para a qualificação do sistema produtivo, tornando-o cada vez mais eficiente e equilibrado com o meio ambiente.

“Essa qualificação passa necessariamente por inovações, novas técnicas de produção, novas tecnologias e boas práticas. Para garantir a sustentabilidade contínua de um sistema produtivo, precisamos criar condições de investimento para que esses instrumentos avançados sejam incorporados pelos produtores”, afirma Vargas.

Estoque verde e o futuro
Segundo ele, o país possui um “estoque de capital verde” acumulado ao longo de anos de inovação e boas práticas agrícolas. 

Organizações como a Embrapa desempenham um papel vital, introduzindo técnicas sustentáveis que foram rapidamente adotadas pelos produtores rurais. No entanto, o grande desafio é transformar esse “capital verde” em valor econômico.

“O desafio é criar a ponte para que esse estoque verde se converta em um preço real na economia, garantindo que o produtor e o setor privado vejam a sustentabilidade não como uma obrigação, mas como uma oportunidade de melhorar suas práticas e gerar um produto mais competitivo, que ainda possa ser rentável”, explica Vargas.

Esse modelo transforma a sustentabilidade em uma vantagem competitiva. Ao adotar práticas ambientalmente corretas, o produtor não está apenas atendendo a uma exigência, mas criando um produto mais competitivo, capaz de abrir novos mercados. 

Para o futuro, a sustentabilidade precisa se tornar acessível e atrativa, incentivando o setor privado a investir em práticas que beneficiem tanto o meio ambiente quanto a economia. 

Pecuária como aliada das mudanças climáticas
Vargas destaca que o que torna a produção sustentável não é o produto em si, mas o modelo de produção utilizado. “O que é sustentável não é a soja, a carne ou a cana, mas o modelo de produção. A sustentabilidade depende de como o sistema de produção é organizado e gerido”, explica.

Ao contrário da ideia de que a pecuária é uma das principais responsáveis pelas mudanças climáticas, Vargas aponta que ela pode ser uma grande aliada na busca por soluções para o aquecimento global. 

A pecuária brasileira, especialmente quando combinada com o pasto, tem o potencial de ser carbono neutro ou até negativo, sequestrando carbono e gerando um balanço climático altamente sustentável.

“Um bom sistema produtivo da pecuária tem o potencial de ser carbono neutro ou negativo, ajudando a sequestrar carbono e ter um balanço climático sustentável. Mas para isso, é necessário mensurar rigorosamente as emissões de metano e CO2, com base nas melhores referências científicas”, afirma Vargas.

Além disso, é essencial estimular e qualificar a incorporação de boas práticas no setor, o que pode tornar a pecuária uma aliada do clima. 

“Um caminho promissor é estruturar um regime de pagamento por serviços ambientais para pecuaristas que aprimorem suas práticas no campo, reduzindo as emissões de metano. O boi é um aliado do clima, não seu adversário”, conclui o professor.

A adoção de sistemas produtivos eficientes pode não apenas reduzir as emissões de gases de efeito estufa, como também contribuir para o sequestro de carbono no solo, ajudando a mitigar os impactos das mudanças climáticas.

Compartilhe: