Reitores alertam: sem conectividade no interior, soberania digital ficará concentrada nos grandes centros
A estratégia brasileira de soberania digital corre o risco de reproduzir as desigualdades de infraestrutura do País se os investimentos em inteligência artificial, capacidade computacional e serviços digitais não vierem acompanhados da expansão da conectividade para o interior. O alerta foi feito por dirigentes de universidades estaduais, municipais e institutos federais durante o Fórum RNP 2026, em Brasília.
Na avaliação apresentada pelos reitores, ampliar supercomputação, data centers e infraestrutura nacional de dados resolve apenas parte do problema. Instituições instaladas fora dos grandes centros ainda convivem com limitações de conectividade que restringem o acesso a recursos digitais e tornam mais difícil distribuir territorialmente os benefícios dos investimentos tecnológicos.
Leonardo Beroldt, representante das universidades estaduais e municipais, afirmou que essas instituições estão presentes justamente em regiões nas quais a oferta de infraestrutura é mais limitada. A entidade representada por ele reúne 46 instituições filiadas, sendo 37 estaduais e nove municipais, que somam cerca de 450 unidades e campi.
Conectividade ainda falha no interior
Beroldt relatou que sua própria universidade continua enfrentando problemas de conexão em unidades do interior mesmo depois de abandonar um contrato único de internet e adotar contratações regionalizadas.
A situação levou o reitor a colocar a expansão das redes no centro da discussão sobre soberania digital.
“Como levar essa conectividade, como levar a fibra óptica para o interior do nosso país?”
O dirigente também defendeu que a infraestrutura das universidades estaduais e municipais seja considerada na formulação das políticas públicas digitais. A presença física dessas instituições poderia servir de apoio à expansão de serviços tecnológicos de estados e municípios.
Rede federal chega a mais de 600 municípios
O mesmo problema foi apresentado por Júlio Xandro Heck, presidente do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif).
Segundo Heck, os institutos federais estão presentes em mais de 600 municípios. Essa capilaridade coloca a rede pública de ensino em localidades que nem sempre atraem, nas mesmas condições dos grandes centros, investimentos privados em infraestrutura digital.
O dirigente diferenciou a dinâmica das grandes cidades daquela encontrada no interior. Enquanto mercados maiores conseguem atrair fornecedores privados para projetos de transformação digital, municípios menores apresentam maior dependência da atuação do Estado.
Nesse contexto, Heck apontou a RNP como uma das estruturas capazes de apoiar instituições afastadas dos principais centros econômicos por meio de conectividade e soluções compartilhadas.
Data center chega ao Nordeste
O debate ocorre no momento em que a RNP começa a ampliar também a distribuição territorial de sua capacidade computacional. Nesta terça-feira, 25, a organização lançou o Centro Nacional de Dados do Ceará (CND-CE), que se soma às estruturas existentes em São Paulo e no Distrito Federal.
Instalado em Fortaleza, o CND-CE terá conexão direta ao backbone da Rede Ipê e links redundantes de 100 Gb/s. A infraestrutura poderá ser utilizada para inteligência artificial, aprendizado de máquina, computação de alto desempenho e pesquisas intensivas em dados.
A discussão dos reitores acrescenta, porém, uma segunda dimensão à expansão dos data centers: a capacidade de processamento precisa estar acompanhada de redes que permitam às instituições distribuídas pelo território efetivamente acessar essa infraestrutura.
