Sexta-feira, 3 de Abril de 2026

Investimentos tornam setor de transformação do plástico mais competitivo

A indústria de transformação de plástico demonstra otimismo em relação ao desempenho do setor para o ano de 2026, de acordo com estimativas feitas pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).

A entidade informa ter atingido faturamento de R$ 168 bilhões em 2025, contra R$ 164,79 bilhões em 2024. Foram produzidas 7,46 milhões de toneladas, com crescimento de 2%.

Talvez o aspecto mais positivo do sentimento dos dirigentes da entidade seja a perspectiva de investimentos. São esperados R$ 31,7 bilhões em projetos de ampliação de capacidade produtiva e modernização das plantas industriais país afora até 2027. A fatia principal desse montante deve ser destinada às empresas de embalagens sustentáveis, ampliação industrial, logística reversa e tecnologias de reciclagem.

O presidente do Conselho da Abiplast, José Ricardo Roriz Coelho, reforça que a combinação entre desempenho econômico, inovação tecnológica e economia circular posiciona o setor de transformação do plástico de forma estratégica.

Investimentos tornam setor de transformação do plástico mais competitivo QD© divulgação
Coelho: setor começa 2026 com otimismo e foco na inovação

De acordo com o dirigente, os resultados de 2025 apontam crescimento e resiliência do setor de transformação do plástico.“Com mais de 14 mil empresas em atividade e 404 mil empregos diretos, as indústrias de reciclagem e fabricação do plástico permanecem como o quarto maior empregador da indústria de transformação. Mesmo diante de ambiente desafiador, o setor apresentou indicadores consistentes que reforçam sua relevância para a economia nacional”.De acordo com a Abiplast, no ano passado os investimentos alcançaram R$ 5 bilhões apenas no primeiro semestre, com foco na modernização industrial, tecnologias sustentáveis e expansão fabril. Houve elevação em torno de 8% nas importações de transformados plásticos, reflexo da forte chegada de produtos chineses, que hoje representam em torno de 60% da pauta de importações de transformados plásticos no Brasil. Em 2025, as importações alcançaram perto dos US$ 5,2 bilhões. Na contramão, ocorreu aumento de 4% nas exportações, com melhora na presença de produtos nacionais nos países vizinhos. Elas representaram algo próximo dos US$ 1,43 bilhão. O número de trabalhadores empregados evoluiu 1%.A associação destaca a expansão da reciclagem mecânica e o avanço de programas de rastreabilidade, que reforçaram a agenda de sustentabilidade e inovação em linha com o novo marco regulatório da logística reversa. Não foram fechados os números do ano passado, mas em 2024 a produção de peças obtidas com reciclados alcançou o número de 1,012 milhão de toneladas.

“O programa Recircula Brasil, iniciativa da Abiplast em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), consolidou-se como um dos principais legados da COP-30, realizada em Belém do Pará”, informou Coelho.

De acordo com informações da Abiplast (dado de 2023), os setores maiores consumidores de produtos plásticos em valor de consumo são:

Construção civil, com 28,3%
Setor de alimentos (19%)
Artigos para comércio no atacado e varejo (7,9%)
Indústria automotiva (7,2%)
e outros.
O processo produtivo mais utilizado é o da extrusão, responsável por 61% do material transformado. Seguem-se a injeção (25%), termoformação a vácuo (7%), produção de espumas (4%) e rotomoldagem (2%). Os materiais mais usados são PP (21%), PEBDL (16%), PVC e PEAD (15% cada), PET e PEBD (7% cada), PS (5%) e EPS (3%). Os reciclados responderam por 11% do total processado.

Equipamentos para o setor de transformação do plástico
No biênio 2023/24, os fornecedores de equipamentos para a indústria do plástico apresentaram resultados muito positivos, com evolução acima dos dois dígitos percentuais. Em 2025 esse desempenho não se repetiu. De acordo com Amilton Mainard, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico da Associação Brasileira da Industria de Máquinas e Equipamentos (CSMAIP/Abimaq), ainda não existem números fechados, mas o crescimento deve ter ficado aquém dos 10%.

“Para 2026, a expectativa é de manter o desempenho do ano passado ou crescer um pouco”. No início de 2025, a estimativa era a de manter o nível de crescimento alcançado em 2024. Um grande vilão da quebra da expectativa foi a manutenção da taxa Selic em níveis considerados muito altos.

