IA e nuvem puxam demanda por energia
O crescimento exponencial de tecnologias baseadas em inteligência artificial (IA) e a expansão de serviços em nuvem vão balizar a demanda por energia nova no mundo, segundo avaliação de empresas e especialistas. Esta crescente demanda de eletricidade por parte das gigantes de tecnologia servirá para processar bilhões de dados em microssegundos e converge com as discussões atuais sobre a transição energética.
Empresas como Amazon, Google e Microsoft, por exemplo, estão em busca de energia para alimentar seus data centers.
Essa demanda do setor de tecnologia já sobrecarrega redes elétricas, especialmente nos horários de pico de consumo em diversas partes do mundo, como nos EUA, gerando desafios significativos para fornecedores de energia e para as gigantes da tecnologia.
Parcerias entre ‘big techs’ e setor elétrico devem aumentar nos próximos anos” — Fabiana Polido
O crescimento acelerado dessa demanda pode atropelar o cumprimento de metas das empresas de tecnologia para ter mais fontes sustentáveis, de energia limpa.
A Microsoft já reconheceu que a expansão de suas iniciativas de IA pode impactar sua meta de se tornar uma empresa carbono negativo até 2030. Já o Google aumentou em 48% as emissões totais de gases de efeito estufa, segundo o último relatório ambiental da empresa.
Mas, para o presidente da IFS para a América Latina, Lávio Falcão, as empresas que atuam no segmento de IA podem ser importantes aliadas do setor elétrico, fornecendo tecnologias para reduzir perdas de energia; prever padrões de consumo; otimizar a distribuição e promover a integração eficiente de fontes de energia renováveis, como solar e eólica. Mark Moffat, CEO global da IFS, acrescenta que este segmento de tecnologia responde por mais de 2% do uso global de eletricidade e quase 1% das emissões globais.
Estimativas indicam que só nos EUA esses centros podem consumir até 8% de toda a eletricidade do país até o fim da década. As consultas feitas ao robô de inteligência artificial generativa ChatGPT, por exemplo, exigem dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa do Google, devido à eletricidade consumida por data centers de IA.
Segundo Moffat, as 55 maiores empresas de energia do mundo usam algum tipo de IA para melhorar seus processos, e elas precisam de um plano para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.
A Amazon informou nesta quarta (16) que assinou acordos que somam US$ 500 milhões para o desenvolvimento da tecnologia de energia nuclear de pequenos reatores modulares (SMR, na sigla em inglês) em Washington e na Virgínia, nos EUA, para atender à crescente demanda de eletricidade dos centros de processamento de dados.
No início da semana, o Google, da Alphabet, anunciou um acordo com a Kairos Power, uma desenvolvedora de reatores nucleares da Califórnia, para apoiar o desenvolvimento e a construção de vários reatores. Embora os termos financeiros não tenham sido divulgados, a Kairos espera operar o primeiro reator até 2030 e construir outros até 2035.
A Microsoft também informou recentemente que assinou um contrato com a Constellation Energy. A empresa de fornecimento de energia para data centers vai reativar uma das unidades da usina nuclear Three Mile Island, na Pensilvânia (EUA). O investimento para reativar a usina será de US$ 1,6 bilhão.
Depois que a energia nuclear saiu do posto de “vilã” para virar a “mocinha” do clima, a aposta na energia atômica tem sido retomada no mundo como não era visto desde quando o ex-presidente americano Eisenhower propôs, em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), o programa atômico pela paz. No Reino Unido, o carvão, combustível da Revolução Industrial, deixou de ser uma opção e o governo considera o uso de energia nuclear para compensar a oferta de energia.
Essa tendência global já vem sendo anunciada pela Agência Internacional de Energia (AIE) e representa uma oportunidade para o Brasil, que conta com energia hidrelétrica, eólica e solar.
Além disso, o Brasil passa por um momento de sobra de energia no mercado brasileiro e as companhias do setor elétrico têm visto no segmento de tecnologia da informação (TI) um potencial para absorver o excedente de energia desperdiçada.
A AWS, divisão de nuvem da Amazon, anunciou que vai investir R$ 10 bilhões no Brasil para atender à alta demanda por serviços em nuvem em toda a América Latina.
Estados do Nordeste brasileiro com oferta abundante de energia renovável barata querem se tornar polos para a construção de centros de dados, gerando empregos e fomentando o desenvolvimento de infraestrutura.
Um dos anúncios recentes de parceria dos setores de energia e TI foi o contrato da Scala Data Centers e a Serena (ex-Omega) para fornecimento de energia eólica para suprir a demanda de data centers, incluindo cargas mistas de IA.
“As parcerias entre ‘big techs’ e empresas do setor elétrico devem aumentar nos próximos anos seguindo a crescente demanda por energia que as novas tecnologias, como inteligência artificial, têm gerado. Neste cenário, o fornecimento de energia renovável para atender esses projetos também terá mais espaço”, diz Fabiana Pasquot Polido, diretora de operações estruturadas da Serena.
