Iniciativas levam IA e computação à escola pública
Maria Rehder, oficial de projetos de Educação da Unesco Brasil, apontou uma série de experiências já em curso em redes e escolas públicas brasileiras para sustentar que a agenda de inteligência artificial (IA), computação e uso pedagógico de tecnologia não parte do zero no país. Ao citar casos do Pará, do Rio de Janeiro, da Bahia e do Piauí, ela defendeu que a discussão sobre escola pós-conectada precisa olhar para iniciativas concretas que já operam em contextos distintos da educação pública brasileira.
Segundo Maria, a Unesco tem trabalhado com o Ministério da Educação na territorialização de marcos de competências em IA para a educação básica. Ela lembrou que esses referenciais foram lançados em conjunto com o MEC e servem como diretrizes para orientar políticas públicas voltadas a estudantes e professores. Na definição apresentada por ela, a IA na educação deve ser “centrada no ser humano”, com foco em pensamento crítico, aplicação, avaliação e uso ético da tecnologia.
Ao detalhar os exemplos brasileiros, Maria destacou primeiro a Escola Estadual Gerson Pérez, localizada na Ilha do Marajó, em Breves, no Pará. Segundo ela, a experiência da unidade já incorpora elementos que a Unesco vem defendendo para o futuro da educação pública. “Poderiam dar uma palestra de tudo que a Unesco está pensando para os futuros amanhã, já está sendo desenvolvido nas aulas de tecnologia”, afirmou, ao dizer que a escola já trabalha com a BNCC Computação mesmo em um contexto marcado por desafios de conectividade e disponibilidade de dispositivos.
Ainda no Pará, Maria citou a atuação da Secretaria de Educação do Estado com o modelo do CISEB, Centro de Inovação e Sustentabilidade, descrito por ela como uma iniciativa que aplica a BNCC com computação na prática e associa esse trabalho a discussões de sustentabilidade. O exemplo reforça a leitura de que a inserção da tecnologia nas escolas públicas não precisa ocorrer de forma isolada, mas pode ser articulada a outras dimensões curriculares e territoriais.
No Rio de Janeiro, a representante da Unesco mencionou os Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs), vinculados à gestão do secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha. Maria relatou ter visitado uma dessas unidades na Cidade de Deus e afirmou ter sido impactada pela experiência. “Me tocou muito. Eu estava bem em uma comunidade, há duas semanas na Cidade de Deus, em meio a conflitos, e aquele laboratório formando”, disse. A citação apareceu no contexto da defesa de que as políticas públicas intersetoriais devem transformar esse tipo de experiência em prioridade.
Outro caso lembrado por ela veio da Bahia, por meio do Instituto Anísio Teixeira. Maria associou o trabalho do estado à Agência Jovens de Notícias, mencionando nominalmente o governador Jerônimo Rodrigues e a secretária Rowenna Brito. Embora sem detalhar indicadores ou escopo do projeto, ela incluiu a experiência entre os exemplos que, na visão da Unesco, mostram a inserção da escola pública em dinâmicas mais amplas de inovação pedagógica e comunicação.
Maria também trouxe o Piauí como referência mais consolidada no campo da IA educacional. Ao citar a professora Rosa Vicari e Christian Brackmann, ligados à Cátedra Unesco de Tecnologia de Comunicação e Informação na Educação, ela afirmou que a rede estadual foi reconhecida internacionalmente pela entidade. “Piauí no Brasil, a rede, pela Unesco no principal prêmio de IA na Educação”, declarou, ao apresentar o estado como um dos exemplos brasileiros destacados mundialmente na área.
Na leitura da representante da Unesco Brasil, esses cases ajudam a demonstrar que a discussão sobre IA nas escolas públicas precisa combinar infraestrutura, currículo, formação e princípios éticos. “A gente tem que debater na estratégia de escolas conectadas também essa pedagogia, a ética, a não discriminação pela IA”, afirmou. Ela acrescentou que a cooperação técnica da Unesco com o poder público busca justamente apoiar essa democratização sem perder de vista o direito humano à educação e a centralidade do professor no processo de ensino.
No conjunto, os exemplos citados por Maria Rehder indicam que a agenda da escola pós-conectada já aparece, em graus diferentes, em territórios urbanos, periféricos, amazônicos e estaduais. Para a Unesco, o desafio agora é transformar essas experiências em base de política pública mais ampla, articulando conectividade, computação e formação crítica para estudantes e docentes.
