Política de tecnologia para o ensino depende de conectividade e dispositivos, diz CEO da MegaEdu
A CEO da MegaEdu, Cristieni Castilhos, defendeu que a política de tecnologia para a escola pública, especialmente no ensino médio, depende de uma base material ainda incompleta: conectividade com Wi-Fi, dispositivos disponíveis dentro da escola e implementação estruturada do currículo de computação. Sem essa combinação, afirmou, o país corre o risco de ver a inteligência artificial avançar no uso informal dos alunos sem se converter em política educacional de escala. A fala ocorreu durante evento do Tele.Síntese, nesta terça-feira, 24, em Brasília.
Ao participar de painel sobre educação conectada, Cristieni disse que 2026 marca uma inflexão importante, porque a BNCC Computação entra em vigor como componente obrigatório nas redes públicas. Na avaliação dela, esse movimento cria uma oportunidade para que o debate sobre IA deixe de ser pontual e passe a integrar a formação escolar. “Esse ano, a gente tem um mecanismo que entra em vigor, que se chama a BNCC Computação, ou Currículo de Computação, que pela primeira vez vai ser obrigatório nas escolas públicas”, afirmou. Segundo ela, há também repasse de recursos federais condicionado à implementação desse currículo pelas secretarias estaduais e municipais.
A executiva ressaltou que a relevância dessa política decorre do peso da rede pública no ensino brasileiro. “80%, 85% dos alunos hoje estão na escola pública. Se a escola pública não estiver olhando para isso, a gente não vai dar um salto como país”, disse. Para ela, a escola não deve limitar o ensino de tecnologia à linguagem de programação ou ao treinamento operacional, mas trabalhar competências mais amplas. “Quando fala sobre ensino de tecnologia a gente tem que falar sobre o pensamento analítico, o raciocínio crítico que está por trás.”
Cristieni citou o Piauí como exemplo de rede que já incorporou IA de forma estruturada. Segundo ela, o estado desenvolveu currículo próprio e mostrou que a formação pode começar antes do ensino médio, com abordagem progressiva desde os anos finais do ensino fundamental. A executiva relatou ter visitado escolas da rede e observado atividades ligadas a computação com conteúdo técnico já no nono ano. Para ela, esse tipo de organização curricular é o que permite formar estudantes com base suficiente para seguir em cursos profissionalizantes e carreiras em tecnologia.
Apesar desse cenário, a CEO da MegaEdu insistiu que a política de tecnologia estimulante só se sustenta se houver acesso efetivo dentro das escolas. Na fala dela, o país está perto de universalizar a conectividade, mas ainda não resolveu a camada intermediária entre internet e aprendizagem. “A gente está, assim, muito perto de poder dizer, daqui a alguns meses, que a gente conseguiu levar internet e wi-fi para todas as escolas públicas. O desafio é justamente os dispositivos”, afirmou. E completou: “Não tem uso de tecnologia se o aluno não tiver um dispositivo.”
Para Cristieni, esse gargalo pesa especialmente sobre o ensino médio, etapa em que o uso pedagógico de IA, computação e outras ferramentas digitais pode ser mais intensivo. Ela afirmou que “nem metade das escolas hoje tem a quantidade de dispositivos adequadas segundo o referencial do MEC” e sustentou que a prioridade deveria estar nas escolas dessa etapa. “Se a gente botar no ensino médio, a gente está falando de 15 mil escolas de ensino médio, que não têm hoje a quantidade adequada”, disse.
A executiva também questionou a ideia de que o celular possa substituir a política de dispositivos escolares. Segundo ela, o uso individual do aparelho, além de sujeito a distrações, não oferece as condições adequadas para atividades mais estruturadas. “O celular não é feito para ser um dispositivo pedagógico”, afirmou. Na visão dela, a alternativa mais consistente é o equipamento da própria escola, mantido no ambiente escolar, com filtros, segurança e controle pedagógico. “Todas as evidências nos mostram que é mais sustentável e realmente dá muito mais impacto quando é o equipamento realmente da escola.”
Ao relacionar conectividade, equipamento e currículo, Cristieni argumentou que o país já reuniu parte das condições para avançar, mas ainda precisa fechar a equação da infraestrutura pedagógica. Sem isso, a IA continuará presente no cotidiano dos jovens, mas fora de uma política pública capaz de transformar esse uso em aprendizagem estruturada no ensino médio.
