Domingo, 20 de Setembro de 2026

Provedor de banda larga não tem mais espaço para errar, alerta InternetSul

A InternetSul, entidade que representa provedores de banda larga do Rio Grande Sul, avalia que o segmento atravessa um momento complexo, marcado pelo aumento de custos de equipamentos, competição acirrada, novas obrigações regulatórias, desafios tributários e falta de regras claras para o uso de postes.

A confluência de fatores pode ocasionar a quebra de ISPs que não forem capazes de navegar no cenário, alertou Raquel Camera Schwambach, presidente da entidade. Em entrevista ao TELETIME durante o evento LinkISP 2026, promovido pela InternetSul em Gramado (RS), a dirigente abordou os desafios e também destacou o trabalho para maior representatividade feminina na liderança do setor de telecomunicações.

Confira destaques da conversa, que também contou com a participação de Gabriel Rost, diretor de comunicação e marketing da InternetSul.

TELETIME – Quais aspectos tributários e de regulação mais preocupam os provedores atualmente?

Raquel Schwambach – O que tem preocupado muito é um movimento dos estados e também o movimento que a Anatel está fazendo, regulatório. Ela está coletando muitas informações para combater a concorrência desleal, mas muitos são dados sensíveis de uma empresa. Por exemplo, o Ebitda [lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização], é algo que você só forneceria em uma venda ou em uma negociação, sabe? Então existe esse lado que não ficou muito bem entendido, desse nível de coleta.

Gabriel Rost – [A Anatel] está regulamentando e o provedor está aprendendo a fazer, mas não tem uma regra muito clara ainda definida. Eles estão dispostos, inclusive, a abrir conversa com o mercado e o setor para entender o que seria um modelo adequado. Como é tudo muito novo, é novo para eles também. Então ainda não existe um modelo ideal e a gente quer entender para não ser leonino.

Há alguma outra medida onde a InternetSul avalia que o Poder Público esteja pesando a mão?

Raquel – A Anatel passou a fiscalizar todas as empresas na parte do fisco, por exemplo. Ela tem um um viés fiscalizatório e talvez muito em cima do SCI [Serviço de Conexão à Internet] e dos SVAs [Serviços de Valor Adicionado], mas não existe uma regra muito clara. Se não estabelecer, vai dar margem para autuações que talvez não sejam comportadas pelas empresas, sem uma transição do SCI. (Nota do editor: a Anatel pretende acabar em 2027 com a Norma 4, que diferencia a tributação de serviços de telecom e de conexão à Internet).

Porque até então o SCI tinha valor, e continua tendo. Ele continua existindo no provedor, pois tu continuas precisando autenticar e identificar para quem você entregou um IP. Na parte da engenharia, ele continua existindo, então simplesmente excluir o SCI do nada, sendo que todas as empresas usam em um pedaço do seu faturamento, como valor de um produto que realmente existe, isso deixa os provedores a descoberto. Como é que eles vão comportar também essa cobrança? Porque muda tudo: mudam os impostos, aumenta o custo, aumenta o Fisco estadual querendo arrecadar e vira uma bola de neve.

Gabriel – E muito possivelmente o cliente final vai ser impactado também. O impacto não é só no provedor, ele vai ser percebido [pelo assinante]. E o provedor vai ter que revisar inclusive o planejamento de crescimento: ele vai ter primeiro que medir o impacto para retomar uma expansão e um crescimento.

Raquel – E a empresa que fornece o SVA, ela vai ser impactada também. Será todo um ecossistema impactado…

Diante do cenário de aumento de custos, há risco de “quebradeira” entre provedores, como parece ser o caso em outros segmentos da economia?

Raquel – Existe. O [preço do] cabo aumentou, e a gente compra em dólar e entrega em reais. Hoje temos uma falta de matéria-prima para roteadores, e vai aumentar o preço e eu não posso repassar ao consumidor. Muitos provedores vão pensar muito bem se vão ampliar a rede ou não, porque não dá para continuar com o tíquete médio baixo e os custos aumentando. Quando se amplia uma rede, tem que ampliar veículos, funcionários, toda uma cadeia que aumenta o custo do provedor. E a rentabilidade fica menor.

