O novo playbook dos negócios combina inovação, estratégia e gestão, diz EY
A ideia de que existe uma fórmula capaz de levar uma empresa ao crescimento está perdendo espaço entre os empreendedores. Em um mercado com menos disponibilidade de capital e maior pressão por eficiência, construir um negócio passou a exigir mais do que seguir etapas previamente estabelecidas. Para Raquel Teixeira, sócia da EY e líder de EY Private LATAM, o chamado novo playbook empresarial está relacionado à capacidade de entender o cliente, identificar problemas reais e combinar inovação com uma gestão consistente.
A executiva participou do painel “Against the Playbook: empresas que crescem com seu modelo próprio de negócios” realizado durante o Rio Innovation Week, em uma discussão que teve como exemplo a trajetória da RecargaPay, empresa que cresceu sem seguir necessariamente os caminhos tradicionais de expansão. Para Raquel, o caso ajuda a mostrar que não existe um único modelo capaz de determinar como uma empresa deve evoluir.
“O que a gente traz nesse painel é tirar aquela ilusão de que, se o empreendedor seguir step by step, ele vai chegar a grandes lugares. Não existe um modelo pronto de negócio, mas existem possibilidades e competências que ele precisa ter para realmente fazer um negócio dar certo”, afirma.
A mudança também acontece em um cenário no qual o acesso a recursos financeiros está mais restrito, o que aumenta a necessidade de escolhas mais precisas. Na avaliação da executiva, empreendedores brasileiros têm demonstrado criatividade e resiliência para encontrar alternativas e adaptar seus modelos conforme as condições do mercado.
Capital continua importante, mas estratégia define o caminho
A restrição de capital não diminui a importância do dinheiro para a construção de uma empresa, mas muda a forma como os recursos precisam ser utilizados. Para Raquel, o capital permite acelerar a trajetória, mas não determina sozinho o destino de um negócio.
“A gente vai precisar de dinheiro sempre, não tem como montar uma empresa sem nenhum dinheiro. Ele é fundamental, mas hoje entram também os pilares de pessoas e tecnologia, e como você consegue usar a tecnologia para te ajudar nesse caminho”, explica.
É nesse ponto que a inteligência artificial começa a alterar algumas das barreiras enfrentadas por empresas menores. Em vez de exigir, desde o início, grandes estruturas administrativas, a tecnologia pode permitir que determinadas atividades sejam automatizadas por meio de agentes, ajudando o empreendedor a colocar uma operação em funcionamento com mais agilidade.
A redução dessa barreira, entretanto, não significa que a tecnologia substitua a estratégia. Para Raquel, esse é justamente um dos pontos que precisam ser considerados na adoção da IA. O capital pode acelerar o negócio, assim como a tecnologia pode ampliar sua capacidade operacional, mas nenhuma das duas substitui a definição de um modelo de negócio consistente.
“O capital ajuda você a correr mais rápido, mas não a chegar. O que vai definir sua chegada à linha de chegada é a sua estratégia e o seu modelo de negócio”, afirma.
A própria relação entre IA e produtividade também precisa ser analisada com cautela. Embora a tecnologia permita realizar determinadas tarefas de maneira mais eficiente, isso não significa necessariamente uma redução proporcional da carga de trabalho. Com o ganho de eficiência, empresas podem ampliar o volume de atividades e responsabilidades assumidas pelas equipes.
Para empreendedores, porém, o efeito pode ser relevante principalmente na fase inicial da operação, quando recursos financeiros e humanos são mais limitados. A possibilidade de automatizar processos administrativos e operacionais permite concentrar esforços em atividades mais diretamente relacionadas ao negócio.
O cliente volta ao centro da estratégia
Nesse cenário, o novo playbook defendido pela executiva começa antes da escolha da tecnologia. O primeiro passo é entender qual problema a empresa pretende resolver e para quem aquela solução está sendo desenvolvida.
“Para mim, o novo playbook é foco no cliente, foco na solução que realmente resolve uma dor do mercado”, afirma.
A lógica representa uma mudança importante em relação à busca por tecnologias ou modelos de negócio que estejam em evidência. Em vez de partir da ferramenta e procurar posteriormente uma aplicação, o empreendedor precisa compreender a necessidade do mercado e, a partir dela, definir quais recursos podem contribuir para a solução.
A inovação também aparece como parte dessa equação, mas não de maneira isolada. Na visão da executiva, diferenciar-se exige acreditar na proposta do negócio ao mesmo tempo em que se mantém uma gestão capaz de sustentar seu crescimento.
É justamente nessa combinação que entram pessoas, tecnologia e governança. A construção de uma empresa não termina na identificação de uma oportunidade, e a capacidade de transformar uma boa ideia em uma operação sustentável depende de processos e mecanismos de gestão.
Governança desde o início
Para Raquel, uma das mudanças mais importantes no novo playbook está na necessidade de estabelecer fundamentos de gestão desde os primeiros momentos da empresa. Governança não deve ser tratada apenas como uma preocupação de organizações maiores, mas como parte da própria construção do negócio.
“Você tem que fazer a gestão da empresa e criar uma governança logo cedo, ter processos. Você começa no básico, eu sempre falo: faz um acordo de sócio”, afirma.
A recomendação mostra que a inovação não elimina práticas fundamentais de gestão. Mesmo com novas tecnologias capazes de acelerar operações e reduzir determinadas necessidades de estrutura, questões como definição de responsabilidades, processos e governança continuam sendo determinantes.
A IA, nesse sentido, passa a ocupar uma posição mais pragmática dentro da estratégia empresarial. Ela pode ajudar a reduzir custos, automatizar tarefas e acelerar a criação de estruturas, mas não resolve problemas relacionados à definição do negócio, ao entendimento do cliente ou à tomada de decisões estratégicas.
Menos fórmula, mais capacidade de adaptação
A discussão sobre o novo playbook também coloca em xeque a ideia de que empresas precisam reproduzir modelos que funcionaram em outros mercados ou em outros momentos. A trajetória de negócios como a RecargaPay mostra que caminhos diferentes podem ser construídos a partir das características de cada organização e de sua capacidade de adaptação.
Para Raquel, essa capacidade é particularmente evidente entre empreendedores brasileiros, que precisam lidar com restrições de capital e, ao mesmo tempo, encontram formas criativas de avançar.
O novo playbook não significa abandonar os fundamentos tradicionais de gestão, mas reorganizá-los diante de um ambiente no qual a tecnologia, especialmente IA, permite testar e executar de novas maneiras. O diferencial deixa de estar em seguir corretamente uma sequência estabelecida e passa a ser a capacidade de identificar uma oportunidade, entender uma dor real, testar soluções e ajustar o modelo conforme os resultados.
Nesse cenário, a tecnologia pode acelerar a construção de um negócio, mas não substitui a necessidade de uma estratégia clara. A combinação entre foco no cliente, inovação, pessoas, eficiência e governança é que determina se essa velocidade será convertida em crescimento sustentável.
