Governo Lula diz a empresários não ver reversão de tarifaço no curto prazo
Empresários e executivos que estiveram em reuniões com o vice-presidente Geraldo Alckmin e com o ministro Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, nesta terça-feira, 21, saíram dos encontros com a impressão de que o governo Lula não espera conseguir a revogação do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros anunciado pelos Estados Unidos na semana passada.
Alckmin e o ministro Márcio Elias sinalizou aos empresários que o governo brasileiro ainda não pretende lançar mão da Lei de Reciprocidade e que, por enquanto, vai insistir no diálogo. Os executivos têm relatado ao governo preocupações de que uma eventual aplicação, pelo Brasil, de medidas previstas na Lei possa ter como efeito colateral uma escalada de sanções econômicas por parte de Trump contra o país.
A representantes de entidades setoriais de áreas diretamente afetadas pelo tarifaço, Márcio Elias disse que já solicitou ao representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, a retomada do diálogo pós-tarifaço. As tarifas passam a ser aplicadas nesta quarta-feira, 22.
Após o encontro, o vice-presidente Geraldo Alckmin voltou a dizer a jornalistas que a Lei da Reciprocidade “é um processo que tem um conjunto de etapas, passando por audiências públicas”, que não é uma retaliação aos americanos e que poderia ser aplicada “no momento oportuno, da forma adequada”.
Participaram dos encontros executivos ligados às indústrias automotiva e de autopeças, plásticos, elétrica e eletrônica, têxtil e de máquinas e equipamentos.
O ministro Márcio Elias ouviu de ao menos três representantes da iniciativa privada que o tarifaço de fato tem motivação política, mas que era preciso tentar ampliar a lista de exceções. Também escutou que os setores afetados têm buscado mobilizar clientes americanos, sobretudo grandes empresas, para que façam lobby contrário ao tarifaço.
“O mantra tem que ser o de negociar e também ceder no que for possível para ampliar a lista de exceções. Os americanos fizeram pedidos absurdos como uma forma de colocar bodes na sala, mas é preciso contornar isso”, afirma José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).
Demandas setoriais
Nos encontros convocados pelo MDIC para ouvir os setores industriais afetados negativamente pelo tarifaço, os integrantes do governo Lula também ouviram demandas sobre a nova versão do Programa Brasil Soberano em preparação pela equipe econômica. A medida buscará mitigar os efeitos da política dos Estados Unidos sobre os setores exportadores brasileiros.
Os empresários pediram, por exemplo, que a taxa de juros do crédito subsidiado oferecido fosse menor do que a da primeira versão do Brasil Soberano, lançada no ano passado, que girava em torno de 17% ao ano.
“A taxa não é tão elevada quanto a do mercado, mas ainda é alta, e é um empréstimo cuja liberação depende de garantias e análises cadastrais que muitas vezes dificultam o acesso dos pequenos negócios”, diz o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, que participou remotamente da conversa com o ministro Márcio Elias.
Outra medida defendida é a ampliação do regime Reintegra, que devolve aos exportadores parte dos impostos pagos ao longo da cadeia de produção de bens industrializados vendidos ao exterior
“Precisamos ampliar o período do prazo de referência adotado pelo programa para que as mais empresas exportadoras possam participar. E também pleiteamos aumentar o prazo para a concessão do drawback (que dá suspensão, isenção ou restituição de parte dos impostos na exportação) para insumos, porque muitos clientes, com o tarifaço, estão adiando as entregas”, diz José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que esteve nas duas reuniões. O setor de máquinas e equipamentos é um dos três que mais exportam para os EUA, segundo dados da entidade.
Humberto Barbato, presidente da Abinee, diz que a iniciativa privada entende o tarifaço como majoritariamente político e que não há razão comercial para a medida.
“Não vejo uma justificativa que não seja política para o tarifaço e entendo que o quadro é irreversível este ano, em função da proximidade das eleições brasileiras e também da política do presidente Trump de reindustrializar os Estados Unidos por meio de tarifas, mas temos buscado, pela diplomacia empresarial, mobilizar nossos clientes americanos para que eles façam pressão política nos EUA”, afirma Barbato.
No setor, o mercado americano respondeu por 26% das exportações nos últimos cinco anos e há dificuldade na abertura de novos mercados no curto prazo. “Diferentemente das commodities, os produtos elétricos são desenvolvidos para um determinado mercado e o processo de certificação exigido pelos governos é demorado”, explica.
