Soluções soberanas são prioridade para SES; meoSphere pode ser alternativa ao SGDC
Em conversa com TELETIME durante a Satellite 2026, que aconteceu esta semana em Washington, Ricardo Laguardia, VP de vendas para a América LAtina, revelou que a nova constelação meoSphere, que a SES pretende colocar em operação já em 2030, está sendo oferecida ao governo brasileiro como uma das possibilidades de infraestrutura soberana para atendimento às necessidades do País e para substituir o SGDC.
Laguardia comenta que hoje o grande desafio da empresa é focar em soluções que tragam valor agregado, sem entrar em Guerra de preços, e que existe um crescente interesse das operadoras na AMérica LAtina por soluções D2D
TELETIME – Durante a Satellite 2026, basicamente o que vimos foram as operadoras tradicionais apontando o mercado de governo e soberania como o espaço ainda a ser ocupado. Como vocês estão atuando na América Latina nesse front?
Ricardo Laguardia – Nosso foco está muito na parte de governo, especialmente em inclusão digital e segurança pública. Oferecemos soluções multi-órbita (GEO, MEO e LEO), pois as demandas são distintas. Para escolas, usamos LEO e GEO; para grandes capacidades de troncal nos estados, o MEO é muito eficaz. Além disso, fornecemos suporte de rede e sistemas de monitoramento próprio, que é um serviço de valor agregado à venda de conectividade. São ferramentas desenvolvidas por nós chamadas de SMP, e essas soluções são muito importantes porque nos dão uma visão geral das três órbitas, todas conectadas, permitindo ver todas as soluções entregues. É uma forma de mostrar a diferença nos serviços.
Existe uma guerra de preços no mercado por conta das soluções LEO. Como você se posiciona?
Simples: não entramos em guerra de preço. Se a questão for apenas preço, preferimos não participar. Nosso objetivo é incluir valor agregado de várias formas, oferecendo uma solução completa que inclui serviço satelital, instalação, monitoramento e serviço de campo. Outro diferencial é a questão da resiliência, importante para serviços públicos. O que está acontecendo hoje? Muitos países não têm resiliência de conectividade, mas são muito afetados por desastres naturais. Esse nicho de conectividade para resiliência é crucial, especialmente na América Central e Caribe e México. Estamos focando muito no MEO por ter um backbone forte que pode atender várias regiões e oferecer essa capacidade.
E a preocupação de soberania, como tem se colocado entre os diferentes países da região?
A soberania é o tema central do evento e estamos muito focados nisso. Somos uma empresa europeia estabelecida em Luxemburgo, que é um país neutro, sem vínculos com os americanos, chineses ou outros países. Isso nos permite oferecer a soberania que os países buscam, sem dependência de grandes potências.
No evento, a SES anunciou uma nova constelação, a meoSphere. E recentemente vocês celebraram um memorando de entendimento (MOU) com o governo brasileiro. Isso envolve usar a meoSphere?
São duas frentes. O MOU com a Telebrás é para inclusão digital em todo o país, começando com M-Power e depois fazendo a transição para a nova geração meoSphere sim. Ela está incluída nesse MOU, então os benefícios serão aproveitados pelo governo. Estamos trabalhando em um segundo MOU, também com a Telebrás, focado na questão da soberania, propondo o uso da constelação meoSphere como solução para substituir o SGDC, que termina sua vida útil em 2030, justamente quando a gente entra em operação.
Esse segundo MOU sai quando? O que garante os interesses soberanos do país?
Estamos finalizando e pretendemos que seja com a Telebrás também, mas claro que cabe ao governo a palavra final. Abordaremos a soberania não só com MEO, mas também com GEO para serviços militares. Nosso objetivo é oferecer multi-órbita, com foco no MEO. Será um uso totalmente soberano, com o gateway instalado onde o governo decidir, no COPE da Telebrás ou onde for mais conveniente. Somos bem flexíveis nisso. E o controle pode ser da Telebrás também. No meoSphere, é possível ter um payload específico para o Brasil, que passará todo o controle ao país, totalmente soberano. O que é feito hoje no SGDC poderia ser feito em um constelação de órbita média ou, se for a opção, um satélite GEO.
Vocês já têm um satélite GEO para isso ou vocês lançariam um satélite específico?
Se a conversa for nesse sentido e o acordo evoluir, poderíamos até lançar um satélite para atender essa nova demanda. Hoje nosso planejamento é para satélites GEO de menor custo e que possam ser lançados em menor tempo. Vai depender dos requisitos. Nosso relacionamento com a K2 Space acelera processos que antes demoravam anos, o que pode ajudar também na parte de GEO. O microGEO virou uma realidade. Estamos refazendo uma análise com a Telebrás para entender a demanda, pois a transformação é muito grande e o que foi feito no ano passado já mudou. O microGEO está se tornando mais viável.
E o mercado de satélites para operadoras? Como está esse segmento no Brasil no atual cenário competitivo?
Trabalhamos com as grandes operadoras oferecendo soluções de cell backhaul e enterprise. Da mesma forma que atendemos governos, o foco é no serviço: plataforma de monitoramento, atendimento, vantagens que a concorrência não tem. Da mesma forma, evitamos a guerra de preços, pois nosso foco é outro, e faz sentido, pois as operadoras buscam ter duas ou três soluções, e nós oferecemos GEO, MEO e LEO. O MEO tem tido grande êxito no norte do país nas parcerias com as operadoras. O LEO da OneWeb, parceira nossa, ajuda as operadoras a cumprir obrigações regulatórias.
O MEO hoje está com capacidade para atender tudo isso?
Dentro do mercado brasileiro, temos capacidade suficiente para atender do Norte ao Sul sem problema nenhum. Estamos usando o LEO também em operadoras, mas o foco é multi-órbita (GEO e LEO, ou MEO e LEO) porque muitas cell backhauls necessitam de maior demanda e baixa latência, ou outras latências. Mesclamos para oferecer mais resiliência.
E a Lynk, da qual você são sócios? Algum plano para direct-to-device na América Latina?
Já estamos trabalhando e está sendo muito bem aceito porque as operadoras querem ter dois fornecedores. Nossa solução será única, totalmente conectada com enlaces ópticos, com todas as órbitas (GEO, meoSphere, LEO e Lynk), criando uma infraestrutura satelital para atender qualquer serviço que as operadoras de 5G ofereçam pelas suas redes terrestres. Já temos um MOU na América Latina com a Lynk, ainda não divulgado, e tivemos testes com a Claro. Estamos avançando bem em acordos de D2D para atender chamadas de emergência, serviços militares e governo.
