Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026

Anatel vê leitura digital como nova frente para políticas públicas de conectividade

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) pretende avaliar os dados sobre o comportamento dos leitores digitais brasileiros como insumo para a formulação de propostas de políticas públicas ao Ministério das Comunicações. A sinalização foi feita por Cristiana Camarate, superintendente de relações com o consumidor da Anatel, nesta quarta-feira, 2, durante evento promovido pelo Skeelo, em Brasília, para apresentar a pesquisa inédita sobre o perfil e os hábitos dos leitores digitais no país.

Para Camarate, os resultados reforçam a relação entre conectividade, educação e desenvolvimento das competências necessárias para participação no ambiente digital. A representante da Agência também apontou a predominância do celular como dispositivo de leitura como uma demonstração da participação da infraestrutura de telecomunicações no acesso ao conteúdo.

“Essa pesquisa traz insumos e auxilia enormemente nas formas de pensar ações e como nós podemos propor ao Ministério das Comunicações a implementação de eventuais políticas públicas”, afirmou Camarate.

O estudo foi realizado pela NielsenIQ BookData e viabilizado pelo Skeelo. Foram feitas 3 mil entrevistas com brasileiros a partir de 10 anos, entre 1º e 11 de junho deste ano. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Anatel associa celular à essencialidade das telecomunicações
Um dos resultados destacados por Camarate é a utilização do smartphone como principal equipamento de acesso à leitura digital.

Entre os consumidores de livros digitais, incluindo e-books e audiolivros, 72% utilizam o smartphone. O celular também lidera com ampla margem nos demais conteúdos pesquisados: chega a 85% nos textos de leitura e informação, 91% nos textos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagens e 93% nas mensagens curtas.

“A população utiliza e lê através de celulares, e a essencialidade que é o mundo das telecomunicações exige, consequentemente, as nossas responsabilidades”, afirmou Camarate.

Ela acrescentou que essa responsabilidade não deveria ficar restrita ao Estado.

“A responsabilidade não é só do governo, não é só de entes estatais, como é o caso da Anatel, mas de toda a sociedade e empresas privadas”, disse.

A pesquisa reforça o argumento de que o smartphone funciona como infraestrutura de acesso ao conteúdo. Entre os entrevistados que preferem ler ou ouvir livros pelo celular, 55,1% dizem fazê-lo porque o aparelho está sempre disponível e evita carregar outro equipamento. Outros 42,9% afirmam utilizar o smartphone mais do que telas maiores em sua rotina, enquanto 39,7% destacam a possibilidade de ler ou ouvir livros em pequenos intervalos do dia.

Agência relaciona leitura e competências digitais
Camarate também aproximou os resultados apresentados em Brasília de outro estudo realizado pela Anatel sobre competências e habilidades digitais.

Segundo ela, o levantamento da Agência mostrou uma relação entre educação fundamental e desenvolvimento das competências digitais. Na avaliação da representante da Anatel, os dados da NielsenIQ BookData reforçam a necessidade de avançar nessa agenda.

“Isso demonstra e reforça um caminho ainda muito importante que nós temos que percorrer”, afirmou.

A pesquisa apresentada pelo Skeelo mostra diferenças relevantes de acesso por faixa socioeconômica. Considerando todo o universo dos leitores digitais, a classe C responde por 46% do público, enquanto a classe B representa 29%, a classe A, 7%, e as classes D e E, 18%.

A distribuição muda no recorte específico de e-books e audiolivros. Nesse grupo, as classes A e B representam juntas 45% dos leitores, embora correspondam a 25% da população utilizada como referência pela pesquisa. A classe C responde por 40% e as classes D e E, por 15%.

Ao comentar esses resultados, Camarati observou que a maior participação proporcional das classes de renda mais elevada não chega a ser uma surpresa diante da relação encontrada pela Agência entre escolaridade e habilidades digitais.

A representante da Anatel, porém, tratou a pesquisa como uma oportunidade para orientar ações futuras. “Contem com a Anatel nessa empreitada do mundo digital”, afirmou.

Operadoras já são canal de distribuição de livros
A relação entre regulação de telecomunicações e leitura digital foi abordada também por Rodrigo Meinberg, CEO do Skeelo. Durante a apresentação, o executivo atribuiu ao arcabouço regulatório da Anatel parte das condições que permitiram às operadoras transformar suas bases de clientes em canais de distribuição de livros.

“Porque, como legisladores, a Anatel permite esse tipo de movimento, ou seja, a gente inclui livro por mês na conta telefônica de cada um dos seus assinantes”, disse Meinberg.

Segundo ele, o modelo cria interesses distintos para os participantes da cadeia. As operadoras incorporam conteúdo às ofertas de telecomunicações; autores e editoras ganham um canal adicional de distribuição; e consumidores passam a ter acesso aos livros por meio dos serviços contratados.

A dimensão desse canal aparece nos próprios resultados da pesquisa. Entre os consumidores de e-books e audiolivros, 22,2% afirmaram ter acessado livros digitais por aplicativo incluído no plano da operadora. É um percentual próximo dos 22,8% que utilizaram catálogos por assinatura ou clubes de livros digitais.

Entre aqueles que receberam livros por meio dos aplicativos incluídos nos planos das operadoras, 24% acessaram sete ou mais obras no período analisado: 11% entre sete e nove e 13% mais de dez.

Meinberg atribui expansão ao ambiente regulatório
Em entrevista ao Tele.Síntese após o evento, Meinberg foi mais explícito ao atribuir à atuação regulatória da Anatel a formação desse modelo de distribuição.

“Eu queria destacar a importância da regulação da Anatel, de permitir a utilização da rede para distribuição de outros conteúdos além da conectividade, do serviço de telecomunicação. Esse marco só foi possível graças a ele”, afirmou o CEO do Skeelo.

O executivo acrescentou que as operadoras apostaram no livro como um componente de suas ofertas em um ambiente no qual diferentes plataformas de conteúdo disputam a atenção do usuário. Segundo Meinberg, o Skeelo está atualmente presente em quase todas elas, incluindo ofertas móveis e de banda larga.

Durante sua apresentação, o CEO defendeu que os resultados justificam atenção também dos reguladores. Para ele, há espaço para um “ambiente institucional e regulatório” que permita ampliar a distribuição legal de conteúdo, remunerar os participantes da cadeia editorial e criar alternativas ao acesso não autorizado a livros digitais.

O tema aparece nos dados da pesquisa. 48,8% dos consumidores de e-books e audiolivros disseram ter feito download ou acessado gratuitamente livros em sites, aplicativos ou links que não eram lojas ou bibliotecas oficiais, e 41,5% receberam arquivos compartilhados por amigos ou familiares. O levantamento não classifica automaticamente essas modalidades como pirataria, uma vez que os arquivos podem incluir obras legalmente gratuitas ou em domínio público.

Para a Anatel, no entanto, a primeira consequência dos números apresentados em Brasília está na própria dimensão adquirida pela conectividade na circulação dos livros. Ao relacionar a predominância do smartphone à essencialidade das telecomunicações, Camarate indicou que a Agência vê a digitalização da leitura como mais uma atividade social que passou a depender das redes — e cujos indicadores podem entrar na discussão sobre futuras políticas públicas de inclusão e competências digitais.

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