IA começa a ocupar antigas usinas de energia
O boom da demanda pela inteligência artificial tem estimulado as grandes empresas de tecnologia e seus fornecedores a estudarem a possibilidade de converter antigas usinas de energia elétrica e instalações industriais em data centers.
A Microsoft, o Google e a Amazon despejam bilhões de dólares na construção de data centers para alimentar serviços de computação em nuvem e de inteligência artificial, mas está cada vez mais difícil encontrar locais adequados e com energia suficiente para essas instalações, que consomem muita eletricidade.
Muitos mercados de data centers têm “fortes limitações no que diz respeito à disponibilidade de terras e energia”, segundo Adam Cookson, chefe de transações com terras do grupo consultivo de data centers para Europa, Oriente Médio e África da empresa imobiliária Cushman & Wakefield. Ele explicou que esse fato, por sua vez, alimenta o interesse em mercados menores e em “instalações mais complicadas”, como antigas centrais de energia elétrica.
Cookson acrescentou que existem “oportunidades crescentes” para os proprietários desse tipo de ativos.
Daniel Thorpe, líder de pesquisa de data centers no grupo imobiliário JLL, disse que os desenvolvedores de grandes campi de data centers estão à procura de locais como “obras de infraestrutura ou usinas de energia”.
“Em geral, seria um grande complexo de ‘hiperescala’ que consideraria a ideia de uma central elétrica”, afirmou, em uma referência aos maiores provedores de computação em nuvem, como Microsoft, Amazon e Google.
Centrais de energia movidas a carvão estão sendo desativadas em partes dos Estados Unidos e da Europa, mas elas podem ter atributos de que um campus de data centers precisaria. Instalações industriais, por exemplo, costumam ser projetadas para um grande consumo de energia e podem ter uma infraestrutura de transmissão de eletricidade, assim como estar localizadas perto de uma fonte de água.
A Microsoft pretende desenvolver data centers nas instalações das antigas centrais elétricas de Eggborough e Skelton Grange, perto de Leeds, no Norte da Inglaterra – a construção em Eggborough está prevista para começar em 2027. Já a Amazon planeja um campus no local da antiga usina de energia de Birchwood, no Estado americano da Virgínia.
De acordo com uma fonte familiarizada com o assunto, pelo menos mais uma transação semelhante em torno de uma estação elétrica está em negociação hoje na Europa.
O setor de tecnologia já advertiu que as limitações da disponibilidade de energia elétrica ameaçam travar a expansão da inteligência artificial, enquanto outros requisitos, como um nível suficiente de conectividade por fibra, reduzem ainda mais o conjunto de locais possíveis para instalar um novo data center.
Analistas dizem que isso estimula o interesse por alternativas menos tradicionais. Os diferentes requisitos de carga de trabalho da inteligência artificial representam uma oportunidade para instalar data centers em áreas menos centrais, que fiquem mais distantes dos principais polos de computação, porque a “latência”, ou o tempo necessário para enviar dados e receber uma resposta, é menos importante para o treinamento de modelos de IA.
Reaproveitar instalações também pode ser uma opção. Rahul Mewawalla, executivo-chefe do Mawson Infrastructure Group, disse que sua equipe tem “observado um aumento na quantidade da atividade de retorno” dos proprietários de ativos industriais e da área de energia, como grupos de private equity, que se mostram interessados em fazer parcerias para converter esses ativos em data centers.
Antiga fábrica é apropriada, tem transformadores, água, esgoto e gás”
— Joe Sitt
A Virtus Data Centres, na qual a Macquarie Asset Management tem uma participação minoritária, adquiriu há pouco tempo duas instalações na capital alemã, Berlim, parte das quais era um parque de produção de energia solar, e também uma antiga fábrica de munições da época da guerra no Reino Unido. A Virtus planeja converter as instalações em campi de data centers até 2026.
O Thor Equities Group adquiriu recentemente uma antiga fábrica manufatureira no Estado americano da Geórgia. Segundo seu presidente, Joe Sitt, ela está “equipada com transformadores e tem infraestrutura de água, esgoto e gás natural” e é “bastante apropriada para o desenvolvimento de data centers”.
A tendência repete de certa forma a movimentação do setor de mineração de bitcoins, que também faz uso intensivo de energia e buscou reaproveitar instalações industriais desativadas, entre elas antigas fundições de alumínio.
Algumas pessoas advertem que esse tipo de conversão pode ser um processo longo, custoso e burocrático. E às vezes pode até não ser prático, como, por exemplo, no caso de uma usina que tenha sido desconectada da rede elétrica e não esteja incluída nos cálculos da operadora local.
“Pode não ser tão fácil para a concessionária apertar o botão e religá-la”, disse Mark Dyson, diretor-gerente do programa de eletricidade livre de carbono no think-tank Rocky Mountain Institute. “Esses desafios foram mencionados em nossas conversas com empresas”, contou ele.
“Muita coisa depende das especificidades da instalação, de quanto custaria fazer essa reutilização adaptativa, da escassez de terrenos e seus preços”, disse Thorpe, do grupo imobiliário JLL.
Uma pesquisa do RMI sugere que uma instalação de energia renovável poderia ser estabelecida ao lado de uma que já exista e seja movida a combustível fóssil, e sua produção poderia ser distribuída para a rede elétrica por meio das conexões que a usina antiga tem, quando for mais econômico fazer isso.
Qualquer geração excedente de eletricidade – as instalações de conexão com a rede têm um limite de quanto podem adicionar ao sistema – poderia, em teoria, ser usada para alimentar outra instalação no local, como um data center.
