Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Crimes de ódio e violência sexual na Internet disparam no Brasil em 2025

O Brasil registrou um boom de violações de direitos no ambiente digital em 2025, com destaque para crimes de ódio e violência sexual. De acordo com dados da SaferNet Brasil, os crimes de ódio reportados no canal de denúncias da organização aumentaram 54% no último ano, enquanto os casos online de misoginia (caracterizados por violência ou discriminação contra mulheres) tiveram alta de 224,9%.

Os dados foram apresentados nesta terça-feira, 10, durante evento realizado pela SaferNet em São Paulo por ocasião do 18ª edição Dia da Internet Segura 2026. Trata-se de uma iniciativa global que ocorre anualmente no mês de fevereiro para promover o uso consciente, ético e seguro das tecnologias digitais.

Diretor-presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares afirmou que também houve aumento expressivo de outros conteúdos ilícitos e violentos na Internet. As denúncias de apologia a crimes contra a vida cresceram 75,4%, e os registros relacionados a neonazismo avançaram 64,7% em 2025.

IA no cibercrime
O boom desses crimes veio acompanhado da popularização de ferramentas de inteligência artificial (IA). No ano passado, o canal de ajuda da SaferNet registrou aumento de 115% nos casos de exposição de imagens íntimas sem consentimento, muitos deles associados ao uso de IA para a criação de deepfakes sexuais, segundo Tavares.

Segundo ele, há uma proliferação de aplicativos e sites, mantidos por organizações criminosas, que oferecem serviços de manipulação de imagens para a criação de nudes e “vídeos sexuais ultrarrealistas” sem consentimento das vítimas. “Isso está acontecendo a partir da compilação de códigos abertos que estão disponíveis na rede”, contou.

“No ano passado, nós tivemos a segunda maior série histórica no número de denúncias envolvendo casos de [imagens de] abuso sexual infantil. Essa é uma tendência também registrada no mundo inteiro”, disse o executivo. “Esse tema não pode mais ser adiado. É inadmissível que a gente tenha que conviver com esse tipo de abuso”, afirmou.

A entidade anunciou ainda a adesão a uma coalizão internacional para enfrentar a criação e disseminação de deepfakes de nudez, em parceria com organizações como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC) e a WeProtect Global Alliance.

Uso indevido

Presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), Demi Getschko, por sua vez, alertou para o risco de soluções para o problema que fragilizem a infraestrutura da Internet ou limitem a conectividade global.

Ele ressaltou que intermediários técnicos não devem ser responsabilizados automaticamente pelos ilícitos, mas podem responder quando deixam de atuar apenas como meios e passam a agir como agentes ativos.

Getschko enfatizou o princípio do Decálogo do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) de responsabilizar os verdadeiros agentes finais dos problemas, e não os meios de comunicação. O chamado “agente final” pode ser um indivíduo, um algoritmo ou uma empresa, desde que não seja apenas um intermediário.

Grupos online
Já a procuradora regional da República, Fernanda Teixeira, destacou o aumento de crimes sexuais cometidos no ambiente digital, inclusive por adolescentes organizados em grupos online. “Não adianta só a repressão. Precisamos ter uma regulação, já que o sistema de hoje não é suficiente para evitar que esse tipo de crime aconteça nas plataformas digitais”, disse.

Segundo ela, o Ministério Público Federal identificou casos de obtenção de imagens íntimas para chantagem, violência sexual virtual e outras práticas graves, o que evidencia a insuficiência de respostas apenas repressivas.

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