“A indústria do plástico demonstra resiliência e protagonismo. Entramos em 2026 com bases sólidas, investimentos consistentes e uma agenda orientada por inovação, eficiência e sustentabilidade”.

Mainard espera repetir o bom resultado do ano passado QD© divulgação
Mainard espera repetir o bom resultado do ano passado

Outra dificuldade apontada foi a do ambiente internacional, abalado pelo tarifaço do governo Trump. No caso dos equipamentos, a taxa imposta de 40% ainda se encontra em vigor. “Não somos grandes exportadores para os Estados Unidos, mas o desempenho do setor foi afetado de maneira indireta. Muitas empresas que exportavam produtos distintos foram afetadas e postergaram investimentos, sem falar na insegurança que a medida provocou na economia interna”, apontou.Entre os bons clientes, Mainard aponta as empresas de transformação com participação significativa no mercado. “Os novos equipamentos elevam produtividade e economia de energia elétrica e os grandes grupos sabem que para se manterem competitivos precisam incrementar a tecnologia”. Outro nicho relevante é o do mercado que opera com materiais reciclados. “A reciclagem está a todo vapor, é um segmento dos que mais têm investido em equipamentos”. Destaque também para a construção civil. “Os transformadores do setor sabem que precisam renovar suas linhas”.Construção civil influencia o setor de transformação do plástico
O desempenho de alguns segmentos da economia grandes usuários de peças plásticas influencia diretamente no desempenho da indústria de transformação do plástico. É o caso do maior comprador, o setor da construção civil. De acordo com projeções do Sindicato da Indústria da Construção Civil do estado de São Paulo (Sinduscon-SP), o PIB do setor deve ter crescido 1,8% no ano passado. Houve desaceleração, já que em 2024 o aumento tinha superado a casa dos 4%.

Para esse ano, a previsão é de retomada. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) o resultado esperado para 2026 é o de evolução de 2,7%. O otimismo vem acompanhado com sentimento de cautela. Os juros elevados e a questão fiscal preocupam os empresários do setor.

“No mínimo teremos um ano turbulento em 2026 e algo precisará ser feito em relação aos gastos públicos em 2027”, avalia Eduardo Zaidan, vice-presidente do Sinduscon-SP.

Alguns aspectos geram otimismo. Esse ano é de eleição e o investimento em infraestrutura deve registrar crescimento 3,9% neste ano no país. O Programa Reforma Casa Brasil, lançado pelo Governo Federal no ano passado e que oferece crédito facilitado de R$ 40 bilhões para reforma, ampliação ou melhoria das moradias urbanas deve ajudar.

De acordo com o FGV/Ibre, o ciclo de negócios imobiliários seguiu forte em 2025, com crescimentos maiores de vendas do que de lançamentos no país – as vendas foram puxadas pelas contratações do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Já os financiamentos com recursos da poupança registraram queda significativa.

Automóveis
A Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) projeta para 2026 um ano de resultados positivos, ainda que o cenário econômico seja desafiador. A expectativa é de que a produção de veículos deva evoluir 3,7%, divididos em 3,8% para veículos leves e 1,4% para ônibus e caminhões – isso representa a produção de 2,741 milhões de unidades. Estima-se haver elevação nos emplacamentos de 2,7% e das exportações em 1,3 %. Essa expectativa foi calculada a partir de cenário projetado pelo Itaú/BBA que prevê o país chegar ao final de 2026 com crescimento do PIB de 1,8%, desemprego na faixa dos 5,7%, taxa Selic de 12,25% e IPCA de 5%.

“O patamar elevado da taxa Selic e a persistência de tensões geopolíticas, que limitaram a recuperação mais consistente do setor ao longo de 2025, seguem presentes neste início de ano. Esse cenário nos leva a projetar um comportamento de mercado em 2026 bastante semelhante ao observado no segundo semestre, quando houve resfriamento das vendas”, afirmou o presidente da Anfavea, Igor Calvet.

Calvet: exportação de veículos cresceu 32,1% no ano passado QD© divulgação

Calvet: exportação de veículos cresceu 32,1% no ano passado

Para o dirigente, apesar de frustrar as expectativas mais otimistas, o ano passado foi positivo. Ele informa que os emplacamentos cresceram 2,1% em relação a 2024.

