Brasil e Estados Unidos podem liderar transição energética global, mas agenda tem desafios
Brasil e Estados Unidos podem liderar a corrida global pela transição energética em um cenário de geração de empregos e de investimentos em áreas como biocombustíveis e fontes solar e eólica nas quais os dois países estão bem posicionados. Na visão de especialistas, Brasil e EUA podem cooperar e explorar de forma complementar as oportunidades. Mas um maior impulso aos projetos de energia “verde” ainda enfrenta desafios regulatórios, financeiros e de mercado. A discussão permeou o “Climate Impact Summit 2024 Brazil-US”, evento promovido nesta quinta-feira (19) pelo Valor e pela Amcham na sede das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
Na abertura do evento, Marcelo Marangon, presidente do conselho de administração da Amcham Brasil, disse que a transição energética representa, além de uma necessidade ambiental urgente, uma oportunidade de ganhos econômicos e sociais para quem liderar o processo.
A diretora de redação do Valor, Maria Fernanda Delmas, disse que a palavra que especialistas, empresários e executivos têm usado é regeneração porque vai além da sustentabilidade. “Não basta mais interromper as mudanças climáticas ou manter o planeta. Temos de curá-lo. Precisamos manter o mundo em progresso ao mesmo tempo em que restauramos seu equilíbrio”, afirmou.
Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil, acrescentou que a liderança de Brasil e Estados Unidos não é apenas uma questão de responsabilidade, mas também de oportunidade. “Mas a gente não vai aproveitar o que está à mesa se a gente não conseguir se juntar: poder público, o setor privado e também a sociedade civil. Não vai ser uma questão só de desenvolvimento tecnológico, mas mudando regulações internas e externas para fazer com que o Brasil tenha o protagonismo que merece.”
Também presente ao evento, o CEO da Amcham Brasil, Abrão Neto, salientou a importância da cooperação bilateral: “EUA e Brasil têm regras próprias, precisam conversar e ter convergência”, disse Neto, que lembrou que o Brasil é líder natural em temas de clima, energia e agronegócio.
O pano de fundo dessa discussão, também destacada no encontro, é a emergência climática, que tem produzido catástrofes como as atuais queimadas no Brasil e as cheias no Rio Grande do Sul, em maio. “Estamos numa situação que não podemos nos dar o luxo de ficar pensando o que vamos fazer daqui a dez anos”, disse o embaixador André Aranha Corrêa do Lago, secretário de clima, energia e meio ambiente do Ministério das Relações Exteriores (MRE) no painel “Brasil-Estados Unidos – liderando a transição energética juntos”. As fontes de energia limpa são importantes porque ajudam a mitigar e a reduzir os efeitos da crise climática global.
A questão, segundo especialistas, é que apesar dos avanços na transição a demanda por combustíveis fósseis ainda continua em alta, como disse Thomas Rowlands-Rees, chefe de pesquisa da BloombergNEF da América do Norte, em outro painel do summit, intitulado: “Por que a transição energética é tão crítica?” Também presente na mesa, Maurício Tolmasquim, diretor-executivo de estratégia e planejamento da Petrobras, traçou um cenário para os hidrocarbonetos a médio e longo prazos.
“Hoje o mundo produz cerca de 100 milhões de barris dia de petróleo e, em um cenário da Agência Internacional de Energia (AIE) em que os países cumpram as metas do Acordo de Paris, chegaríamos a uma temperatura aproximada de 1,7º grau e teremos uma demanda de 60 milhões de barris por dia no horizonte de 2050.” Tolmasquim concordou que ainda haverá uma grande demanda de petróleo e levantou a discussão sobre quem serão os produtores de petróleo que vão permanecer no mercado à medida que as fontes renováveis ganham mais espaço como fontes de energia.
Tolmasquim sinalizou que não seria possível cortar a produção de petróleo a curto prazo como forma de reduzir as emissões: “Se o Brasil parar de produzir petróleo, é possível que as emissões aumentem porque outro produtor continuará produzindo, mas com uma emissão maior.” O diretor da Petrobras não entrou em detalhes, mas a empresa costuma dizer que o petróleo extraído do pré-sal emite menos gases do que outras regiões produtoras.
O diretor da Petrobras afirmou ainda que os maiores potenciais de curto prazo para o país atuar na energia renovável no setor elétrico estão nas gerações eólica e solar em terra: “O mesmo gerador [de energia eólica] produz o dobro da energia no Brasil do que na Europa”, disse o executivo, acrescentando que a Petrobras “enxerga muito” o potencial brasileiro.
Outros painelistas também destacaram as oportunidades existentes na transição. David L. Goldwyn, presidente da Goldwyn Global Strategies, avaliou que importa ao Brasil se apresentar como peça-chave, uma vez que possui abundância de recursos naturais necessários em comparação com as demais economias do mundo.
A secretária-adjunta de recursos energéticos dos Estados Unidos, Laura Lochman, destacou uma série de acordos e parcerias que estão em curso: “Brasil e EUA são parceiros significativos em diversos temas e esforços de descarbonização para a energia limpa e novas tecnologias”, afirmou. “Nós compartilhamos valores e entendemos como é crítica a agenda climática”, afirmou. Ela citou como exemplo uma recente reunião entre o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando foi discutida a troca de experiências e que tipo de parcerias fazem sentido para a área de minerais críticos, matéria-prima para a transição energética. No encontro, também se tratou como parar o desmatamento na Amazônia.
