Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

Brasil levou internet, mas deixou serviços digitais pelo caminho

O Brasil ampliou a banda larga, mas ainda precisa transformar o acesso às redes em aplicações capazes de apoiar políticas públicas, atividades econômicas e a gestão das cidades.

A avaliação marcou o painel de encerramento “Serviços Digitais e o Futuro da Conectividade Inteligente”, realizado durante o Conecta Latam, no Rio de Janeiro*. Participaram André Martins, presidente executivo do Instituto Brasileiro de Telecomunicações e Soluções Digitais (IBTD); Gina Duarte, CEO da Entidade Administradora da Faixa (EAF); e Thiago Curvello, chefe-executivo do Centro de Operações e Resiliência do Rio de Janeiro (COR-RJ). A moderação foi de Mauro Fukuda, consultor de tecnologia, redes e serviços de telecomunicações.

Para os executivos do setor, a próxima etapa da inclusão digital exige infraestrutura resiliente, cobertura territorial e capacidade de processar os dados produzidos por sensores, equipamentos e usuários.

Infraestrutura construída para pessoas
Martins afirmou que a rede brasileira foi planejada originalmente para conectar pessoas, não equipamentos, máquinas e áreas produtivas. A expansão da Internet das Coisas, do agronegócio conectado e das redes industriais passou a exigir uma cobertura territorial que não estava prevista no modelo original.

“Nós conectamos as pessoas, mas esquecemos de asfaltar o caminho dessa conectividade”, afirmou. Para o executivo, o desafio agora é garantir que a população tenha acesso às mesmas aplicações oferecidas nos grandes centros.

O presidente do IBTD defendeu mecanismos que estimulem operadoras nacionais e regionais a cobrir áreas rurais e regiões sem viabilidade comercial. Também propôs que o Redata seja acompanhado por uma política de incentivo à implantação de fibra de alta capacidade e resiliência.

Martins chamou a iniciativa de “Refibra”. A medida buscaria interligar áreas com disponibilidade de energia e potencial para receber data centers, mas que permanecem afastadas das principais rotas de transmissão de dados.

Dados de 50 mil sensores chegam ao COR-RJ
No Rio de Janeiro, sistemas de telecomunicações sustentam o monitoramento do trânsito, das chuvas, dos deslocamentos da população e de outros eventos urbanos. Inaugurado em 2010, o COR-RJ integra informações produzidas por secretarias municipais, operadoras e plataformas digitais.

“Hoje a gente tem mais de 50 mil sensores recebendo informação dentro do centro de operações. Se eu não tratar isso, é ruído para mim”, afirmou Curvello. O município também conta com cerca de 15 mil câmeras, cujas imagens precisam ser associadas a ferramentas de análise para gerar alertas e orientar decisões.

O centro utiliza IA para comparar as informações recebidas com padrões históricos. A tecnologia permite identificar, por exemplo, quando o tempo acumulado de congestionamento foge do comportamento esperado e exige alguma intervenção do poder público.

A estrutura reúne registros de semáforos, sirenes, câmeras, sensores de nível de rios e plataformas como o Waze. O COR-RJ também trabalha com informações das redes móveis para estudar deslocamentos, compreender a movimentação de turistas e mapear os trajetos realizados na cidade.

A estabilidade das comunicações é especialmente importante para aplicações críticas. Uma falha pode impedir o acionamento de uma sirene em uma comunidade ou interromper a coleta de informações usadas para prever ocorrências.

As limitações não estão restritas a municípios afastados. Segundo Curvello, regiões como Guaratiba e Jardim Maravilha ainda apresentam pontos nos quais não é possível instalar câmeras ou sensores de nível dos rios por falta de acesso adequado às redes.

Infovias alcançará 7 milhões de pessoas
Gina Duarte destacou o papel dos projetos executados pela EAF em áreas nas quais a implantação da infraestrutura não oferece retorno suficiente para justificar apenas o investimento privado. A entidade atua na limpeza da faixa de 3,5 GHz, no Norte Conectado e na construção da rede privativa de comunicação do governo federal.

No Norte Conectado, a EAF é responsável por seis infovias subfluviais. Três já foram implantadas e a quarta está em execução. Conforme a executiva, o conjunto deve beneficiar mais de 7 milhões de pessoas em mais de 70 localidades da Amazônia.

A fibra instalada nos rios é complementada por redes metropolitanas que atendem escolas, prefeituras, tribunais e outros órgãos públicos. Em diversas cidades, essas instituições ainda dependem de enlaces por satélite com capacidade limitada.

A operação das infovias é transferida a consórcios formados por empresas de telecomunicações. Em uma delas, 11 companhias se reuniram para assumir a manutenção e explorar comercialmente a capacidade instalada, sem arcar com o investimento inicial.

“Não é só a implementação de uma política, mas sim a sustentabilidade dessa política”, afirmou Gina. A chegada da fibra também viabiliza aplicações de saúde em municípios com poucos médicos ou sem especialistas, permitindo transmitir imagens de exames para a emissão remota de laudos.

*O jornalista viajou a convite da Conecta Latam

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