Anatel presidirá instituto de IA para o clima
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) presidirá, durante os dois primeiros anos, o comitê executivo do Artificial Intelligence Climate Institute (AICI), iniciativa voltada à capacitação para o uso da inteligência artificial no enfrentamento das mudanças climáticas. O instituto terá lançamento oficial na COP31, que acontece em novembro, na Turquia.
O AICI foi criado pelo governo brasileiro em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a União Internacional de Telecomunicações (UIT). No Brasil, a articulação envolve a Anatel e o Ministério das Relações Exteriores.
Segundo Pedro Ivo Ferraz da Silva, diplomata do Departamento de Clima do Itamaraty e presidente do Comitê Executivo de Tecnologia da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a iniciativa surgiu na agenda de ação da COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025.
A proposta é reduzir a falta de competências técnicas para o desenvolvimento da IA nos países em desenvolvimento. O foco complementa outras lacunas enfrentadas por essas nações, como a disponibilidade de infraestrutura computacional e de dados.
“O instituto não vai desenvolver as aplicações. Ele vai estudar a possibilidade de usar a IA nessas aplicações. Ele vai treinar as pessoas para que tenham consciência dessas aplicações, de como essas aplicações podem ser desenvolvidas”, explicou Pedro Ivo ao Tele.Síntese, durante evento organizado pela agência em Manaus (AM)*, com presença de representantes de países da África, América Latina e Europa.
Capacitação e parcerias
As atividades do AICI devem incluir workshops destinados a formuladores de políticas públicas e representantes da sociedade civil, além de laboratórios de implementação voltados a engenheiros e cientistas da computação.
Os conteúdos abordarão fundamentos da inteligência artificial, diferenças entre modelos de linguagem e maneiras de reduzir o consumo de recursos pelos sistemas. Entre as aplicações climáticas citadas estão a previsão de eventos extremos, os sistemas de alerta precoce, o combate ao desmatamento e a otimização de transportes e processos produtivos.
O modelo inicial de funcionamento será baseado em parcerias com instituições acadêmicas, organizações internacionais, provedores de conteúdo, agências de cooperação e entidades financiadoras. No segundo semestre, os articuladores pretendem buscar os parceiros que participarão da estruturação do instituto.
Um projeto-piloto foi realizado em Belém, em outubro de 2025, antes da COP30. O treinamento contou com conteúdo da organização Climate Change AI, apoio do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) na seleção dos participantes e recursos de entidades filantrópicas.
A iniciativa faz parte do Green Digital Action Hub, instalado na Anatel e voltado à articulação de projetos que relacionam tecnologias digitais e mudanças climáticas. A agência ficará responsável pela presidência inicial do comitê executivo do AICI, mas ainda não foi definido quem exercerá a função em seu nome. O Itamaraty também terá assento no colegiado.
Pedro Ivo ressaltou que a proposta não se limita à transferência de tecnologias prontas aos países beneficiados. “É a criação de capacidade para que países do Sul possam criar seus próprios modelos, desenvolver suas próprias soluções”, afirmou.
Banco Mundial avalia participação
O Banco Mundial discute com Unesco, UIT e Anatel uma possível participação na iniciativa. O formato ainda não foi definido e pode envolver a entrada da instituição como integrante, apoiadora ou financiadora.
“Ainda está sendo discutido como vai ser a melhor estratégia, mas eu acho que o Banco Mundial tem bastante interesse em participar”, afirmou Luciano Charlita, representante do Banco Mundial para desenvolvimento digital e inteligência artificial na América Latina.
Para o presidente da Anatel, Carlos Baigorri, a articulação internacional deve considerar as diferentes condições econômicas e tecnológicas dos países participantes. Segundo ele, a iniciativa permite reunir América Latina, Europa e África na discussão sobre os desafios da IA, da conectividade e da sustentabilidade ambiental e econômica.
*O jornalista viajou a Manaus a convite do evento Amazon ON
