Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Governo avalia retorno do horário de verão em meio à crise hídrica

Diante do cenário de seca que atinge o Brasil, o governo federal está considerando a retomada do horário de verão, medida que foi suspensa em 2019. A proposta, que tem como objetivo reduzir a pressão sobre o sistema elétrico do país, já foi discutida por autoridades, incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Segundo Silveira, “é importante avaliar qualquer possibilidade que possa contribuir para a modicidade tarifária e a segurança energética”, afirmou nesta quarta-feira (11).

A suspensão e os impactos econômicos do horário de verão

O horário de verão foi abolido em 2019 com a justificativa de que não atendia mais aos seus propósitos originais. A ideia por trás da medida sempre foi adiar os relógios em uma hora para aproveitar mais a luz solar, resultando na redução do consumo de energia nos horários de pico, principalmente entre 18h e 21h.

Nos últimos anos de vigência da medida, a economia de energia já não era significativa como antes. Em 2013, o país economizou R$ 405 milhões com o horário de verão, mas esse número caiu para R$ 159,5 milhões em 2016. Essa queda foi atribuída à mudança dos hábitos de consumo de energia elétrica dos brasileiros e ao aumento do uso de aparelhos de climatização.

Estudos apontam neutralidade nos resultados

De acordo com um estudo do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a adoção do horário de verão atualmente gera resultados neutros em termos de economia de energia. Isso ocorre porque o pico de consumo migrou para o meio da tarde, quando muitos aparelhos de ar-condicionado estão em funcionamento nas empresas.

Além disso, o aumento do uso de climatizadores durante a madrugada, especialmente em regiões mais quentes do Brasil, neutraliza a economia feita no horário de ponta noturno. O estudo conclui que “não há um ganho significativo para o Sistema Interligado Nacional” com a implementação do horário de verão, o que coloca em dúvida sua eficácia no cenário atual.

Setores de bares e turismo veem benefícios econômicos

Apesar das dúvidas quanto à eficiência da medida no setor elétrico, entidades ligadas ao comércio, bares e turismo defendem o retorno do horário de verão. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) afirma que o aumento da luz natural favorece a permanência de clientes nos estabelecimentos, impulsionando o consumo e movimentando a economia local.

A Associação Comercial de São Paulo também apoia a retomada da medida, argumentando que ela pode ajudar a aliviar a demanda de energia durante os horários de pico, além de diminuir custos operacionais e aumentar a segurança nas ruas, já que a população aproveitaria mais as horas de luz do dia.

Impactos na saúde e no sono

Por outro lado, um dos principais argumentos contrários ao retorno do horário de verão envolve os efeitos na saúde das pessoas. Pesquisas realizadas no Brasil e no exterior indicam que a mudança no relógio biológico causada pela alteração de horário pode prejudicar o sono e gerar problemas comportamentais.

Um estudo da Universidade de British Columbia, nos Estados Unidos, revelou que os acidentes de trânsito aumentam 8% no dia seguinte à mudança de horário. Além disso, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo mostrou que o corpo humano pode precisar de até 14 dias para se adaptar completamente ao novo horário, o que gera desconforto e desânimo.

Efeitos negativos para mais da metade da população

Uma pesquisa publicada na revista Annals of Human Biology revelou que 54,57% dos entrevistados relataram sentir algum nível de desconforto com a mudança para o horário de verão. Os principais problemas relatados incluem distúrbios de sono, fadiga e dificuldades em ajustar a rotina diária. Especialistas afirmam que a interferência no relógio biológico é o principal fator para esses desconfortos, especialmente para pessoas com horários de trabalho e estudo fixos.

Avaliando os prós e contras do retorno

O governo federal ainda está em fase de análise sobre a possível volta do horário de verão. As autoridades estudam tanto os benefícios econômicos que a medida pode trazer para setores como o comércio e o turismo, quanto os efeitos negativos para a saúde da população e a eficiência energética real no contexto atual.

De um lado, há a possibilidade de gerar alívio para o sistema elétrico em um momento de crise hídrica e aumentar a movimentação econômica em bares, restaurantes e pontos turísticos. De outro, há a questão da saúde pública e a eficácia questionável no cenário atual, já que o consumo de energia agora tem picos durante o dia, o que reduz os benefícios da medida.

Indústria e comércio discutem benefícios energéticos

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) defende que a economia gerada pelo horário de verão seria benéfica para aliviar o sistema em momentos críticos, especialmente em um contexto de escassez de chuvas e com o aumento da demanda por energia elétrica. Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) se mantém cautelosa e afirma que, sem dados concretos, a adoção do horário de verão pode não ser a solução mais adequada para a crise energética atual.

Setores que mais sofreriam com a mudança

Além dos impactos para o comércio e a indústria, o setor agrícola seria um dos mais afetados com a volta do horário de verão. Pequenos produtores que dependem de jornadas de trabalho nas primeiras horas do dia apontam que a alteração no horário prejudica a organização das atividades diárias, especialmente em locais onde o clima quente já exige trabalho nas horas mais frescas da manhã.

Por outro lado, a indústria de tecnologia e serviços pode não sentir grande impacto com a mudança, uma vez que muitos processos operacionais não estão diretamente vinculados ao horário de luz natural. A flexibilização do trabalho remoto também contribui para reduzir a dependência desses setores em relação ao horário convencional.

Apoio do setor de turismo

O setor de turismo, um dos grandes defensores do horário de verão, destaca que a medida pode trazer benefícios significativos para o Brasil, especialmente em destinos litorâneos e turísticos. Com uma hora a mais de luz solar, turistas tendem a prolongar suas atividades ao ar livre, o que impulsiona o setor e gera mais receita para bares, restaurantes e estabelecimentos locais.

Para entidades como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), o horário de verão representa uma oportunidade de aumentar a ocupação de hotéis e pousadas, já que os turistas tendem a prolongar sua estadia e aproveitar mais as atrações diurnas.

Perspectivas sobre o retorno do horário de verão

A possível volta do horário de verão segue sendo debatida entre diversos setores, com pontos positivos e negativos a serem considerados. Embora haja benefícios para setores específicos da economia, como o turismo e o comércio, as dúvidas sobre os impactos reais no consumo de energia e os efeitos negativos na saúde da população são fatores que precisam ser analisados com cuidado.

O governo federal ainda não confirmou se a medida será adotada novamente, mas a pressão de setores econômicos pode influenciar a decisão. Enquanto isso, especialistas seguem discutindo os melhores caminhos para enfrentar a crise energética sem prejudicar o bem-estar da população.

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