Por decisão da ANA, Jirau passa a operar seu reservatório para gerar mais energia
A partir de meados de novembro, a usina hidrelétrica de Jirau vai alterar sua forma de operação de modo a permanecer o mais próximo possível de sua cota máxima de 90 metros mesmo durante a estiagem. Por decisão da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a hidrelétrica passa a usar seu reservatório, pleito antigo da hidrelétrica de Jirau para aumentar o rendimento das unidades geradoras e elevar o volume de energia que a usina pode entregar ao sistema.
A usina fica em Rondônia, próxima à fronteira entre Brasil e Bolívia. Em junho, o Valor noticiou com exclusividade que a operação vem sendo negociada pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, com autoridades do país vizinho para viabilizar o projeto, e visa também exportar o excedente de eletricidade para o país vizinho, fortalecendo ainda mais a integração energética entre os países.
A operação possibilitará um aumento médio anual da produção de Jirau em até 250 megawatts-médios (MWm). O plano original era iniciar a operação em outubro. Contudo, com a forte seca que assola a região Norte do Brasil, a empresa levará mais tempo para elevar o nível do rio e a operação começará em meados de novembro.
Nesta segunda (21), a diretoria colegiada da ANA aprovou uma nova outorga para uso dos recursos hídricos para geração de energia para a empresa. A antiga outorga determinava que Jirau deveria cumprir com uma vazão mínima de 3.240 metros por segundo na defluência (termo que significa quantidade de água que é liberada de uma barragem) e também seguir uma curva-guia de geração.
As usinas do rio Madeira (jirau e Santo Antônio) são hidrelétricas a fio dágua, ou seja, não possuem reservatório de acumulação de água e por isso não têm controle da produção de energia. Por isso que elas geram energia em grande volume somente entre os meses de dezembro e maio.
O presidente da empresa, Edson Silva, explica que pelas regras do setor elétrico, Jirau tinha que operar dentro da curva-guia que obrigava a usina, de acordo com a vazão de água que chega, a defluir uma quantidade de água para manter a altura no reservatório em níveis pré-estabelecidos e não causar mudança na mancha de água no território boliviano.
A usina foi idealizada para operar em cotas variáveis entre 82,5 e 90 metros. Agora, com a decisão regulatória, Jirau passa a ter um pequeno reservatório e vai manter por mais tempo o nível do rio na cota 90 metros para aumentar o rendimento das unidades geradoras, e assim, na estação de seca, parte da margem do rio Madeira do lado boliviano será ocupada pelas águas.
“Agora, parte da água que chega, vamos segurar para poder operar na cota 90. O instrumento regulatório para isso é não ter a curva-guia”, explica o executivo.
A empresa já teve anuência do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) condicionada a alguns monitoramentos que ainda precisam ser feitos nessa primeira fase da operação. Outras etapas ainda precisam ser vencidas, como obter a formalização do documento da área de ambiente da Bolívia e fazer o processo de comunicação nas comunidades.
Silva acrescenta que isso não se trata apenas de mais geração de energia, mas também permitir a regularização do volume de água no rio e permitir a navegação em situações climáticas críticas como a seca do ano passado, que paralisou a parte da usina de Santo Antônio, situação crítica que ainda persiste este ano, e aumentar a capacidade de regularizando o rio Madeira e torná-lo mais independente de sua sazonalidade natural.
“Se essa seca voltar nos próximos anos, teremos o controle para ajustar a defluência e permitir a navegação com segurança a jusante”, afirma.
Procurado, o ministro Silveira disse ao Valor que a medida visa garantir segurança energética com melhor aproveitamento dos projetos estruturantes.
“Estamos fazendo todos os esforços para garantir a segurança energética, mas é igualmente importante preservar nossos pulmões do setor elétrico, que é a energia hidrelétrica — a mais barata, gerada graças aos 11% da água doce do planeta que estão no Brasil. Isso é fruto dos grandes feitos realizados durante os mandatos do presidente Lula, como as hidrelétricas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte”, disse.
Contrapartida
Como uma parte do território boliviano ficará inundado mais tempo ao longo do ano, a contrapartida é que parte da produção seria dada em ressarcimento para a Bolívia, que, atualmente, supre toda aquela região Norte com diesel, combustível muito mais caro, poluente e com logística extremamente complexa.
O governo boliviano se mostrou interessado no projeto, já que a região Norte do país é precariamente suprida por termelétricas a diesel que queimam 60 milhões de litros anualmente, combustível muito mais caro, poluente e com logística complexa.
O vice-presidente da Empresa Nacional de Electricidad da Bolívia (Ende), Mauricio Arevey, disse ao Valor em julho que a empresa boliviana já está fazendo um investimento inicial na construção de uma linha de distribuição para conectar os dois países por meio da Energisa do Acre e Rondônia.
