Sexta-feira, 17 de Abril de 2026

MVNOs de IoT avançam, mas veem pressão sobre margem e regulação

As MVNOs dedicadas à Internet das Coisas continuam vendo espaço para expansão no Brasil, mas o painel sobre o tema no Fórum de Operadoras Inovadoras, evento organizado pelos sites Mobiletime e Teletime, mostrou um setor que tenta crescer ao mesmo tempo em que lida com margens apertadas, dependência das operadoras móveis e incertezas regulatórias.

No debate, que contou com Carlos Campos, Vice Presidente de vendas Latam e general Manager Brasil Emnify, Pablo Guaita, Diertor Geral Deutsche Telekom Global Business, Thiago Rodrigues, CEO da Links Field e Tomas Fuchs, CEO Arqia, os executivos afirmaram que a base de dispositivos conectados deve seguir avançando em ritmo de dois dígitos, puxada por rastreamento, meios de pagamento, telemetria e automação. Ao mesmo tempo, apontaram que o ambiente regulatório e o custo de operação seguem no centro das preocupações.

Thiago Rodrigues resumiu o tamanho da oportunidade ao dizer que o mercado brasileiro de IoT cresceu mais de 15% no ano passado e ainda tem muito espaço à frente. Segundo ele, ao contrário do mercado consumer de celular, que já parou de crescer em volume, o universo de “coisas conectadas” no Brasil ainda está muito aquém do observado em Europa e América do Norte. “Esse mercado continuará crescendo com double digits pelos próximos anos”, afirmou.

Tomas Fuchs fez avaliação semelhante sobre o potencial, mas observou que segmentos como agro ainda estão em estágio inicial. “A gente ainda vê muito pouco no agro, a indústria 4.0 não existe”, disse, ao argumentar que o país ainda está distante do nível de adoção tecnológica visto em outros mercados.

PGMC divide opiniões e eleva incerteza
O novo PGMC apareceu como o ponto de maior divergência no painel. Carlos adotou tom mais cauteloso e disse que a mudança frustrou expectativas, mas faz parte do ambiente regulatório com o qual o setor terá de conviver. Para ele, ainda existe espaço para discussão sobre revisão do tema, mas o mercado precisa se adaptar às regras em vigor.

Pablo também ligou o tema à competitividade. Segundo ele, quanto mais o ambiente favorecer a atuação das MVNOs, maior será a capacidade de capturar nichos e multiplicar casos de uso. “A competitividade é essencial”, afirmou, ao defender que as operadoras virtuais cumprem papel específico ao atender setores e aplicações mais especializadas.

Tomas foi o mais pessimista. Ele afirmou que o novo PGMC “coloca praticamente um ponto final em MVNOs novas” e disse duvidar da entrada de novos autorizados no mercado. Na parte final do painel, ao responder a uma pergunta da plateia, foi ainda mais duro: “Minha recomendação para quem quer ser um MVNO autorizado é não ser”. Na visão dele, o principal problema passa a ser a relação contratual com as operadoras móveis, já que as MVNOs autorizadas dependem de renovação de acordos que, em geral, têm ciclo de cinco anos.

Carlos contrapôs que o modelo autorizado também traz ganhos, sobretudo para empresas que precisam de mais controle de rede e maior liberdade para desenvolver soluções avançadas. Segundo ele, a autorização amplia acesso a funcionalidades e pode ser importante, por exemplo, para serviços ligados a eSIM e SGP.32.

eSIM cresce
O avanço do eSIM foi destaque. A percepção geral foi que o mercado finalmente começa a ganhar escala, especialmente em POS. Tomas disse que esse é hoje o principal segmento de adoção do eSIM dentro da Arqia e afirmou que a empresa já tem “quase 10% da base” conectada nessa modalidade.

Pablo lembrou que a Deutsche Telekom já opera com eSIM no Brasil desde 2017, com experiência acumulada principalmente no setor automotivo. Carlos disse que a Emnify já investe em infraestrutura SGP.32 com gestão exposta em plataforma ao cliente, o que deve ajudar a acelerar projetos em larga escala a partir de 2026.

Além de POS, rastreamento e telemetria aparecem como as próximas frentes naturais de adoção do eSIM. Thiago observou que, nesse mercado, o ganho logístico pode ser ainda mais relevante do que em máquinas de pagamento, porque os ativos muitas vezes estão espalhados por todo o país, sem um ponto fixo de manutenção. Segundo ele, há clientes que demoram meses para concluir uma operação de troca de fornecedor em rastreamento, justamente pela dispersão dos dispositivos.

Combinação entre celular e satélite
Outro eixo do debate foi a combinação de tecnologias. Carlos defendeu que uma das funções das MVNOs de IoT é justamente entregar conectividade multirrede e multitecnologia. Para ele, o Brasil tem cobertura celular em todos os municípios, mas ainda possui só uma parcela limitada do território efetivamente coberta. “Só 17% do território é coberto. 83% não tem nada”, afirmou. Na visão da Emnify, o NTN tende a ser a resposta mais escalável para preencher essa lacuna.

Carlos citou como exemplo projetos de rastreamento de ativos e contêineres que continuam conectados via satélite fora da área celular. Pablo também ligou o potencial de crescimento à complementaridade entre rede móvel e satélite, especialmente em agro e outros ambientes remotos. Segundo ele, a Deutsche Telekom já trabalha com soluções integrando plataformas LEO e GEO em outros mercados.

Thiago afirmou que, em transporte e rodovias, o satélite aparece hoje como camada de fallback da rede celular. De acordo com o executivo, o principal obstáculo ainda é o custo, que segue muito acima do 4G terrestre, embora o setor veja essa barreira como questão de timing e escala. Tomas adotou uma visão mais conservadora e disse que o NTN ainda está caro demais para ganhar volume no Brasil no curto prazo, embora já existam projetos híbridos em campo, inclusive com satélite chegando ao local e rede móvel distribuindo conectividade na ponta.

A ampliação de eSIM, SGP.32 e NTN, segundo os painelistas, também depende do amadurecimento do ecossistema de dispositivos, pois faltam mais módulos e devices preparados para esse ambiente.

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