Paraguai deseja acordo sobre Itaipu ainda este ano
Ministro da Economia do Paraguai há pouco mais de um ano, desde que o atual presidente, Santiago Peña, assumiu o mandato, Carlos Fernández Valdovinos olha para o Brasil como o vizinho mais importante e estratégico de seu país, mas se posiciona como quem sabe que, hoje, é peça mais relevante no xadrez econômico e diplomático da América do Sul.
Fortalecido por liderar a economia no momento em que o país conquistou, pela primeira vez na história, a classificação de grau de investimento por uma das três grandes agências internacionais de risco – a Moody’s elevou a nota do país para Baa3 em julho -, ele ressalta a importância de Itaipu Binacional como o maior ativo do governo paraguaio e contribui dentro da gestão de Santiago Peña para que todas as negociações em relação à usina sejam conduzidas sem ruídos e terminem no tempo ideal.
O objetivo é manter o ambiente de previsibilidade e estabilidade, características que, na sua visão, são os elementos fundamentais que estão alçando o Paraguai a um novo patamar no cenário externo.
“Itaipu é o maior ativo em valor de mercado do Paraguai — os 50% que o país tem. Portanto, é um assunto delicado por aqui e aconteça o que aconteça gera opiniões de todos os lados”, disse Fernández Valdovinos em entrevista exclusiva ao Valor por videoconferência. Ele lembra que os dois países que operam a hidrelétrica já chegaram a um acordo este ano que estabeleceu um reajuste de 15,4% na tarifa de energia gerada pela usina, subindo de US$ 16,71 por KW/mês para US$ 19,28 por quilowatt/mês (KW) até 2026.
O resultado agradou o Paraguai, que vende o seu excedente para o Brasil, mas o governo brasileiro também celebrou o acordo porque ficou determinado que irá haver uma injeção de recursos da própria usina para abater a tarifa, o que resguardou os consumidores brasileiros em relação ao temor de ter que pagar contas mais caras. “Ficou satisfatório para os dois lados, como tem que ser uma negociação”, diz.
Contudo, ainda falta selar um acordo sobre o chamado Anexo C, que definirá as tarifas a partir de 2027 já considerando apenas os custos de operação e manutenção da usina depois que a dívida da construção foi quitada. Para o ministério da Economia do Paraguai, país que vende o seu excedente, quanto maior a tarifa, melhor, enquanto o Brasil negocia barateando para beneficiar os consumidores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste que recebem, por meio de distribuidoras, a eletricidade de Itaipu.
“Já temos as instruções dos dois presidentes para avançar o mais rápido possível. A intenção é finalizar ainda neste ano essa questão do Anexo C no nosso nível para depois mandar para a avaliação dos dois Congressos”, afirma o ministro paraguaio.
“Não gostamos de fazer muito barulho, mas estamos avançando”, garante. “Esse é o nosso jeito de negociar. Não é através da imprensa. Vai ser com as reuniões que temos com a contraparte brasileira. Nem sempre é fácil, exige persistência. Foi assim que chegamos ao grau de investimento. Mas, no final, vai ser bom para todos”, declara.
O tom de Fernández Valdovinos sobre uma negociação crucial para a capacidade futura de investimento do país reflete a estratégia de quem mantém o discurso, revelado ao Valor no ano passado, de quem quer “se tornar a China do Brasil”, em referência ao objetivo de turbinar as vendas de produtos da indústria paraguaia de “maquila” – nome dado ao setor de empresas que faz o processo de transformação de um produto que ainda será finalizado em outro local.
“Precisamos aperfeiçoar algumas coisas nesse regime, porém estamos vendo o que a gente esperava. Muitas empresas fazendo ‘maquila’ aqui e levando os produtos para o Brasil, substituindo as importações chinesas. O plano está dando certo”, comenta. Segundo Fernández Valdovinos, os números finais do comércio entre os dois países ainda não são chamativos porque a maior parte das transações é entre empresas menores, mas ele segue otimista de que é a melhor estratégia comercial e de geração de novos empregos para o país.
Esse posicionamento torna o Paraguai um aliado importante para o governo do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em meio às divergências atuais dentro do Mercosul. Mais além das diferenças ideológicas, já que atualmente o Uruguai e o próprio Paraguai estão com governos de visões economicamente liberais, e a Argentina é liderada por Javier Milei, de visão abertamente antagônica à de Lula, o bloco está dividido em relação a qual é a melhor estratégia comercial para os sócios.
Enquanto o Brasil defende o fortalecimento do grupo, o presidente uruguaio, Luiz Lacalle Pou quer se desvencilhar dos sócios para fechar um acordo bilateral com a China e Milei nem compareceu à última cúpula realizada neste ano.
“Para nós, Paraguai, permanece o mantra: tudo dentro do Mercosul”, proclama Fernández Valdovinos. “Sabemos que há fragilidades no bloco, mas ele foi muito útil para todo mundo na região durante todo esse tempo. Claro que pode ser aperfeiçoado, mas não se pode quebrar o Mercosul neste momento, ainda mais agora que somos cinco”, diz, em referência à Bolívia, que foi oficializado este ano como “Estado parte” e se tornou membro com direitos e obrigações iguais aos demais países do grupo.
Conforme destaca Fernández Valdovinos, em meio às divergências e instabilidades econômicas dentro da região no desenho geopolítico atual, o Paraguai tem aumentado a sua capacidade de influência nos debates internacionais. “Até mesmo pela personalidade do [Santiago] Peña, que se dá muito bem tanto com Lula, como com Lacalle, Milei e o [presidente da Bolívia, Luis] Arce, é invejável o posicionamento do Paraguai, hoje, em termos de coordenação bilateral com todos os países da região. Vamos jogar nesse papel de um país que se dá muito bem com todos e pode fazer a ponte para conseguir algumas coisas daqui para frente”, comenta. “De fato, foi o presidente Peña que trouxe a ideia de procurar um acordo de livre-comércio com os Emirados Árabes Unidos durante a presidência [rotativa] do bloco”, lembra, em referência às conversas que abriram caminho para um possível acordo de livre-comércio entre as duas partes.
Do ponto de vista do Paraguai, de acordo com o ministro, o país está pronto para exercer um novo papel na região. “O posicionamento do Paraguai em âmbito internacional hoje é outro. Todos estão reconhecendo a história de sucesso em relação à nossa estabilidade macroeconômica e à nossa participação não só no Mercosul como em outros organismos internacionais. Eu mesmo tenho presenciado isso quando encontro investidores”, diz Fernández Valdovinos, demonstrando ainda confiança na candidatura do colega de gabinete, o ministro de Relações Exteriores, Rubén Ramírez Lezcano, para ocupar o cargo de secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) no período de 2025 a 2030.
“O Paraguai não é mais um problema ou uma dor de cabeça para o Brasil ou para a Argentina. O Paraguai agora é um vizinho valioso na região”, conclui.
