Sexta-feira, 4 de Setembro de 2026

Data centers e teles veem Redata como impulso a novos investimentos

A aprovação do Redata pelo Congresso pode melhorar as condições do Brasil na disputa por novos investimentos em data centers, na avaliação de empresas do setor. Operadores destacam principalmente a redução do custo de equipamentos e a maior previsibilidade para projetos que exigem grandes volumes de capital e são planejados com anos de antecedência.

O regime, aprovado pelo Senado na terça-feira, 1º, agora depende de sanção presidencial. O texto estabelece incentivos tributários para equipamentos destinados à instalação e ampliação de data centers e prevê contrapartidas relacionadas a sustentabilidade, pesquisa e desenvolvimento e oferta de capacidade de processamento no mercado brasileiro.

Para Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), a aprovação foi “uma importante vitória para o setor e para o Brasil”. Ele destacou ainda que a manutenção do conteúdo aprovado anteriormente, com apenas ajustes de redação no Senado, evitou que a proposta tivesse de retornar à Câmara. “Agora vai à sanção presidencial”, afirmou.

A Associação NEO também defende uma sanção célere, mas ressalta que outras duas medidas são necessárias para que os incentivos tenham efeito. A entidade cita a aprovação do PLP 74/2026, que está na pauta da Câmara e trata da previsão orçamentária para o benefício, e a autorização do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) para que os estados reduzam em até 90% o ICMS incidente sobre equipamentos e componentes destinados à implantação, ampliação e modernização de data centers.

Na avaliação da NEO, é a combinação do benefício federal criado pelo Redata, da previsão orçamentária e do incentivo estadual de ICMS que poderá estabelecer as condições tributárias pretendidas para os investimentos em data centers.

Já para Victor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, a medida afeta fatores considerados nas decisões internacionais sobre a localização de novos projetos.

“A aprovação do Redata é um passo decisivo para aumentar a competitividade do Brasil nas decisões globais de investimento em infraestrutura digital. Esse é um setor de capital intensivo e de ciclo longo, em que os projetos são planejados com anos de antecedência e previsibilidade pesa tanto quanto custo.”

A Equinix aumentou em cerca de 50% o volume investido no Brasil nos últimos 18 meses, de acordo com Arnaud, com expansões simultâneas em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos data centers SP4, SP6, SP7 e RJ3. Para o executivo, o novo regime não inicia esse ciclo de expansão, mas pode contribuir para sustentá-lo e acelerá-lo.

Custo dos equipamentos
A tributação dos equipamentos importados aparece entre os principais pontos destacados pelo setor. Tito Costa, CRO da Tecto Data Centers, afirma que o Brasil reúne condições favoráveis para receber novos projetos, mas ainda enfrenta diferenças de custos em relação a outros mercados.

“Mas ainda existem questões que pesam nessa competição, como o custo de equipamentos que não são produzidos aqui e precisam ser importados. O Redata ajuda a reduzir essa diferença e traz mais previsibilidade para quem está decidindo onde investir.”

A Conexis Brasil Digital também aponta a carga tributária incidente sobre equipamentos e infraestrutura como um dos entraves à instalação e operação de data centers no país. Para a entidade, o novo regime tributário pode melhorar as condições para atração de projetos destinados a atender à expansão da conectividade, computação em nuvem e IA.

O presidente-executivo da Conexis, Marcos Ferrari, relaciona a aprovação do projeto à segurança jurídica para os investimentos e defende rapidez na sanção presidencial.

“A aprovação pelo Senado Federal representa uma conquista da mobilização do setor produtivo. A Conexis Brasil Digital espera uma rápida sanção do projeto, assegurando segurança jurídica e condições efetivas para que o Brasil avance na soberania digital, na inovação e no desenvolvimento econômico. O ganho virá em forma de mais empregos, mais inovação e competitividade”, afirmou Ferrari.

O peso dos equipamentos na composição dos investimentos já vinha sendo apontado por outros operadores. Marcos Siqueira, CRO e Head de Estratégia da Ascenty, relacionou diretamente o efeito de um regime especial ao custo do hardware.

“O impacto real de um regime especial estaria na compra de equipamentos. A obra civil é a parte menor da conta; o hardware pode custar sete ou oito vezes mais.”

A Ascenty tem quatro novos data centers destinados à infraestrutura para inteligência artificial em São Paulo, já pré-locados, que somam 150 MW e US$ 1,2 bilhão em investimentos.

