Satélites nunca substituirão redes terrestres, diz Inatel
As redes não terrestres devem ampliar a disponibilidade dos serviços móveis em rodovias, áreas rurais e regiões remotas, mas não possuem capacidade para substituir a infraestrutura celular convencional. A avaliação é de Henry Douglas Rodrigues, gerente executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Inatel.
O executivo apresentou as possibilidades e limitações das NTN (Non-Terrestrial Networks) e da conexão direta entre satélites e dispositivos durante o Conecta Latam, no Rio de Janeiro*. Segundo Rodrigues, a tecnologia tende a se tornar habitual, mas funcionará de forma complementar às redes terrestres de 5G e, futuramente, de 6G.
“As redes não terrestres nunca, mas nunca mesmo, vão substituir as redes terrestres”, afirmou. “A rede satelital não tem capacidade para fornecer toda a demanda de dados que os usuários exigem, principalmente em áreas onde há concentração de muitas pessoas.”
População coberta, território desconectado
Dados da GSMA apresentados por Rodrigues indicam que 96% da população mundial já está coberta por redes terrestres. Os 4% restantes, equivalentes a aproximadamente 300 milhões de pessoas, formam o mercado mais evidente para a conectividade via satélite.
O potencial, contudo, não se limita à população sem cobertura. Usuários atendidos por operadoras móveis também perdem o sinal ao trafegar por rodovias ou se deslocar para regiões afastadas dos centros urbanos. Nesses casos, o dispositivo poderá alternar entre a rede terrestre e o satélite sem exigir uma ação do assinante.
Rodrigues ressaltou que cobertura disponível não significa acesso efetivo. Conforme apresentado, 38% da população mundial vive em áreas atendidas por redes móveis, mas não utiliza o serviço, principalmente por questões de renda, preço dos aparelhos ou falta de familiaridade com a tecnologia.
No Brasil, a diferença aparece na comparação entre a cobertura populacional e a rural. Enquanto 93% da população conta com conectividade móvel de forma geral, o índice cai para 65,8% no meio rural.
“Cobertura populacional não significa cobertura territorial, logicamente, uma vez que grande parte das pessoas se concentra nas cidades. Então você tem grandes territórios sem cobertura nenhuma”, observou.
O executivo informou que 118 operadoras móveis já mantêm algum tipo de parceria com fornecedores de satélites. Essas companhias representam 70% da base mundial de conexões e participam de 275 acordos distribuídos por 101 países.
“A conectividade móvel via satélite vai virar uma normalidade, algo corriqueiro do nosso dia a dia”, projetou Rodrigues.
D2D ainda entrega serviço equivalente ao 2G
O Direct-to-Device permite que o satélite se comunique diretamente com um smartphone ou equipamento de Internet das Coisas. A conexão dispensa antenas parabólicas, terminais externos ou outros dispositivos intermediários.
Na prática, o satélite funciona como uma estação radiobase instalada no espaço. O sinal enviado ao dispositivo é encaminhado posteriormente a um gateway terrestre e integrado ao núcleo da rede móvel.
Rodrigues destacou, porém, que essa comunicação enfrenta muitas limitações físicas. Além da latência provocada pela distância, o deslocamento do satélite interfere no sinal e a pequena antena do smartphone oferece um ganho reduzido. Segundo o executivo, o sinal recebido do espaço pode ser 300 mil vezes mais fraco do que aquele transmitido por uma torre terrestre próxima.
A capacidade também é menor. Uma única faixa irradiada pelo satélite atende uma área extensa e precisa compartilhar o espectro entre todos os usuários. Nas redes terrestres, a divisão do território em células menores permite reutilizar as mesmas frequências e multiplicar a quantidade de dados transmitidos.
Atualmente, o D2D utiliza uma faixa de 5 MHz para transmissão e 5 MHz para recepção e oferece principalmente mensagens de emergência e SMS. “Enquanto na rede móvel terrestre estamos no 5G, a rede móvel não terrestre está no equivalente ao 2G. E, se eu colocar muito esforço, ela chega ao 3G”, comparou Rodrigues.
Um estudo apresentado pelo executivo estima que, mesmo com 15 mil satélites e 1.100 MHz de espectro, seria possível entregar 2 Mbps a 5,9% da população mundial. A velocidade é comparável à oferecida pelas redes terrestres mais antigas, de terceira geração.
Brasil reúne aplicações de alto valor
Apesar das restrições, as dimensões territoriais e a distribuição da população tornam o Brasil um mercado relevante para as NTN. Entre as aplicações citadas estão agronegócio, monitoramento da Amazônia e do clima, defesa civil, rastreamento de cargas, energia, mineração, educação e saúde.
O NB-IoT, tecnologia de baixo consumo originalmente desenvolvida para redes terrestres, já foi adaptado à comunicação por satélite. Uma das aplicações possíveis é o rastreamento de rebanhos em áreas sem cobertura celular. Rodrigues lembrou que o Brasil possui cerca de 200 milhões de cabeças de gado, que também podem se tornar pontos conectados.
O executivo mencionou ainda aeronaves de grande autonomia que operam em altitudes próximas a 20 quilômetros. Equipadas com estações radiobase, elas podem oferecer cobertura em um raio de aproximadamente 50 quilômetros por até 64 dias, além de transportar câmeras para serviços de observação.
No caminho para o 6G, a cobertura ubíqua passa a ser uma das premissas da nova geração. A integração entre redes terrestres e satélites já avança nas especificações do 5G Advanced e deve incorporar recursos de IA, sensoriamento e comunicação integrada.
*O jornalista viajou a convite do Conecta Latam
