Terça-feira, 28 de Julho de 2026

Indústria brasileira reage a sobretaxa de 25% dos EUA sobre produtos

O anúncio de uma nova sobretaxa de 25% pelos Estados Unidos sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros já mobiliza entidades do setor produtivo. Essas entidades alertam para os impactos nas exportações, perda de competitividade e riscos para investimentos entre os dois países.

A medida, anunciada pelo governo norte-americano na quarta-feira (15/7), entrará em vigor a partir de 22 de julho. Em resposta, as entidades defendem a continuidade do diálogo diplomático e comercial para ampliar a lista de produtos isentos da tarifa ou mesmo reverter a decisão.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera que a nova sobretaxa agrava um cenário já desfavorável para as vendas brasileiras ao mercado norte-americano. De acordo com a entidade, 20 dos 27 estados brasileiros registraram queda nas exportações para os EUA no primeiro semestre deste ano.

“Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. Diante do anúncio de hoje, o cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.

A entidade também aponta que as exportações brasileiras para os EUA recuaram 13% em 2026, totalizando US$ 2,6 bilhões. Apesar da queda, os Estados Unidos continuam sendo o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira.

A Amcham Brasil também classificou o resultado da investigação como “muito negativo” para a relação bilateral. Segundo a entidade, a medida afeta mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio, colocando o Brasil entre os países com condições mais restritivas para acessar o mercado norte-americano.

Para o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, as negociações entre os governos dos dois países são essenciais para a remoção das sobretaxas. “Esperamos que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantenham abertos os canais de diálogo”, afirmou.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) lamentou a decisão, afirmando que ela reduz significativamente a competitividade do Brasil frente a concorrentes globais. A entidade planeja continuar trabalhando com parceiros nos EUA para reverter ou mitigar as tarifas por meio da ampliação da lista de produtos isentos.

Alguns setores já estão revisando suas projeções para o restante do ano. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) estima que a nova tarifa deve ampliar a retração das exportações do segmento em 2026. A previsão da entidade mudou de uma queda média de 3,6% para 7,1% no acumulado do ano.

Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, a decisão representa um retrocesso em uma relação comercial construída ao longo de décadas.

“A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano”, afirmou.

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) classificou as novas tarifas como “injustificáveis” e destacou que o mercado norte-americano é um dos mais importantes para o setor. A entidade solicitou apoio do governo brasileiro para incluir produtos ligados à geração, transmissão e distribuição de energia elétrica na lista de exceções às tarifas impostas pelos Estados Unidos.

INVESTIGAÇÃO DOS EUA

Baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, a investigação que determina a aplicação das tarifas questiona a atuação do Brasil em temas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

O documento também critica o Pix e o Banco Central do Brasil. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos alega que o Pix cria vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital.

Veja as acusações contra o Brasil:

* Comércio Digital e Serviços de Pagamento Eletrônico: EUA acusam o Brasil de restringir a atuação de empresas americanas de tecnologia e pagamentos, citando decisões judiciais que determinam remoção de conteúdos, bloqueio de perfis e multas às plataformas, além de alegar tratamento desfavorável a empresas de pagamentos eletrônicos.
* Tarifas preferenciais injustas: EUA afirmam que o Brasil concede tarifas de importação mais baixas a produtos do México e da Índia, por meio de acordos comerciais, sem oferecer o mesmo tratamento aos produtos americanos.
* Combate à corrupção: o USTR diz que o Brasil não adota medidas suficientes para combater o suborno e a corrupção.
* Proteção da Propriedade Intelectual: Alegam que o Brasil falha no combate à pirataria e à falsificação, demora na análise de pedidos de patentes e não aplica de forma consistente medidas de proteção à propriedade intelectual.
* Acesso ao mercado de etanol: O governo americano afirma que o Brasil deixou de oferecer tratamento tarifário recíproco ao etanol dos EUA após alterar sua política de importação em 2017.
* Desmatamento ilegal: EUA argumentam que, apesar de possuir legislação para combater o desmatamento ilegal, o Brasil não aplica essas normas de forma eficaz, permitindo a continuidade da prática.

OUTRAS TARIFAS

Além das taxas de 25%, o governo brasileiro aguarda a conclusão de uma segunda investigação que propõe uma nova taxa de 12,5% sobre produtos brasileiros. Essa nova medida é baseada em apurações sobre exploração de trabalho forçado. Após a conclusão das duas investigações, setores da indústria brasileira podem ser atingidos com até 37,5% de taxas.

 

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