Sexta-feira, 3 de Abril de 2026

Na Austrália, cresce apoio à construção da primeira usina nuclear, mas governo resiste

 A construção de usinas nucleares está emergindo como um tópico político importante antes das eleições gerais de 2025 na Austrália, à medida que os eleitores, que há muito resistiam à adoção da energia nuclear, mudam suas opiniões devido à inflação.

 Peter Dutton, chefe do Partido Liberal da Austrália, de oposição de centro-direita, está liderando o esforço do partido para a energia nuclear.

 “Temos um regulador de energia no momento — o regulador independente — que está dizendo que, sob a política de somente energias renováveis do Sr. Albanese, teremos apagões e quedas de energia, e as empresas simplesmente não podem operar em tal ambiente”, disse Dutton em um programa de televisão em junho.

 Seu partido propõe construir cinco usinas nucleares de grande porte e dois pequenos reatores modulares de última geração. O plano usa a terra e as redes de energia de usinas a carvão programadas para serem fechadas.

 O sentimento antinuclear já foi forte na Austrália por causa dos testes nucleares conduzidos pelo Reino Unido nas décadas de 1950 e 1960 que expuseram os aborígenes à radiação em Maralinga, uma área desértica no sul do país.

 Embora a Austrália seja uma grande produtora de urânio, ela proibiu o desenvolvimento de novas minas no passado e atualmente não tem uma única usina nuclear comercial.

 Mas a opinião pública parece estar mudando. De acordo com uma pesquisa de março do centro de estudos australiano Lowy Institute, 61% dos entrevistados apoiam fortemente ou um pouco a introdução da energia nuclear. Em uma pesquisa de 2011, 62% eram contra.

 A inflação prolongada está provocando a mudança. Os preços da eletricidade em maio aumentaram 6,5% na comparação com um ano antes, excedendo o aumento de 4,2% em abril, relata o Escritório de Estatísticas da Áustralia (ABS). Cerca de metade dos entrevistados na pesquisa do Lowy Institute disse que reduzir os preços da eletricidade doméstica deve ser a principal prioridade da política energética.

 As tarifas de eletricidade estão subindo devido aos preços mais altos dos recursos. Os preços do carvão tendem a aumentar devido à redução de novos investimentos ao redor do mundo, e os preços do gás permaneceram altos, pois os países evitam o gás russo após a invasão da Ucrânia por Moscou.

 A política de segurança também está tendo impacto. A Austrália pretende implantar e fabricar internamente submarinos nucleares sob a estrutura de segurança Aukus (acrônimo para o bloco formado por Austrália, Reino Unido e Estados Unidos). Isso significa que o país terá que treinar engenheiros nucleares, e as discussões começaram sobre como lidar com resíduos radiativos. Esses recursos humanos e know-how podem ser aplicados a usinas nucleares.

 Todos os países com submarinos nucleares, incluindo os Estados Unidos, Rússia e Índia, também têm usinas nucleares.

 “Se estivermos desenvolvendo energia nuclear, é muito mais provável que consigamos construir, sustentar, operar e expandir uma frota de submarinos movidos a energia nuclear”, escreveu o comentarista político Greg Sheridan em junho em um artigo para o jornal Australian.

 “Contra todas as evidências até agora, o Aukus pode realmente significar algo para a Austrália em termos de capacidade militar”, acrescentou.

 Edward Obbard, professor associado da Universidade de New South Wales, estima que mais de 8 mil pessoas precisarão de treinamento nuclear para servir como tripulação e fazer a manutenção dos submarinos que serão entregues por meio da estrutura Aukus.

 Se as usinas nucleares comerciais se tornarem mais difundidas, isso poderá acelerar o desenvolvimento de recursos humanos nos setores militar e civil.

 A Austrália é o sexto maior produtor de carvão do mundo e o segundo maior exportador depois da Indonésia. O carvão foi a maior parte da matriz energética do país em 2022, com 49%, seguido pelo gás natural, com 18%, relata a Agência Internacional de Energia.

 O Partido Trabalhista, de centro-esquerda, e hoje no poder, se opõe à energia nuclear, defendendo uma transição para uma superpotência de energia renovável usando o vento e a energia solar. O governo planeja aumentar a participação de energia renovável na matriz energética de cerca de 30% em 2022 para 82% em 2030.

 O primeiro-ministro, Anthony Albanese, argumenta que promover a energia renovável é mais barato, rejeitando a proposta de Dutton por falta de detalhes de financiamento.

 “Nenhum banco, nenhuma instituição financeira financiará um reator nuclear na Austrália”, disse Albanese no parlamento em 25 de junho.

 A Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth do governo estima que a construção de uma usina nuclear de grande porte custaria pelo menos 8,5 bilhões de dólares australianos (US$ 5,63 bilhões).

 Dutton rebateu dizendo que, mesmo em uma estimativa conservadora, o plano de energias renováveis do partido no poder custaria AU$ 1,3 trilhão. Ele disse que seu plano nuclear “faria a Austrália atingir nossos três objetivos de energia mais barata, limpa e consistente”.

 Seu Partido Liberal também argumenta que a energia eólica e solar exigem 360 e 75 vezes mais terra, respectivamente, do que a energia nuclear, e que seriam necessários novos 28 mil quilômetros de linhas de transmissão.

 O Partido Liberal, que conta como setor industrial entre sua base de apoio, sempre enfatizou combustíveis fósseis como carvão e gás. Seu impulso à energia nuclear parece derivar em parte de sua postura de longa data de criticar a energia eólica e solar.

 Em uma pesquisa de junho da Newspoll, o Partido Trabalhista teve 51% de apoio entre os dois principais partidos, com a coalizão conservadora em 49%. À medida que o custo de vida continua a aumentar, o Partido Liberal pode fazer dessa grande mudança na política energética uma promessa fundamental em sua campanha para retomar o poder.

 Em todo o mundo, países se moveram para fechar usinas nucleares ou reduzir as operações após o desastre nuclear de Fukushima Daiichi. em 2011 no Japão. Mas essa postura antinuclear parece estar refluindo.

 Na Europa, onde o fornecimento de gás natural está apertado devido à guerra na Ucrânia, a Itália está discutindo a reinicialização das usinas nucleares. As operações foram interrompidas na década de 1990 após o acidente nuclear de Chernobyl em 1986. Elas estão atraindo atenção como uma forma de reduzir os preços da energia e alcançar a descarbonização.

 Dutton afirma que, embora as usinas sejam de propriedade do governo central, parcerias seriam formadas “com empresas nucleares experientes para construí-las e operá-las”.

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