Quinta-feira, 2 de Abril de 2026

TIP quer construir aliança entre ISPs e teles regionais

TIP tem o ambicioso plano de se tornar o maior hub de conectividade sem fio do Brasil, combinando 5G, Wi-Fi, LoRA e satélite. O projeto, batizado internamente como Babylon, procura alavancar a relação que a empresa tem como fornecedora de sistemas para 2,7 mil provedores de Internet em todo o Brasil. Eles podem, por exemplo, ajudar as operadoras móveis regionais a cumprirem as obrigações do 5G. Também pretendem construir uma rede nacional de Wi-Fi desenhada para offload de tráfego móvel.

Em entrevista para Mobile Time, o fundador e CEO da TIP, Alexandre Alves, mais conhecido no mercado pelo apelido de “Batata”, conta em mais detalhes os planos da empresa.

Mobile Time – O que é o projeto Babylon?

Alexandre Alves (Batata) – O projeto Babylon consiste em construir o maior hub de conectividade sem fio do Brasil. E como o Brasil tem esse mercado gigante, a ideia é que também seja o maior hub de conectividade sem fio da América Latina. Será um one stop shop.

A gente entende que MVNO é um caminho transitório, principalmente no Brasil. Porque eu imagino que, com o crescimento da quantidade de banda consumida pelo usuário, em razão das novas aplicações que estão surgindo, isso não vai ser bom para as MVNOs. Porque hoje a MVNO tem um problema sério: o preço do airtime não fecha a conta e não deixa você ser competitivo no mercado.

O que você está dizendo é que para a MVNO é melhor quando a pessoa consome menos dados? É isso?

Exatamente. É uma questão de estatística. As operadoras criam esses planos de 100 GB, 200 GB, mas a pessoa não usa tudo. E, no modelo de MVNO, as operadoras ganham muito com isso.

Se as pessoas começarem a consumir mais, a conta não vai fechar?

As MVNOs vão ser estranguladas. Percebendo isso, a gente viu alguns movimentos de conectividade sem fio que são complementares. O primeiro deles é um remédio que foi dado pelo governo, que foi o leilão da frequência regional de 5G para os provedores regionais, com as obrigações de fazer em cidades pequenas. Esses provedores, por mais capitalizados que estejam, não vão conseguir, como as grandes também não conseguiram, cumprir as obrigações sozinhos. Vão precisar de parceiros estratégicos para essas regiões. Isso vai criar uma demanda no Brasil de pulverização, assim como aconteceu na banda larga: as grandes não conseguiram atender a demanda regional, os provedores pequenos foram lá e fizeram. Foi fantástico para o país, em termos de competição e tudo mais, porém, chegou num nível de saturação aonde a quantidade de concorrência em FTTH se tornou um problema para as empresas que estão nesse mercado, porque hoje elas têm que brigar por preço. A maioria desses caras cresceu muito rápido e não se profissionalizou. Isso é um problema.

No caso das teles regionais, elas têm duas vantagens. Primeiro, o grau de profissionalização é maior. Segundo, elas têm uma frequência só, ou seja, um entrante só por região. É diferente de haver 15 por região.

Você está falando de Brisanet, Unifique…

Sim. Brisanet, Unifique, iez! e Amazônia 5G.

E esse pessoal vai precisar de ajuda para cumprir as metas?

Exatamente. As metas são ambiciosas. Eu fiz os cálculos. Por exemplo, uma empresa como a Amazônia 5G, se for cumprir todas as obrigações, tem que erguer praticamente um site por dia nos próximos cinco anos. Pensa o tamanho disso para uma empresa entrante? É muita coisa, considerando o preço e o custo de um site. Eu posso ajudar sendo esse hub que a TIP se tornou de conectividade com os ISPs, esse relacionamento que a gente tem hoje com 2,7 mil provedores. E aí teremos o trabalho de elencar quais deles estão preparados, do ponto de vista profissional e financeiro, para assumir esse tipo de compromisso. E, nesse caso, não vai ser um por estado, vão ser milhares por estado para poder justamente ajudar a cumprir as metas.

Como isso vai ser feito? Qual seria o modelo? Os ISPs vão virar torreiras?

Não, torreiras não. Elas vão virar operadoras. Vão virar MNOs regionais. O equipamento será da operadora regional, digamos, a Brisa ou a iez!, mas vão firmar uma parceria, uma sociedade de participação específica, com o provedor local para ele ser sócio dessa operação. Esse é o modelo que tem que ser feito, na minha visão.

E aí a torre vai estar ligada ao core da operadora regional?

Exato. O ISP será um sócio-operador local. A venda, a operação e o atendimento locais são dele. O core é da operadora regional.