IA e nuvem ampliam demanda
A demanda por IA e computação em nuvem é outro elemento considerado pelas empresas na avaliação do mercado brasileiro. Costa afirma que o setor já passa por expansão e avalia que o Redata pode aumentar a parcela dos investimentos direcionada ao país.

Projetos voltados especificamente ao processamento de IA também estão em desenvolvimento no Brasil. A RT-One prevê aproximadamente R$ 15 bilhões em investimentos no país, com projetos de data centers dedicados a IA em Maringá (PR) e Uberlândia (MG).

Os dois empreendimentos colocam Maringá e Uberlândia entre as cidades que poderão receber infraestrutura computacional dedicada a aplicações de IA. Os projetos se somam aos investimentos em expansão de capacidade que já estão sendo realizados por operadores nos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Costa considera que os efeitos dos novos investimentos podem alcançar também fornecedores instalados no Brasil. Segundo o executivo, a implantação de data centers pode atrair empresas que utilizam essa infraestrutura e ampliar a demanda por equipamentos produzidos localmente.

Expansão e soberania digital
A possibilidade de acelerar a construção de data centers também abre uma discussão sobre quem controlará a capacidade computacional instalada no país. Leonardo Senra, CRO da Omid Solutions, avalia que a ampliação da infraestrutura física não implica, por si só, maior autonomia tecnológica brasileira.

“O Redata pode acelerar a construção de data centers no Brasil e isso é ótimo. Mas precisamos separar as coisas pois mais datacenters no país não significa necessariamente mais autonomia tecnológica e mais soberania digital. Se o incentivo servir majoritariamente para trazer mais capacidade para players estrangeiros, teremos mais data centers, mas não necessariamente mais autonomia.”

O executivo defende que o desenvolvimento da infraestrutura seja acompanhado pelo fortalecimento de fornecedores nacionais de tecnologia. “Precisamos de alguma forma permitir que parte dos recursos sejam destinados para fortalecer também a capacidade tecnológica de empresas e tecnologias brasileiras capazes de processar, armazenar e garantir a proteção de dados estratégicos de forma soberana.”

Contrapartidas do regime
Na Equinix, Arnaud chama atenção também para as contrapartidas previstas no Redata. O executivo cita o uso de fontes renováveis ou de baixa emissão, eficiência hídrica, investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil e disponibilização de capacidade ao mercado nacional.

“O Redata reduz o custo de entrada da tecnologia no país e, ao mesmo tempo, estabelece contrapartidas concretas. Ele não trata apenas de atrair mais investimento, mas do tipo de investimento que o Brasil quer receber: uso de fontes renováveis ou de baixa emissão, eficiência no uso da água, pesquisa e desenvolvimento no Brasil e capacidade destinada ao mercado nacional.”

O executivo destaca especialmente as exigências relacionadas à pesquisa e desenvolvimento e à disponibilidade de capacidade computacional no mercado brasileiro.

“Vale reparar no que essas duas últimas exigências constroem. Equipamento deprecia; conhecimento, inovação e ecossistema permanecem. É o que diferencia atrair um data center de construir uma indústria digital no país.”

Indústria local vê reflexos
Na avaliação da Abinee, o Redata posiciona o país na rota global de investimentos em Inteligência Artificial e computação em nuvem. O texto final atende a uma das principais bandeiras da Abinee sobre quais produtos deveriam ser beneficiados com a redução do Imposto de Importação. Acatando sugestão da entidade, o Senado modificou a redação do texto, de “sem similar nacional” para “sem produção nacional equivalente”. A alteração é determinante para que o decreto que regulamentará a nova lei proíba a extensão do incentivo para produtos quando houver fabricação nacional.

Humberto Barbato, presidente executivo da Abinee, comemorou a aprovação e afirmou que o programa é uma sinalização importante para a indústria de TICs: “O Redata, mesmo que aprovado com enorme atraso, será muito importante para dar segurança jurídica para os investimentos que estão sendo feitos, e ainda mais para os que virão para o Brasil. E nossas indústrias estão prontas para produzir, com as mais modernas tecnologias adotadas em todo o mundo, os equipamentos necessários para a instalação dos data centers”, afirmou.

Além de impulsionar a fabricação nacional de servidores, storage, sistemas de energia, roteadores, switches e soluções de refrigeração, o Redata também introduz critérios de sustentabilidade. O texto aprovado exige contrapartidas claras dos investidores.

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