Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Novo capacete pode salvar a vida de recém-nascidos

 Depois de oito anos de estudos, um capacete que pode salvar a vida de milhares de recém-nascidos por ano no Brasil está entrando na fase final de preparação para distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS). 

Criado pela equipe do Laboratório de neuroproteção e estratégias regenerativas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o dispositivo inova em relação aos modelos existentes hoje no mercado, que podem gerar lesões que levam a cegueira, surdez e até paralisia cerebral. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a asfixia perinatal é a terceira maior causa de mortalidade de recém-nascidos no mundo, com um milhão de óbitos por ano – 23% do total. No Brasil, estima-se que o número chegue a 20 mil.

 O problema ocorre quando um bebê entra em sofrimento por falta de oxigênio durante o parto ou logo antes de nascer devido a complicações como deficiências na placenta ou cordão umbilical enrolado no pescoço. 

A grande evolução do capacete, patenteado pela InovaUFRJ e licenciado para a spin-off C3M Soluções em Medicina de Catástrofe, é resfriar apenas o cérebro, medida fundamental para interromper as lesões na região. Isso reduz a atividade das células do cérebro, que, ao trabalharem menos, consomem menos nutrientes e, assim, não morrem. Ao diminuir a temperatura são mitigados os riscos de lesões cerebrais e de morte encefálica.

 “Isso tem que ser feito imediatamente, quanto mais cedo melhor, e a temperatura precisa ser mantida reduzida por pelo menos dois dias”, explica Pedro Henrique Freitas, um dos médicos da UFRJ inventores do dispositivo. De acordo com ele, os equipamentos atualmente em operação submetem o corpo todo do bebê a baixas temperaturas, o que resfria também coração, fígado, rins e leva a arritmias cardíacas, disfunções de coagulação sanguínea e outras complicações. 

 Por isso, prossegue Freitas, muitos pacientes sobrevivem com sequelas. “Com o capacete, o tratamento pode ser localizado apenas na cabeça, tornando a hipotermia, única alternativa terapêutica para esses bebês, mais segura.” O médico conta que, nos testes, a temperatura do capacete foi ajustada com precisão. “Os outros métodos não têm um controle tão eficaz.” 

 No mundo existem alguns dispositivos de hipotermia sistêmica disponíveis, sendo que nenhum como o capacete desenvolvido no Brasil, e apenas um tem aprovação da Anvisa. Enquanto no exterior custa entre US$ 20 mil e US$ 25 mil, ele já chegou a ser vendido no país por mais de R$ 250 mil, o que dificulta a aquisição do equipamento. 

Conforme dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), cerca de 10% dos recém-nascidos e mais de 60% dos prematuros precisam de ventilação pulmonar na sala de parto para retomar a respiração. Segundo o Ministério da Saúde, a asfixia neonatal está entre as principais causas de lesão cerebral permanente em bebês nascidos em gestações de 37 a 42 semanas.

A invenção do laboratório da UFRJ, que se chama DHFC (Dispositivo de Hipotermia Focal Cerebral), foi criada com o suporte do Ministério de Saúde e definida como produto estratégico do SUS em 2016. O protótipo funcional já foi testado e está sendo aperfeiçoado para passar pelas provas de segurança do Inmetro, ser registrado pela Anvisa e depois implementado nas maternidades públicas. 

 Como o custo do modelo desenvolvido na UFRJ será mais baixo – o estudo de viabilidade econômica não está completo, mas a estimativa é o preço final fique entre R$ 100 mil e R$ 130mil –, a ideia da equipe é que ele seja vendido também para países menos desenvolvidos de América Latina e África, que, segundo Freitas, não têm acesso a essas tecnologias. O médico lembra que, para a startup, esse é um movimento difícil, já que há muitas especificidades de regulação em cada país. Dessa forma, a estratégia de internacionalização já está sendo pensada por meio de parcerias. 

 “A C3M, por exemplo, está vinculada à Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, que tem escritórios que dão suporte à exportação. Estamos buscando fazer uso da rede de inovação no país, que é crescente, para poder ampliar o alcance do dispositivo”, conclui. 

 

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