Operadoras buscam novos modelos de negócio com plataformas de streaming
As operadoras de telecomunicações concordam que as ofertas de streaming têm impacto positivo em suas estratégias de fidelização de clientes e aumento de receitas, mas avaliam que chegou o momento de renegociar modelos de negócio com provedores de conteúdo, de modo a facilitar o acesso, sobretudo, para consumidores de rendas mais baixas.
O assunto foi levantado por Daniel Rocha, gerente sênior de Proposta de Valor Gestão de Receita da Vivo, durante o primeiro dia do +TV Forum, evento promovido por TELETIME e Tela Viva nesta quarta-feira, 12, em São Paulo.
“O custo do conteúdo está crescendo. Temos que trazer todos ao nível de consciência de que, para todos ganharem, é preciso ter concessões. O benefício financeiro [desconto em assinaturas convergentes] deveria começar antes, e não no fim da cadeira de valor”, afirmou o representante da Vivo.
Daniel Rocha ainda disse que o sucesso em parcerias entre operadoras e plataformas de streaming reside na flexibilização do modelo de negócio. “Estamos voltando a um cenário de empacotamento, e o mercado precisa ser racional para entender que essa dinâmica vai acontecer”, assinalou.
Alessandro Andrade, diretor de Produtos e Inovação da Claro, procurou trazer exemplos de como a relação entre os segmentos pode evoluir. Ele lembrou que a Claro tem cerca de 40 milhões de clientes pré-pagos, mas ainda lida com o “desafio de incluir soluções baratas que cabem no bolso deles”.
O executivo não eximiu o setor de telecom de buscar iniciativas inovadoras, ressaltando que é papel das operadoras montar estratégias de geração de valor agregado. Contudo, salientou que, em outros mercados, os provedores de conteúdo adotam parcerias mais aderentes às condições socioeconômicas da população.
“A Índia, por exemplo, tem soluções da Netflix só mobile. Então, a gente tem que repensar produtos que tenham custo mais baixo, mas com usabilidade. Estamos brigando com o tempo e o com o bolso das pessoas”, pontuou. “Temos que sentar com o ecossistema e negociar”, acrescentou.
Engajamento e preço
Bruno Diehl, diretor de Produtos da Nio (antiga Oi Fibra), disse que a empresa está dando os primeiros passos na estratégia de convergência de serviços, com foco em redução de churn (rotatividade de clientes).
Segundo o executivo, um terço da base de 3,2 milhões de assinantes já migrou para o novo portfólio e para contratos de preços congelados. Para movimentar a carteira, incluindo migrações para planos de maior valor, a ideia é anunciar, de tempos em tempos, novos pacotes. Entretanto, a Nio não planeja trabalhar com um amplo catálogo de streamings.
“Temos espaço para novas parcerias, mas estamos sendo muito cautelosos, pois queremos menos quantidade e mais engajamento e consumo. A nossa intenção é ter um portfólio não tão amplo, mas um nível de consumo de bastante engajamento nas plataformas”, explicou Diehl.
Mais adiantada na estratégia de agregação de conteúdo, a Vero tem 42% da base de banda larga com contratos com serviços adicionais. Desse total de vendas extras, 85% são streamings.
O CRO da empresa, José Carlos Rocha, salientou que, em função dos juros elevados e do avanço das bets sobre o orçamento dos consumidores, a Vero tem se debruçado sobre formas de tornar os serviços mais acessíveis aos assinantes. Recentemente, a operadora lançou planos de celular desvinculados da banda larga e pacotes customizáveis, o que pode incluir o Vero Vídeo e o Globoplay.
“Selic, bets – isso tudo tira o poder de compra. Entendemos que o consumidor tinha a necessidade de troca de operadora e entramos na oferta móvel standalone”, disse o diretor da Vero.
Na mesma linha, João Marcelo Silva, diretor Comercial da Watch, ressaltou que a fornecedora de TV por streaming em modelo white label tenta equilibrar o preço do serviço e as necessidades dos provedores, levando em conta curadoria e demandas regionais.
“É uma busca por entregar algo de valor, mas que caiba dentro de um pricing. Temos um desafio gigante de analisar o contexto regional e buscar adaptar a solução à realidade que o provedor enfrenta lá na ponta”, indicou Silva.
Pirataria
No mesmo painel, Sérgio Ribeiro, líder de DTH da Sky, lembrou que a pirataria ainda é um desafio para o mercado de TV e streaming no País. Em sua avaliação, caso transmissões ilegais fossem derrubadas, as operadoras teriam margens maiores nas ofertas de conteúdo.
“Sinceramente, o maior desafio que temos hoje não é o streaming, a conectividade, o SVA. É a pirataria. No Brasil, estima-se que só em 2026 a perda vai ser em torno de US$ 5,3 bilhões. A maior dificuldade que temos é disputar com esse tipo de serviço. Diminuindo essas perdas, a gente começa a resolver as margens”, avaliou.