Mas você já bateu na porta da Brisanet, da iez!, da Unifique para vender essa ideia?

Eu já tenho contrato assinado com a Unifique e com a iez!. Não tenho com as outras duas, mas estamos conversando para fazer esse modelo. Já temos acertados em seis estados.

Mas isso é apenas o primeiro passo do Babylon. Há outras frentes para a sobrevivência da MVNO. Existe um outro remédio que estou enxergando, que é a criação de uma mega-rede Wi-Fi nacional, como a Boingo nos EUA. No Brasil, houve a VEX no passado. Queremos recriar esse modelo, agora no conceito de realmente fazer com que os usuários nossos de MVNO, por exemplo, entrem automaticamente autenticados nessas redes Wi-Fi para offload de tráfego. Vamos tirar o tráfego do 5G e jogar para dentro do Wi-Fi. Vai melhorar a experiência do usuário e vai baratear o custo do Megabyte para o usuário final também. É um projeto de ganha-ganha com todos.

Quando isso começa?

Já começou. Temos alguns contratos assinados. Criamos uma empresa chamada Tall. É uma joint-venture da TIP com a Uall. Ela é que vai fazer esse trabalho de offload. Nós vamos monetizar o Wi-Fi através de publicidade e de outros serviços prestados em cima do Wi-Fi, como segurança.

Sobre as MVNOs, soube que estão fechando acordos com todas as autorizadas. Por quê?

Hoje no mercado cada autorizada tem uma característica. Cada uma é melhor num ponto e pior em outro. Cada uma tem um ponto fraco e um ponto forte. E nós, sendo esse hub de conectividade com todas as autorizadas, conseguimos ter o melhor de cada uma. Cada região tem uma característica no Brasil. O nosso país é continental, então, para cada região, para cada cidade, a gente tem estratégias diferentes. E para cada tipo de público também.

Você está com quais autorizadas?

Hoje eu tenho Surf, Telecall, Unifique e Vero.

O Babylon vai incluir também uma rede IoT em LoRa? Como será isso?

A gente vai ter IoT com LoRa para ser justamente um ponto de conectividade em M2M. Nós fechamos um acordo de exclusividade com a Netmore aqui no Brasil. A Netmore foi quem comprou a infraestrutura da Everynet, que era o braço da American Tower de LoRa. A Netmore hoje é a maior empresa de LoRa e IoT do mundo. Acabaram de comprar uma mega operação na França. No Brasil, eles têm hoje mais de 200 cidades já cobertas com rede LoRa. A ideia é ampliar isso através dos ISPs. De que forma? Existem muitos projetos hoje no Brasil de infraestrutura de iluminação pública, medição de água, medição de energia elétrica, medição de gás etc. Só que as empresas que estão participando são integradores, não são empresas de telecom. E, muitas vezes, precisam ir para uma determinada região montar toda uma infraestrutura técnica: alugar carro, contratar técnico, montar equipe de atendimento… sendo que o ISP já tem tudo isso pronto. Queremos usar a infraestrutura da Netmore e dos ISPs parceiros junto com essas empresas integradoras de serviços que estão prestando esse tipo de solução para o mercado.

Conectividade satelital também fará parte do Babylon?

Sim. A gente está procurando um acordo com algum player mundial que esteja aqui no Brasil para fazer isso.

Vocês procuram satélite para IoT ou para voz?

Para os dois. São coisas complementares. Será um hub de conectividade completo.Temos MVNO, temos a camada 5G regional, temos o Wi-Fi, temos a rede LoRa e teremos o satélite. Serão cinco camadas. E virão outras. Existem, por exemplo, frequências de 2,5 GHz que foram liberadas no passado e alguns provedores pegaram. Podemos juntar essas frequências nesse projeto de regionalização.

Dos 2,7 mil ISPs parceiros da TIP, quantos têm frequência em 2,5 GHz?

Eu conversei com poucos. Muitos devolveram porque ficaram com medo das obrigações e dos custos. A gente ainda não sabe quantos têm. Conheço quatro que têm frequência em umas 50 cidades e que a mantiveram: pagaram pela frequência e colocaram em operação FWA. Todos se interessaram pelo projeto de mobilidade.

Mas por que eles entrariam nesse projeto se já vendem como FWA?

Pela mobilidade. Eles seriam uma SMP dentro dessa estrutura.

Talvez complementando a cobertura das regionais que você estava falando?

Exatamente. Agregando com as regionais. Tudo é complementar. E uma coisa interessante é que, de novo, você não vai ter 16 caras numa mesma cidade brigando. O cara que chegar vai brigar com as outras três (MNOs) que já estão lá. A briga do mercado vai ser essa.