Hoje uma empresa que tem, digamos, 10% ou 11% de lucro líquido e não está regularizada, ela não vai comportar os custos. E aí o que é que vai acontecer? Ou ela vai vender ou ficar pelo caminho. Não existe mais espaço para falhas agora, qualquer movimento negativo de uma empresa pode levar ela a uma falência.

Qual balanço a InternetSul faz das iniciativas de regularização de banda larga da Anatel? Isso pode ajudar a saúde das empresas regulares?

Raquel – Somos totalmente a favor, a gente só entende que alguns dados são desnecessários, por serem dados sensíveis. Mas esse movimento precisa acontecer: legalizar e retirar aquele que está errado, para ele sair fora, ou que seja penalizado. Ele está impedindo que as empresas que são corretas e que estão trabalhando de forma legal se mantenham. Essa empresa não consegue aumentar o tíquete médio e os custos fixos estão aumentando, enquanto o faturamento está estabilizado.

Gabriel – Pense naquele provedor que está 100% legalizado, disputando o mercado com aquele que está 0%. E o valor praticado é o mesmo. Ele não tem nada legalizado e cobra R$ 100; eu tenho tudo legalizado e tenho que cobrar os mesmos R$ 100, se não ele vai tomar o meu cliente. Então a legalização tem também um benefício por trás que vai fazer, na prática, que haja uma competição de mercado justa, onde todos estão submetidos à mesma regra do jogo. Mas é um movimento que tem que ser construído, não pode ser de zero a 100 em três segundos. Tem que ser gradual.

A pauta dos postes é considerada uma prioridade para a entidade. Existe algum modelo que a InternetSul avalie como ideal para as discussões no Congresso ou nas agências?

Raquel – Precisa ter regras claras e atualizadas, porque na norma antiga diz que só podia ter seis ocupantes da infraestrutura e hoje a gente sabe que existem mais de 30, 40, 50 empresas ocupando algumas infraestruturas. Também existe o valor do poste, porque não existe nenhuma uniformidade no valor da cobrança. Alguns pagam R$ 10, outros pagam R$ 15 ou R$ 20. Então, é algo que faz com que a concorrência seja desleal.

E a gente precisa saber o valor correto desse poste, porque a hora que o provedor [que não está regular] souber: “eu vou pagar R$ 5,50”, ele vai legalizar a rede. Hoje essa clandestinidade na ocupação de postes é muito pela empresa não saber qual vai ser a conta depois que ela apresenta o projeto. E as concessionárias [de energia] poderiam talvez estar arrecadando um valor muito mais expressivo com um valor de cobrança menor, porque a regularização seria maior.

Apesar da grande participação feminina na força de trabalho de telecomunicações, você é uma das poucas lideranças institucionais do setor. O que pode ser feito para mudar esse quadro?

Raquel – A Abrint lá atrás começou um movimento e a InternetSul está crescendo esse trabalho com as mulheres na nossa região, para trabalhar esse problema. As mulheres têm que entender que o papel delas vai além de ficar nos bastidores, fazendo as coisas acontecerem.

Tu podes ir para dentro de uma empresa e vai ver que é uma mulher no financeiro, é uma mulher da RH. A minha empresa [a provedora gaúcha BrasRede] é um pouco disruptiva, eu tenho mulheres instaladoras desde 2013. Elas sobem em postes, sobem no telhado e têm uma percepção muito maior aos detalhes. Ao entrar na casa de um cliente para fazer uma instalação e deixar o ambiente que ela encontrou limpo, ou a lidar com uma criança, pois muitas vezes as portas das casas são abertas por menores. A mulher dá um tom de seriedade e organização. Essa postura tem que ser única e cultural dentro da empresa.

Estamos desenvolvendo um projeto – não é algo só de fala, mas algo que está sendo construído, com objetivos. Hoje eu estou na gestão, mas no futuro pode ser que um homem assuma, e temos que continuar.

Para encerrar, qual balanço da edição de 2026 do LinkISP?

Gabriel – Crescemos o evento nessa edição em 35% [em metragem quadrada] e superamos o nosso recorde, com mais de 110 expositores, incluindo os principais players do setor no Brasil e na América Latina, que estão presentes. Em relação ao ano passado a gente deve crescer de 15% a 20% no público, e o faturamento acompanhou tudo isso. Também trouxemos inovações como uma Arena Cyber e uma arena de competição técnica, para eleger a melhor dupla de técnicos do Rio Grande do Sul, a partir de um desafio entre os provedores associados.

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