Sexta-feira, 3 de Abril de 2026

Escolas conectadas expõem desafio de coordenação entre política pública, operadoras e provedores locais

A política pública de conectividade escolar avançou, mas o setor ainda enfrenta uma combinação de desafios regulatórios, logísticos e operacionais para transformar cobertura em uso efetivo nas escolas. Esse foi o diagnóstico apresentado por empresas e entidades envolvidas na Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e em projetos associados, durante painel do evento Edtechs 2026, do Tele.Síntese, nesta terça-feira, 24, em Brasília.

Segundo Flávio Ferreira dos Santos, da Eace/Aprender Conectado, a estratégia nacional identificou um déficit de 138 mil escolas sem conexão ou com conectividade inadequada. Dentro desse universo, a Eace tem meta de atender 40 mil unidades e já ultrapassou 20,5 mil escolas conectadas, com foco em áreas rurais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Ele afirmou que já foram implantados mais de 7 mil quilômetros de fibra e mais de 1,5 mil miniusinas fotovoltaicas para atender escolas sem energia.

A interface com o poder público começa na seleção das unidades. Flávio explicou que a priorização passa pelo GAPE, grupo liderado pelo Ministério das Comunicações com participação de Anatel, MEC e operadoras, enquanto o MEC envia a lista de escolas com base no censo escolar. A partir daí, são estruturadas as contratações.

Da política pública à porta da escola

Na ponta, porém, a execução depende de uma cadeia mais complexa. Laerte Magalhães, da iuh!, disse que depois da contratação vem a etapa de engajamento da escola, momento em que ainda há surpresa por parte das diretorias. “Muitas vezes as pessoas não acreditam: mas eu não tenho que pagar nada, a diretora fala, mas isso é gratuito, mas por quantos meses você vai cobrir a escola toda?”, relatou.

Ele apontou como um dos principais entraves a coordenação entre rede interna e rede externa, que em muitos casos ficam a cargo de fornecedores diferentes. Também destacou a dependência de provedores regionais em municípios onde não há grandes operadoras. Segundo ele, há 1.250 cidades em que só existem pequenos provedores, e o desafio passa por consolidar essa oferta local dentro de lotes estaduais mais amplos.

William Soares, da Lotus ICT, reforçou esse ponto ao afirmar que a execução exige selecionar e qualificar provedores locais para atender padrões de qualidade mais elevados. Segundo ele, a empresa muitas vezes precisa avaliar não só a rede, mas também processos, capacidade de ativação e suporte desses parceiros. Também relatou que o cronograma melhora quando a instalação da rede interna e da externa é coordenada de forma mais integrada.

O cotidiano da operação, segundo Luiz Carlos de Carvalho, da Q13, inclui deslocamentos por carro 4×4, triciclo, barco, cavalo e caminhada. Ele citou casos em que equipes levaram equipamentos “a cavalo e a pé” e caminharam por horas para chegar até a escola.

Energia, satélite e qualidade

Outro desafio recorrente é a energia. Fabian Fink, da FonNet, afirmou que em localidades remotas há problemas de qualidade do fornecimento elétrico, o que afeta os dispositivos de conectividade e os sistemas de armazenamento da energia solar. Segundo ele, isso exige soluções de monitoramento e observabilidade para antecipar falhas e reduzir deslocamentos de equipes.

No caso da Telebras, Levi Pereira Figueiredo Neto afirmou que o principal desafio hoje é “qualidade”. Segundo ele, a estatal passou a operar como integradora satelital, com múltiplos parceiros e soluções em diferentes órbitas, para atender escolas onde a fibra não chega. Também citou entraves como energia, capacidade, férias escolares e escolas fechadas no momento da instalação.

Os dados apresentados no painel indicam média de 155 Mbps por escola nas conexões por fibra e 49 Mbps nas conexões satelitais. Flávio disse ainda que, no conjunto da iniciativa, o patamar médio está em 2,3 Mbps por aluno, acima do critério de 1 Mbps por estudante usado como referência para internet significativa na escola.

Setor pede continuidade e ampliação

Marcos Ferrari, da Conexis Brasil Digital, defendeu a renovação do Fust Direto por mais cinco anos e afirmou que as operadoras seguem mobilizadas para conectar escolas. Para ele, o desafio das políticas públicas não termina na infraestrutura. “A conexão é um pré-requisito”, disse, ao defender avanço também em cidadania digital e uso qualificado da conectividade.

Os relatos do painel indicam que a política pública de escolas conectadas já deixou de ser apenas uma agenda de cobertura. Hoje, envolve também coordenação entre entes públicos, contratação, integração técnica, energia, monitoramento e adaptação da escola ao novo ambiente digital. Em muitos casos, a chegada da conexão escolar acaba irradiando efeitos para a comunidade do entorno, mesmo quando esse não é o objetivo formal do edital.

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