Domingo, 26 de Julho de 2026

Brasil tem de vencer gargalos para liderar transição energética

O maior desafio da transição energética brasileira não é apenas ampliar a geração de energia, mas integrar diferentes fontes de forma equilibrada para atender à crescente demanda impulsionada pela digitalização e pela eletrificação da economia. Durante o evento Energy Summit, realizado entre os dias 23 e 25 de junho, no Rio, e que teve parceria do Estadão, especialistas e executivos destacaram a necessidade de investimentos em infraestrutura, inovação e novas tecnologias para garantir segurança energética, descarbonização e competitividade ao País.

Com 48% da matriz energética ligada a fontes renováveis, como água, vento e sol (na média global, o porcentual é de 15%), o Brasil tem condições para assumir o papel de protagonista na transição energética global. O potencial permite, além de atender à demanda interna por energia de baixo carbono, se consolidar como exportador de combustíveis sustentáveis, tecnologias e soluções de descarbonização.

Um estudo da PwC Strategy do ano passado mostrou que a transição energética, aliada a atividades de bioeconomia e economia circular, poderá acrescentar R$ 930 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Segundo especialistas, é importante aproveitar o processo para tornar o País mais competitivo em determinados setores, sobretudo o industrial. Há muitos desafios para superar os obstáculos e conseguir aproveitar essa vantagem.

“Temos condições de atender nossa demanda interna e também exportar para o mundo, desde SAF (combustível sustentável de aviação) feito de sebo bovino até hidrogênio renovável”, diz o presidente da Aurum Energia, José Mauro Coelho. Na opinião dele, um dos desafios para ter sucesso nesse processo é escolher quais as melhores tecnologias para cada aplicação. Segundo ele, é importante analisar os atributos positivos e negativos de cada fonte e buscar a complementaridade e equilíbrio para evitar problemas como o de cortes de geração eólica e solar, conhecido no mercado como curtailment.

“Vemos o Brasil falando em ser polo de data center, e todo mundo querendo ter carro elétrico, mas acho que o grande desafio não é o quanto vai aumentar em geração de energia, mas como vai se operar tudo isso no sistema”, avalia Mauro Coelho. Ele destaca que o próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) admite que a operação mudou completamente, com altos índices de complexidade, e que ainda está entendendo como tudo funciona.

Para a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da Petrobras, Renata Baruzzi, o País não pode abrir mão de nenhuma forma de energia disponível. A Petrobras, destaca a executiva, tem investido muito em descarbonização e em novas energias. “No nosso plano

“Temos condições de atender nossa demanda interna e exportar para o mundo, desde SAF (combustível sustentável de aviação) feito com sebo bovino a hidrogênio renovável”

“Vemos o Brasil falando em ser polo de data center, e todo mundo querendo ter um carro elétrico, mas o desafio é o quanto vai aumentar de geração de energia para operar tudo isso no sistema” Mauro Coelho Presidente da Aurum Energia

estratégico, só para descarbonização e novas energias, temos previsto mais de US$ 13 bilhões para os próximos 5 anos. Entendemos que a acessibilidade dessas novas energias vai vir com a tecnologia. Hoje essas energias não são acessíveis”, afirmou Baruzzi.

Na Light, distribuidora do Rio de Janeiro, o foco é aproveitar o potencial do País e do Estado para atrair investidores em data centers. A empresa acaba de renovar o contrato de concessão e vai iniciar o maior plano de investimentos da história. São R$ 10 bilhões de investimentos nos próximos 5 anos. “O Rio de Janeiro tem todas as características necessárias para receber os data centers e se tornar um grande polo de desenvolvimento das Américas”, diz a superintendente de Comunicação e Sustentabilidade da Light, Giovanna Curty.

No ano passado, o Brasil teve o quinto maior fluxo de investimento estrangeiro direto em 2025, somando US$ 74 bilhões. Segundo Mauro Coelho, o País tem bons argumentos para continuar atraindo investidores e liderar a transição energética. Além do potencial de ampliação da matriz elétrica renovável, a vice-liderança global na produção de biocombustíveis líquidos, como etanol e biodiesel, é um bom trunfo para atrair novos grupos.

EÓLICA E GÁS. Junta-se a isso o desenvolvimento – ainda incipiente – da eólica offshore no País, que pode ser explorada mais no futuro após o aproveitamento dos projetos onshore (em terra). “Antes de ir para a offshore, temos de expandir o potencial interno”, avalia.

Já sobre o gás natural, tido como elemento fundamental da transição, o principal desafio nacional é levar o insumo para o interior do País e assim ajudar a descarbonizar indústrias que preferem o diesel ou outros combustíveis mais baratos. “O preço para a indústria brasileira usar o gás é de US$ 20 o milhão de BTU, enquanto nos Estados Unidos esse valor é de apenas US$ 4,3”.

Para o especialista, todos os países precisarão olhar as tecnologias disponíveis a partir do trilema da segurança energética em tempos de globalização, da sustentabilidade ambiental e financeira, além da equidade energética, em entregar a energia a todos de forma justa.

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