Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026

Testes de recepção indoor e topologia confirmam viabilidade técnica da TV 3.0

Campanhas de medição conduzidas pelas emissoras brasileiras comprovaram a eficiência da recepção indoor e da transmissão em topologia Slant para o padrão DTV+ (TV 3.0). Os resultados experimentais, essenciais para a definição da arquitetura dos novos sistemas de radiodifusão e para a segurança dos investimentos do setor, foram apresentados durante o SET Expo 2026, que acontece nesta semana em São Paulo.

A viabilidade da recepção interna, um dos pilares do novo decreto governamental para a próxima geração de TV, foi atestada por um estudo de campo conduzido na região metropolitana do Rio de Janeiro. A analista de Telecomunicações da Globo, Andressa Panice Muniz, detalhou que a engenharia da emissora avaliou 50 pontos utilizando o sinal transmitido em 277 MHz pelas estações do Sumaré e da Penha, com configuração MIMO 2×2 e modulação 16 QAM. Foram testados quatro modelos comerciais de antenas MIMO posicionados a um metro do chão, simulando a altura de um móvel residencial.

“A recepção indoor do DTV+ se mostrou viável, visto que a gente teve 94% de pontos de sucesso”, afirmou Andressa. Em 47 dos 50 locais houve decodificação adequada do sinal. A analista explicou que os três pontos de falha registraram potência inferior a -80 dBm. O uso de amplificadores de baixo ruído aumentou a margem de robustez do sinal nestes locais, mas não foi suficiente para recuperar as áreas sem cobertura.

Topologia Slant
Em paralelo, testes realizados em São Paulo avaliaram o desempenho da transmissão em VHF utilizando a topologia Slant, com antenas inclinadas em 45 graus positivos e negativos, em comparação com a configuração linear ortogonal tradicional. O coordenador de Sistemas de RF da Record, Emerson Costa, explicou que a equipe percorreu cinco localidades paulistanas para verificar a estabilidade do sinal gerado por um transmissor de 1,5 kW.

“A polarização Slant mais ou menos 45 apresentou distribuição de potência mais equilibrada entre os canais e menor assimetria em comparação à configuração HV linear, demonstrando maior estabilidade nos diferentes cenários analisados”, destacou Costa. As medições indoor, realizadas a 1,6 metro e 2 metros de altura, mostraram que a topologia mitiga perdas por rotação de polarização e aproveita melhor a diversidade espacial inerente à tecnologia MIMO.

O painel, moderado por Cristiano Akamine, conselheiro Deliberativo da SET e professor do Laboratório de TV digital da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, contextualizou que os esforços das emissoras respondem diretamente ao decreto governamental da TV 3.0. A regulação estabelece que os novos receptores deverão ter antenas embutidas ou acopláveis, alterando o paradigma atual.

O engenheiro de Projetos de Radiodifusão da LM Telecom, Alberto Botelho, explicou que a mudança exige uma revisão histórica do planejamento de radiofrequência, que nas gerações anteriores considerava antenas externas instaladas a 10 metros de altura. Com a nova premissa de recepção a 1,5 metro do solo e os obstáculos estruturais (perda de penetração) das residências, a necessidade de intensidade de campo é significativamente maior.

Botelho apontou que cálculos recentes provaram ser possível cobrir a população metropolitana com uma intensidade de campo de 63 dBµV/m na faixa de 300 MHz, desde que haja flexibilidade nos parâmetros de modulação. Este referencial numérico já consta no Ato de Requisitos Técnicos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), atualmente em consulta pública. “O projeto de cobertura da TV 3.0 é desafiador, precisa se adaptar aos novos conceitos de recepção, especialmente para antena interna e segmentação geográfica”, resumiu o engenheiro.

Além do desafio físico da propagação de radiofrequência, a arquitetura baseada em IP da TV 3.0 introduz uma complexidade inédita na camada de transporte das emissoras. O vice-presidente de Product Support and Engineering Services da Triveni Digital, Kota Sribuddharaju, alertou os tomadores de decisão para a necessidade de monitoramento proativo de toda a cadeia de entrega, do estúdio à torre.

“Manter a entrega contínua no ar é um grande desafio técnico”, afirmou Sribuddharaju. Ele destacou que a ausência de dados básicos, como o sinal de sincronização de rede chamado “bootstrap”, ou conflitos nas tabelas de sinalização de rotas, resultam em perda imediata de sintonia nos televisores. A solução exige a implementação de sistemas de garantia de qualidade de serviço (SQA) que façam a validação contínua do fluxo de bits em pontos críticos, como no gerador de rotas, no empacotamento STLTP e na saída RF.

Os estudos práticos de cobertura seguirão em expansão nos próximos meses. A equipe de engenharia da Globo, em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, já iniciou novas rodadas de medições indoor nas cidades de São Paulo e Brasília. Os dados coletados alimentarão os grupos de trabalho do Fórum Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD), fornecendo os insumos finais para as decisões operacionais do mercado de radiodifusão no processo de migração tecnológica.

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