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Alexandre Alves (Batata), ao lado do seu primeiro computador, com o qual aprendeu a programar na adolescência e que hoje expõe em sua sala na TIP (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)

E, nesse projeto todo, eu estou entendendo a TIP como uma espécie de ponte entre regionais e ISPs, ou talvez uma orquestadora entre esse dois mundos.

Não só uma orquestradora em termos de relacionamento, mas também sistemicamente. Hoje, nós desenvolvemos toda a parte de BSS/OSS dos ISPs. Hoje eu estou integrado com todas as MNOs, com todas as autorizadas, e a gente conhece integração com todos os tipos de core do mercado. Temos uma camada de interoperabilidade muito grande.

Vocês adquiriram recentemente a Tá Telecom. Como ela participa da estratégia Babylon?

A Tá veio dentro dessa estratégia Babylon de consolidação do mercado de MVNOs. Provavelmente a gente deva adquirir outras empresas na mesma linha.

Empresas de MVNOs?

Sim. Provavelmente este ano.A gente quer realmente fazer uma consolidação desse segmento e se tornar um player relevante nisso como fizemos na telefonia fixa, em que tivemos um papel importante no Brasil. Hoje a gente tem quase 1 milhão de terminais. E saímos do zero em 2010. Tivemos um papel de universalização da linha telefônica.

Hoje quantas MVNOs estão operando no Brasil com a TIP? E elas somam quantas linhas em serviço?

A TIP tem cerca de 450 MVNOs e 200 mil linhas. A meta é chegar no fim do ano com 300 mil. Esses números incluem a Tá Telecom.

Sobre conectividade via satélite, você já iniciou a negociação?

Comecei com três empresas.

Viasat é uma delas?

Não. Não posso falar ainda quais são, mas a Viasat não é uma delas.

Você pode fechar com as três?

Não, eu vou escolher uma para fechar.

O projeto com as regionais começa quando?

A minha meta é fazer duas cidades antes da Abrint deste ano.

E o projeto de offload também começa este ano?

Já está operando, já temos dois contratos assinados. Um deles é com a Gigalink. As nossas MVNOs vão começar a fazer offload. A própria Tá Telecom já colocou para alguns clientes dela.

Antes de fundar a TIP, você trabalhou na Transit, trouxe o Skype para o Brasil e levou o Skyper para o Japão. Quantas empresas você tem hoje?

Hoje são 34 empresas ao todo no grupo. A gente hoje está dividido em duas verticais: uma de telecomunicações e a outra de condomínios.

Já pensou em IPO?

Não. Não tenho nada contra isso, mas o pessoal que busca IPO procura outro perfil de empresa. Aceitam perder alguns milhões em alguns negócios pensando em vender depois, ou fazer uma série A, série B, série C. Não é o meu caso.

Você também não pensa em rodada de investimentos? As próximas aquisições serão feitas com caixa próprio?

Sempre foi com caixa próprio.  Senão, não é a hora de fazer.

Você divulga faturamento no grupo?

Não.

Tem alguma meta para este ano que possa divulgar?

A gente vem crescendo o faturamento entre 30% e 35% ao ano. A meta este ano é crescer 41%. A gente tem também uma meta de EBITDA. Não é só crescer, porque é difícil você crescer mantendo um EBITDA alto, principalmente se autofinanciando. É um desafio que a gente tem dado conta de fazer. Crescer dói, não é uma coisa simples, principalmente sem capital externo.

Pensa em participar de um leilão de espectro diretamente?

Não. Não acho que faça sentido o leilão de 700 MHz agora, por exemplo. Só faz sentido o leilão de 700 MHz para as regionais. Qualquer outra que entrar não vai ter espectro suficiente para brigar com as grandes e vai ter um serviço de péssima qualidade para o usuário final, porque não tem largura de banda suficiente para que o usuário tenha uma experiência de uso satisfatória. Ele vai ter cobertura, mas não vai ter largura.

E a faixa de 6 GHz no futuro?

Também não. Por que aí você entra numa outra complexidade, que é a cobertura, pois é um espectro mais alto. Tudo isso tem que ser pesado. Na minha visão, quem entrou (em mobile), entrou. Quem não entrou vai ter que pegar outro bonde daqui a pouco, porque esse não dá mais.

Então, na prática, você não deve entrar.

A nossa estratégia é ajudar as regionais a crescer. E fazer com que os regionais enxerguem os pequenos, os municipais, vamos chamar assim, fazendo com que eles cresçam nas suas cidades. Com isso, criaremos uma competição nova no Brasil, das operadoras regionais associadas às municipais. Esse é o modelo que a gente acredita e que eu vejo que é o futuro.

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