Open Gateway avança e amplia uso global de APIs de rede
Três anos após ser apresentada durante o Mobile World Congress 2023, a iniciativa Open Gateway, liderada pela GSMA, alcançou uma nova etapa de implementação. Segundo Henry Calvert, head de Networks da entidade, o projeto passou da fase de ambição para execução, com expansão global de APIs padronizadas de rede voltadas a desenvolvedores, empresas e provedores de nuvem.
De acordo com dados divulgados pela GSMA, 86 grupos de operadoras — representando mais de 300 redes móveis e cerca de 80% das conexões móveis globais — estão alinhados a um framework comum de APIs. Além disso, mais de 60 parceiros de canal, incluindo hyperscalers, agregadores e provedores de CPaaS, passaram a comercializar APIs de rede em escala internacional.
A proposta central do Open Gateway é transformar redes móveis em uma plataforma global com APIs padronizadas, permitindo que desenvolvedores criem aplicações com a lógica de “escrever uma vez e implementar em múltiplos mercados”. Segundo Calvert, o esforço conjunto busca criar um ambiente consistente entre operadoras, reduzindo fragmentação técnica e facilitando a adoção empresarial.
APIs CAMARA ganham escala comercial
O portfólio começou com oito APIs do projeto CAMARA em 2023. Atualmente, a GSMA informa que há mais de 300 implementações comerciais de 20 APIs diferentes em 65 mercados, abrangendo regiões da América do Norte, América Latina, Europa e Ásia-Pacífico.
Entre os casos de uso destacados estão prevenção a fraudes, qualidade sob demanda (Quality on Demand – QoD) e serviços de mobilidade e localização. No campo de segurança, lançamentos multioperadoras permitem que bancos e varejistas verifiquem identidade, detectem fraudes como troca de SIM (SIM swap) e protejam transações em tempo real.
Em conectividade corporativa, o QoD tem sido aplicado para que aplicações solicitem desempenho de rede aprimorado sob demanda, em cenários como pagamentos online, streaming, jogos, veículos autônomos e operações críticas com drones.
Segundo Calvert, “o setor precisava de um ambiente consistente e multimercado de APIs que tornasse viável a implementação global por desenvolvedores”. Ele afirma que a padronização tem sido um fator central para ampliar a adoção comercial.
A GSMA também cita iniciativas como a colaboração entre Orange e Shabodi em projetos industriais, a aplicação de verificação numérica baseada em CAMARA pela China Mobile para ampliar conversões em publicidade in-app e o uso de APIs por bancos no Reino Unido para detectar golpes de troca de SIM em tempo real.
GSMA Fusion conecta demanda empresarial
Outra frente anunciada é o GSMA Fusion, iniciativa voltada a aproximar setores industriais do ecossistema móvel global. A proposta é funcionar como ponte do lado da demanda, permitindo que indústrias como automotiva, aviação, fintech, manufatura e mídia definam coletivamente requisitos de conectividade, como latência, confiabilidade, identidade, localização e priorização de tráfego.
Segundo a GSMA, empresas como Tata Elxsi solicitaram padronização de APIs de QoD para aplicações automotivas e de drones, enquanto a FICO defendeu expansão de APIs voltadas ao combate a fraudes em novos mercados. A fabricante de drones Skydio também teria pedido maior suporte da comunidade de operadoras para aprimorar aplicações em serviços de emergência.
Desenvolvedores priorizam segurança e pagamentos
A adesão de desenvolvedores é apontada como métrica central para o sucesso da iniciativa. No relatório “Open Gateway State of the Market”, a GSMA afirma que prevenção a fraudes é o caso de uso mais atrativo para desenvolvedores, seguido por facilitação de pagamentos móveis.
Calvert destaca que a padronização via CAMARA tem permitido implementação consistente entre mercados, enquanto novas plataformas de exposição de APIs simplificam testes e integração. “A conscientização não se converte em adoção se as ferramentas não forem acessíveis ou escaláveis comercialmente”, afirma.
IA agêntica deve acelerar próxima fase
Durante o MWC 2026, a GSMA indicou que a próxima etapa de evolução do Open Gateway envolve automação baseada em inteligência artificial agêntica. O conceito refere-se a agentes de software capazes de planejar tarefas, interagir com múltiplas fontes de dados e acionar APIs de forma autônoma.
Empresas como Telefónica e Nokia apresentaram pilotos utilizando protocolos Agent-to-Agent (A2A) e Model Context Protocol (MCP) para descoberta automática de APIs, seleção inteligente de capacidades de rede e encadeamento de múltiplas chamadas de API sem intervenção manual.
Também foram demonstradas iniciativas envolvendo Mplify com Colt, Orange e Google Cloud, além de parcerias entre Nokia, AWS, Orange e du. Segundo Calvert, a aplicação prática envolve, por exemplo, agentes de prevenção a fraudes que solicitam verificações de troca de SIM em tempo real a múltiplas operadoras ou fluxos de vídeo que ajustam automaticamente requisitos de QoD conforme as condições de rede.
Economia de rede programável
A próxima fase da economia de APIs será definida não apenas pela disponibilidade de interfaces padronizadas, mas pela camada de inteligência aplicada sobre elas, segundo a GSMA. A expectativa é que a automação reduza barreiras técnicas e amplie interoperabilidade, permitindo que conectividade deixe de ser consumida como infraestrutura passiva e passe a ser programada dinamicamente.
“Open Gateway estabeleceu a base. A IA agêntica pode acelerar essa trajetória”, afirma Calvert. A entidade projeta que a combinação entre padronização de APIs e automação baseada em IA deve orientar a inovação no setor de telecomunicações ao longo da próxima década.