“Esperávamos algo em torno dos 5%. Queríamos mais, mas pelo terceiro ano consecutivo alcançamos resultado positivo”. Outro resultado comemorado foi o aumento de 3,5% na produção de autoveículos – o ano fechou com 2,644 milhões de unidades produzidas. “Esse resultado foi alcançado com a ajuda do aumento das exportações, que apresentaram expressiva alta de 32,1%”. Foram comercializados para outros países 528,8 mil unidades. Destaques para o crescimento de 85% das compras da Argentina e 19% da Colômbia.

A entrada de veículos estrangeiros subiu 6,6%, chegando a 498 mil unidades. O aumento foi puxado especialmente pelas compras feitas na China. O país asiático representou 37,6% dos 498 mil importados emplacados no Brasil em 2025. “Pela primeira vez, Mercosul e México não lideraram a lista, com países fora desses tradicionais parceiros representando 50,2% dos importados vendidos no país”. A expectativa é que, com a implantação de duas fábricas chinesas no Brasil, esses números devam recuar.

Entre os automóveis, uma tendência chama a atenção, a do crescimento das vendas dos veículos com propulsores com novas tecnologias, casos dos elétricos, híbridos e plug ins. Esses modelos representaram 11,6% das vendas do ano passado, se considerarmos apenas as vendas de janeiro de 2026, a participação aumenta para 16,8%. “Um número importante é que 35% desses veículos vendidos em janeiro foram produzidos no Brasil”, ressalta Calvet.

Um segmento que apresentou resultado bastante negativo em 2025 foi o de caminhões, cujas vendas caíram 20,5% em relação ao ano anterior. Os negócios foram fortemente impactados pela política de juros, em especial no nicho de caminhões mais pesados, cujo valor unitário dos veículos é bastante elevado.

Para tentar recuperar os negócios nesse nicho, o governo federal lançou no último mês de dezembro o programa Move Brasil, que oferecerá, até o próximo mês de maio, uma verba de R$ 10 bilhões para financiamento aos compradores a juros mais módicos. Na avaliação de Calvet, o programa é muito bem-vindo e deve ajudar na recuperação dos negócios. “Apenas em janeiro, com o programa recém-lançado, o BNDES já liberou R$ 1,3 bilhões na modalidade”.

Setor eletroeletrônico
A indústria elétrica e eletrônica encerrou 2025 com faturamento de R$ 270,8 bilhões, com crescimento real (descontada a inflação) de 4% na comparação com 2024. Para 2026, é esperado que o setor atinja o faturamento de R$ 289 bilhões (crescimento de 3% descontada a inflação). Esse ano, a produção física do setor deverá crescer 2%. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Elétricos e Eletrônicos (Abinee).

Os investimentos deverão ficar em 1,73% do faturamento, totalizando R$ 5 bilhões. Esse resultado é 7% superior ao de 2025. As exportações deverão aumentar 3% e as importações crescerão 4%. A utilização da capacidade instalada deverá recuar de 78% para 77%. Tais números foram obtidos a partir de projeções da associação que avaliam crescimento do PIB para 2026 por volta de 1,5%.

As previsões da Abinee vêm acompanhadas de pedidos de cautela. Há expectativa de que o ano apresentará desafios. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) do Setor Eletroeletrônico, de acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) agregados pela Abinee, permanece abaixo de 50 pontos, o que indica incertezas dos empresários em relação ao clima econômico. A questão fiscal e a taxa de juros elevada são os fatores maiores da desconfiança. Acrescente-se o fato de 2026 ser um ano eleitoral, o que pode gerar instabilidade.

Preocupa também o cenário internacional diante das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos. A imposição de tarifas de 50% sobre diversos produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano afeta as exportações de alguns itens, como transformadores e motores.

Brinquedos
Importante para a indústria do plástico, o segmento de brinquedos se mostra bastante otimista para 2026. De acordo com Synésio Costa, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos (Abrinq), a perspectiva é de importante crescimento. Um dos motivos de seu otimismo se encontra na realização da Abrin, evento do setor apontado pela associação como o principal da América Latina. Ele será realizado de 1 a 4 de março no Expo Center Norte, na capital paulista.

“Na Abrin serão apresentadas em torno de 1,1 mil novidades”, destaca o dirigente.

A recuperação esperada se dá depois de um ano difícil, prejudicado em especial pela implantação do tarifaço norte-americano.

