Depois da transição energética, começa a transição digital do setor elétrico
O Energy Summit 2026, realizado na última semana no Rio de Janeiro, mostrou que o setor de energia entrou em uma nova fase. Se há poucos anos as discussões estavam concentradas na expansão das fontes renováveis, hoje o debate evoluiu para um desafio mais complexo: como operar um sistema elétrico cada vez mais distribuído, digital e inteligente.
Essa mudança reflete a própria evolução da matriz energética brasileira. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 90% da eletricidade produzida no país em 2025 teve origem em fontes renováveis, enquanto a geração distribuída ultrapassou 42 GW de potência instalada, impulsionada principalmente pela energia solar.
Esse avanço representa uma conquista importante, mas também transforma profundamente a operação do setor. Durante décadas, o sistema elétrico foi estruturado para administrar um fluxo relativamente previsível, baseado em grandes usinas de geração. Hoje, milhões de consumidores também produzem energia. Painéis solares, baterias, veículos elétricos e sistemas de microgeração passaram a integrar uma rede muito mais dinâmica e sensível às más condições climáticas e ao comportamento dos usuários.
Não por acaso, conceitos como inteligência artificial, digitalização, armazenamento, flexibilidade da rede e resiliência estiveram entre os principais temas discutidos no Energy Summit. A razão é simples: quanto mais complexo se torna o sistema elétrico, maior passa a ser sua dependência de dados.
Monitorar ativos críticos, antecipar falhas, equilibrar oferta e demanda, reduzir perdas e aumentar a eficiência operacional exige o acompanhamento contínuo de milhares de equipamentos distribuídos por toda a infraestrutura elétrica. Transformadores, subestações, linhas de transmissão, turbinas eólicas, inversores fotovoltaicos e sistemas de armazenamento geram, continuamente, informações que permitem compreender o comportamento da operação em tempo real.
Nesse contexto, a inteligência artificial ganhou protagonismo. Mas talvez uma das principais reflexões do evento tenha sido entender que ela não é o ponto de partida dessa transformação.
A IA depende de uma cadeia tecnológica muito mais ampla. Antes dos algoritmos existem sensores, dispositivos conectados, plataformas digitais e redes de comunicação capazes de transportar dados de forma segura e contínua. Somente a partir dessa base é possível identi?car padrões, prever falhas e apoiar decisões operacionais.
Em outras palavras, a qualidade da inteligência produzida depende diretamente da qualidade dos dados disponíveis.
