Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

País pode ser modelo de exportação sustentável, defendem especialistas

 O Brasil tem um amplo potencial para exportar produtos com baixa pegada de carbono, se valendo da matriz elétrica e matriz energética mais limpa do que a maioria dos países do mundo. E não apenas commodities, mas principalmente bens de consumo e componentes importantes para a indústria e as cidades, como cimento e aço verdes. É o que destaca a vice -presidente do conselho de administração da Carbon Direct, Nili Gilbert, no evento Brazil Climate Summit, organizado pelo Brazil Climate Institute em Nova York. 

 “O Brasil, por ter forte produção de energia renovável, tem habilidade para transferir a energia limpa na produção de commodities e bens, como combustível sustentável de aviação (SAF), aço e cimento”, comenta. “Mas, é importante para além das commodities, aproveitar o bom relacionamento comercial e significativo comércio exterior do Brasil com os Estados Unidos, Europa e China, para transformar isso em uma vantagem comercial para também oferecer os bens verdes.” 

 A executiva também destaca a área de biocombustíveis como uma importante força do Brasil no mercado internacional ligado à transição energética. 

 Marcelo Pasquini, diretor do Bradesco,, concorda e comenta que é primordial para o país continuar com o diferencial competitivo da energia renovável. 

 “Investimentos em energia renovável é muito importante para o país, pois a demanda por energia deve triplicar nos próximos anos”, afirma. “Podemos prover para o Brasil e outros países com nossos campos, matérias-primas e tecnologias que substituam os óleos.” 

 No evento, a consultoria BCG divulgou estudo que mostra um potencial de atração de US$ 3 trilhões até 2050 para o Brasil se tornar um hub global de soluções climáticas. Um dos destaques é, justamente, o de biocombustíveis. 

 Nili Gilbert, da Carbon Direct, lembra, porém, que há um caminho a ser trilhado para o Brasil que não pode ser ignorado e que fará toda a diferença para o país se mostrar ao mundo como uma liderança da transição energética. 

 Além de produtos, ela também acredita que o país pode exportar projetos e modelos de como fazer produtos mais sustentáveis. O setor privado, acredita, pode contribuir muito. “Cerca de 80% do capital para o net zero deve vir do setor financeiro privado e de companhias.” 

 Ela adiciona que é importante entender da base, ou seja, do dia a dia das empresas, investidores e organizações, o que é primordial que o governo se responsabilize em fazer. “É muito importante que o país trabalhe em diferentes tipos de legislação, entenda os diferentes caminhos, rotas, para focar e desenhe seus planos de transição.” 

 Para especialistas reunidos no Brazil Climate Summit, assim como o Brasil pode se tornar um dos primeiros países do mundo a se tornar net zero, status em que as emissões líquidas de gases de efeito estufa empatam com a remoção do carbono, o país também tem potencial de ser o principal provedor de soluções para transição energética global. 

 Porém, para que isso aconteça, o país ainda tem um longo caminho para promover seu nome e seu storytelling no mercado internacional. 

 “Nós temos que pensar grande. Não precisamos de estratégia de sustentabilidade, mas que a sustentabilidade entre na estratégia”, comenta Luiz Amaral, especialista em mudanças climáticas e ex-presidente do Science Based Target Initiative (SBTi), organização que verifica o quão as metas de investimentos de empresas e entidades estão alinhadas com o que a ciência dita de soluções eficazes. 

 Para ele, a chave para mexer o ponteiro está no “supply chain”, que é a área (pública ou privada) que tem o poder de ditar a demanda e o grau de exigência de sustentabilidade. Neste ponto, reforça, o mundo precisará cada vez mais de produtos ecológicos e ativos verdes e o Brasil pode ser “a” powerhouse (usina de geração de energia) sustentável global, se referindo ao potencial de ser um hub provedor de soluções energéticas verdes. 

 “O problema das mudanças climáticas é um problema de energia; é da energia que vem a maior parte das emissões”, diz. 

 Na opinião de Amaral, o mercado internacional não conhece os produtos verdes do Brasil, sabe pouco sobre o potencial que o país tem neste desafio e ainda não tem confiança de que o setor público e as empresas estão incorporando o tema como prioridade, o que traz confiança e reduz a percepção de risco. 

 “Se estamos falando seriamente sobre o Brasil se tornar uma green powerhouse, siga o exemplo da Coreia do Sul e invista em exportar a imagem do Brasil. Se o Brasil quiser vender seus produtos verdes, precisa que as pessoas o leve a sério”, aponta. 

 Para ele, isso passa por uma ampla comunicação interna, para a população sobre o que é o aquecimento do planeta, os trunfos do Brasil no setor de energia e como o país quer se diferenciar no mercado internacional como provedor de múltiplas soluções. 

 “Percebemos que não é só uma questão de mostrar o Brasil ao mundo, mas sim construir pontes. E não apenas com viés de financiamento, que tem relação com subsídios, mas de investimentos, com retorno financeiro envolvido”, diz Luciana Ribeiro, sócia da EB Capital e uma das líderes do Brazil Clima Institute. 

 Jorge Hargrave, diretor da Maraé Investimentos, pega como exemplo o tema de combustíveis sustentáveis para exemplificar que o Brasil já tem muitas tecnologias prontas e testadas que poderiam ser exportadas com certa facilidade, mas que não são porque ainda não são conhecidas. “O Brasil já tem essa tecnologia, mas eu vejo que a questão é mais do que trazer investimentos adicionais – embora o país precise -, e sim em como levar o know-how brasileiro para o exterior.” 

 Marina Cançado, fundadora da Converge Capital, reforça que, mais do que temas prioritários, o país precisa reforçar uma mensagem mais geral de que está aberto a negócios. 

 “É uma mudança de postura. Mostrar que está aberto a fazer negócios, construir com outros países soluções e disposto a colaborar e construir pontes. A partir daí, as soluções disponíveis podem ser apresentadas”, diz. 

 

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