“Muitos navios carregados que iam para os Estados Unidos mudaram sua rota e despejaram milhões de brinquedos no Brasil e a receita federal não estava preparada para controlar a invasão”.

Costa: renovada, produção de brinquedos cresce desde 2020 QD© divulgação

Costa: renovada, produção de brinquedos cresce desde 2020

Dessa forma, de acordo com o presidente da Abrinq, a indústria nacional cresceu apenas 0,46%, enquanto as importações aumentaram 8%. O dirigente acredita que esse ano as importações serão melhor controladas e não vão atrapalhar a indústria nacional como no ano passado.

O faturamento do setor em 2025 deve ter ficado um pouco abaixo dos R$ 10 bilhões. O desempenho quebrou uma série de quatro anos bastante positivos. Para se ter ideia, em 2020 o faturamento era de R$ 7,5 bilhões. Uma das razões apontadas pelo excelente desempenho no período foi o da constante renovação da indústria.

“Em 2026, vamos fazer investimentos significativos. É uma característica da indústria de brinquedos, precisamos de novidades e lançamentos”.

Implantação novas plantas no setor de transformação do plástico
Os investimentos de R$ 31,7 bilhões previstos pelo setor de transformação do plástico até 2027 terão destinos diversos. Serão utilizados na implantação de novas plantas industriais e projetos de ampliação e modernização de capacidade produtiva. Entre os segmentos da indústria do plástico que receberão novos empreendimentos, o de embalagens de produtos de primeira necessidade, como os de alimentos e de higiene e limpeza, por exemplo, aparece com destaque.

A explicação dada por especialistas para esse fato é de que as vendas desses produtos podem oscilar, mas tais oscilações ocorrem dentro de margens reduzidas. Mesmo em épocas de queda do poder aquisitivo, os consumidores podem trocar marcas por outras de menor preço, mas não deixam de efetuar compras. Para ajudar, no momento atual essa oscilação tem sido positiva. Em 2025, o desemprego caiu, a renda do trabalho subiu e o consumo de produtos imprescindíveis para a população tem apresentado bons resultados.

A título de exemplo dos investimentos que ocorrem nesse nicho de mercado podemos apontar dois projetos de grande porte anunciados no final do ano passado. Um deles é a expansão e modernização da América Embalagens, fabricante brasileira de tampas e embalagens rígidas de plástico para os setores de alimentos, bebidas, limpeza doméstica, higiene pessoal e beleza. A empresa é uma das maiores do gênero na América do Sul, com unidades fabris nas cidades de Venâncio Aires-RS, Pinhais-PR e Jundiaí-SP, além de contar com fábrica na Argentina. Trabalha do design e desenvolvimento de moldes e peças até a fabricação dos produtos finais que atendam às necessidades dos clientes.

O projeto de investimento da América Embalagens conta com verba significativa, em torno de R$ 400 milhões, valor levantado a partir de financiamento oferecido pelo IFC, braço do Banco Mundial. Com a verba, uma das iniciativas da empresa será a de ampliar sua planta no estado de São Paulo com duas novas linhas para produção de bisnagas plásticas, iniciativa que permitirá a produção de 200 milhões de unidades por ano.

O cuidado com o meio ambiente é característica importante do projeto. Os investimentos preveem adoção de tecnologia de ponta, com benefícios como produção de resíduos próxima a zero, possibilidade de combinar tecnologias para proteção do produto final com materiais totalmente recicláveis e de usar embalagens plásticas monomateriais, assim como a produção de embalagens mais leves. As linhas serão capazes de utilizar até 80% de conteúdo reciclado, reduzindo a dependência de resinas virgens.

Outro empreendimento, também anunciado no final do ano passado, é o da Guaraniplast, empresa especializada no sopro de garrafas PET e polietileno. A empresa atualmente conta com planta industrial em Miraí-MG e anunciou a construção de nova fábrica no município de Poços de Caldas-MG. A expansão prevê o surgimento de novo polo logístico e produtivo, de modo a fortalecer presença da empresa nas regiões Sudeste e Sul.

Com investimentos de até R$ 70 milhões, a nova unidade será construída em área de 44 mil metros quadrados, com edificações entre 20 mil e 25 mil m2. As obras devem começar em 2026 e o início da produção está programado para 2028. O projeto prevê capacidade de produção de mais de 10 milhões de embalagens inteligentes por mês.

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