EUA criticam medidas de soberania digital e defendem atuação de big techs
O governo dos Estados Unidos classificou de “retrógradas” e “contraproducentes” as iniciativas de soberania digital postas em prática por diversos países e defendeu a atuação global de suas empresas de tecnologia, dizendo que elas “distribuem mais do que retêm” riquezas.
As críticas às iniciativas de soberania digital constam em artigo publicado nesta semana por Jacob Helberg, subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Econômicos e arquiteto da Pax Silica, uma iniciativa liderada pelos EUA para construir uma cadeia de suprimentos de silício, incluindo minerais críticos, semicondutores e infraestrutura de Inteligência Artificial (IA).
O subsecretário, em linhas gerais, afirma que soberania digital deve envolver inovação, e não “copiar” produtos já existentes no mercado.
Nesse sentido, Helberg reprovou o Pacto Digital Global da ONU, que tem como uma de suas bases a ideia de que cada nação possua o “mínimo irredutível” de infraestrutura de IA, como ser dono dos próprios dados, modelos e computadores para processamento de informações.
“Uma nação não é digitalmente soberana porque consegue reproduzir as inovações de ontem — metade do mundo consegue fazer isso. Ela é digitalmente soberana porque pode contribuir para as inovações de amanhã. Chame isso de soberania da inovação: o poder não de copiar o que existe, mas de criar o que ainda não existe”, afirma o subsecretário.
“Um país não se torna digitalmente soberano acumulando um modelo que ficará obsoleto em menos de um ano. Ele se torna digitalmente soberano ao dominar o ciclo que transforma sua própria experiência em vantagem”, complementa.
Atuação das big techs
No artigo, Helberg também sai em defesa das big techs norte-americanas. Segundo ele, “as grandes plataformas sempre distribuíram mais do que retiveram”, além de que tais empresas “geram mais riqueza acima delas do que capturam internamente”.
Citando o CEO da Microsoft, Satya Nadella, o subsecretário de Estado dos EUA ainda diz que as plataformas norte-americanas construíram um “ecossistema de fronteira”, no qual o valor flui “para fora, para todas as empresas, setores e países com os quais entra em contato, em vez de se concentrar nas mãos de quem por acaso detém o silício”.
Comparação com 5G
Helberg ainda faz uma comparação com a implantação das rede 5G nos Estados Unidos. O subsecretário lembra que “os Estados Unidos não tinham um campeão nacional para construir os rádios e as estações rádio base que compõem o núcleo da rede”. Com isso, “poderiam ter declarado emergência de soberania digital e gastado uma fortuna para criar um fabricante nacional do zero”.
Contudo, as redes 5G foram implantadas com equipamentos de fornecedores internacionais – vale lembrar que fabricantes chineses foram banidas das infraestruturas de telecomunicações no país.
“As empresas norte-americanas compraram os equipamentos de aliados de confiança e liberaram sua genialidade na camada superior: a nuvem, o software, a inteligência artificial que agora move o mundo. Os Estados Unidos não conquistaram o futuro fabricando a antena. Conquistaram-no construindo tudo o que passa por ela”, pontua.
Segundo ele, essa seria exatamente a lógica por trás da Pax Silica, por meio da qual “parceiros de confiança que trocam suas vantagens realizam o que nenhuma nação isolada consegue fazer sozinha”.
“Os defensores da soberania digital acreditam que estão preparando suas nações para o futuro. Na verdade, estão conduzindo-as, em formação perfeita e bem financiada, de volta ao passado. A soberania digital nunca foi um muro, e nunca foi uma cópia. Sempre foi uma fronteira — e as únicas nações que serão digitalmente soberanas na era da inteligência são aquelas ousadas o suficiente para continuar expandindo-a, rumo ao território que ninguém construiu ainda”, argumenta o subsecretário norte-americano.
