Equatorial busca casamento duradouro com a Sabesp
A Equatorial Energia, que nas próximas semanas assumirá oficialmente como sócia de referência da Sabesp, pretende aproveitar sua presença em outros Estados do país para apoiar a expansão da companhia paulista de saneamento. No primeiro momento, a prioridade são os investimentos em São Paulo, além das melhorias na gestão da ex-estatal. Mas o grupo destaca que o setor traz muitas oportunidades e que a perspectiva na Sabesp é de longo prazo. “É um casamento duradouro”, afirmou o presidente, Augusto Miranda, ao Valor.
Hoje, a Equatorial controla distribuidoras de energia em sete Estados do país. Em um deles, no Amapá, o grupo também tem a concessão de saneamento, conquistada em 2021, quando a empresa deu seu primeiro passo no setor. “No Amapá, é o mesmo cliente [de energia e de saneamento]. Então, tem muitas sinergias, é o mesmo foco”, disse.
Para Miranda, a atuação nacional da Equatorial poderá favorecer a futura expansão da Sabesp, que o grupo planeja transformar em sua plataforma para investir no setor de água e esgoto. “Ser uma empresa ‘multi utilites’ é um diferencial, você já opera, então são serviços complementares, energia e saneamento”, disse. Porém, ele também afirma que a decisão será criteriosa. “Não tem mandato de crescer por crescer, tem que fazer alocação eficiente.”
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O presidente tinha expectativa de que novas oportunidades no setor de água e esgoto fossem surgir de forma mais célere após a lei de 2020, mas avalia que há uma retomada dos leilões. “Tem manifestação de governadores no Maranhão, no Pará, tem a concessão de Sergipe, Alagoas se mexendo.”
Para ele, há também oportunidade de crescimento orgânico dentro da Sabesp. “Se olhar dentro, tem municípios que não aderiram [à companhia] e que estão na área do lado. Isso é oportunidade. A reputação da Sabesp é um convite para isso”, afirmou.
O plano de investimento firmado pela Sabesp após a privatização prevê R$ 68 bilhões para universalizar os serviços em 375 cidades até 2029. Desse valor, R$ 14 bilhões já estão em execução e outros R$ 27 bilhões, em contratação.
Para financiar os investimentos, a ideia da Equatorial é usar o balanço da Sabesp, que tem espaço para dívidas: a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado fechou junho em 1,5 vez, enquanto a restrição de endividamento (“covenants”) é de até 3,5 vezes. O plano é manter esse patamar máximo, diferentemente de outras empresas privadas do setor, que atingiram alavancagem maior para acelerar a expansão.
Ajustes na Sabesp são necessários, mas serão feitos com equilíbrio” — Augusto Miranda
“São limites adequados, sobretudo nesse ambiente de juros”, disse Leonardo Lucas, diretor financeiro da Equatorial. “A empresa está com alavancagem muito baixa, e tem oportunidade grande de aumentar a produtividade. Além disso, a revisão tarifária vai ser anual, então, uma vez que o investimento for feito, não vai se esperar um prazo longo para receber a remuneração”.
Na segunda (26), a companhia teve o aval definitivo do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para comprar 15% da Sabesp. Agora, uma assembleia geral deverá ser realizada em cerca de 30 dias, para a eleição do novo conselho de administração, que por sua vez já dará posse à nova diretoria.
Segundo fontes, o novo presidente da Sabesp será Carlos Piani, atual presidente do conselho de administração da Equatorial. Já as indicações do grupo para o conselho serão o próprio Miranda; Tinn Amado, hoje diretor do grupo; e Tiago Noel, hoje membro do conselho de administração da empresa elétrica e responsável pelos investimentos em energia elétrica do Opportunity, acionista da Equatorial.
Com isso, a Equatorial deverá iniciar um plano de 100 dias na Sabesp , para começar a implementar seu modelo de gestão.
As medidas previstas incluem a redução dos custos operacionais e a otimização dos investimentos. Questionado sobre o risco de cortes gerarem piora na qualidade do serviço, Miranda afirmou que, historicamente, a Equatorial ampliou o quadro de funcionários de suas empresas e disse que os ajustes são necessários, mas serão feitos com cuidado. “[A ] Não é marinheiro de primeira viagem, vai primar pelo equilíbrio para otimizar a empresa sem perder qualidade”, afirmou.
Grupo analisa ativos de energia, mas linhas maduras podem ser vendidas
Em relação ao plano de investimentos, o executivo diz que só o fim das amarras de contratação estatal já trazem celeridade aos projetos. Sobre a baixa experiência do grupo no setor, Miranda aponta que a execução das obras será garantida pela combinação entre a capacidade já existente na Sabesp e as medidas que serão implementadas. “Estou usando o corpo técnico da Sabesp, que é reconhecido como competente. O que vamos trazer é o modelo de gestão da Equatorial.”
Uma das ações que ele considera chave nesse novo modelo é a gestão dos funcionários, como a adoção de mecanismos de remuneração por performance. “Todo modelo passa por envolver as pessoas. Por exemplo, na Equatorial, temos uma política em que tem o salário natural, tem o salário de médio prazo com metas, e incentivos de longo prazo. Com a empresa listada em bolsa, algumas pessoas podem ter ações.”
Pela regra da privatização, a Equatorial terá de permanecer como sócia de referência até 2029, mas, dado que o acordo de acionistas pode ser renovado, o desejo é seguir na empresa, segundo o presidente. “Tudo será consequência do que a gente entregar. Se você consegue entregar as obras, a relação é uma. Se não conseguir, é outra. Então, estamos nos estruturando para entregar no prazo, com a melhor eficiência possível e aí a discussão com outros sócios vai ficar mais fácil.”
Para além dos planos em saneamento, Miranda diz que o grupo segue atento às oportunidades em energia. “No setor elétrico não tem um grande consolidador ainda, tem grupos grandes. Então, como ‘player’ que está em toda a cadeia, a gente é obrigado a olhar dentro do setor”.
No segmento de linhas de transmissão, a Equatorial pode tanto vender como conquistar projetos. Em julho, em meio à compra das ações da Sabesp, a Equatorial vendeu uma linha para reduzir a alavancagem. “Temos ativos maduros, com característica de renda fixa. É um privilégio, até para reciclar capital. A empresa está vendo alternativas de financiamento, até para avançar no crescimento”. Sobre os próximos leilões do setor, Miranda afirma que o grupo tem participado das licitações, mas não levará ativos “a qualquer custo”.
