Eneva anuncia oferta de ações e compra de térmicas do BTG, que bancará 75% do aumento de capital
A Eneva está comprando um conjunto de quatro ativos termelétricos detidos pelo BTG Pactual e vai fazer um “follow-on” de até R$ 4,2 bilhões para pagar a aquisição e reduzir sua alavancagem.
Nessa operação, o BTG se comprometeu a financiar até R$ 3,2 bilhões na oferta-base ao preço de R$ 14 por ação, o que corresponde à média da ação da Eneva nos últimos 60 pregões da B3.
Com isso, o banco se consolida como principal acionista, podendo dobrar sua fatia na empresa, hoje em 23,3%. Também nesse arranjo, o BTG assume o compromisso de que a companhia seja sua plataforma de investimento em ativos de geração de energia e gás natural no Brasil. Por outro lado, o banco de André Esteves não poderá votar na assembleia de acionistas para aprovação do negócio, uma vez que é o vendedor dos ativos e principal sócio da empresa.
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Esse era um dos pontos de conflito entre os acionistas minoritários do negócio, apurou o Valor com duas fontes ligadas aos sócios minoritários. Havia divergência sobre os rumos da empresa para parte dos sócios e do “manegment” (diretoria).
Uma parte defendia a condução da Eneva como uma “corporation” (sem controlador definido). No entanto, com dois acionistas de referência relevantes – BTG e o fundo Cambuhy -, havia conflitos e os acionistas minoritários colocaram a questão da governança como um ponto sensível, segundo essas duas pessoas a par do assunto. Havia um desconforto pelo fato do BTG ter outros ativos no setor, além da Eneva. O banco e o Cambuhy não retornaram os pedidos de entrevista até o fechamento desta edição.
O anúncio dessa operação da Eneva era um passo já esperado pelo mercado. Com o aumento de capital, cerca de 75% bancados pelo BTG, a empresa consegue bancar a compra das quatro térmicas (estimadas em R$ 2,9 bilhões) e busca reduzir sua dívida, diz Lino Cançado, presidente da companhia. O acordo anunciado ontem, contudo, não chegou a animar os investidores. Os papéis da empresa fecharam ontem com leve alta, de 0,23%, a R$ 13,28. As ações do banco caíram 0,37%, a R$ 32,05. O Ibovespa fechou com queda de 0,16%.
A dúvida no mercado é se os outros acionistas vão seguir nessa oferta para evitar a diluição. Fontes consultadas pelo Valor afirmam que os sócios precisam de mais tempo para avaliar a proposta colocada na mesa.
Eneva propôs uma “fusão de iguais” com a Vibra, no fim do ano passado. A proposta não foi para frente, uma vez que a distribuidora de combustíveis avaliou que o valor da companhia (“valuation”) a colocava numa posição desfavorável e que relação de troca das ações não seria justa como o proposto originalmente. As negociações não seguiram adiante.
Em teleconferência com analistas e investidores, Cançado disse que a compra das térmicas do BTG está alinhada aos negócios da empresa. Ele ressaltou que o negócio diversifica a posição geográfica da Eneva, hoje concentrada no Norte e Nordeste.
A Eneva vai emitir 126.071.428 de novas ações ao BTG, considerando o preço de R$ 1,76 bilhão dos ativos, para comprar duas térmicas: Tevisa e Povoação. O negócio inclui ainda o direito de subscrição pelo BTG de até 16.330.346 de ações. As outras duas, UTE Linhares e Gera Maranhão, vão custar R$ 1,14 bilhão. Essas duas unidades serão pagas com o dinheiro da oferta.
Por conta de três grandes aquisições realizadas pela Eneva em 2022, a alavancagem da empresa, medida pela relação dívida líquida/Ebitda, está em 4,1 vezes, segundo o balanço do primeiro trimestre de 2024. As compras envolveram a incorporação da Focus por R$ 936 milhões e as aquisições da Celse por R$ 6,1 bilhões e da Termofortaleza por R$ 489,8 milhões.
“A transação fortalece o balanço da Eneva com o ‘follow-on’ e com a aquisição que geram caixa no curto prazo, justamente naqueles anos em que a Eneva tem maior necessidade de desembolso pelo seu programa de investimento para os projetos que estão em construção e tem um impacto significativo reduzindo o endividamento”, disse Cançado.
A transação fortalece o balanço da Eneva com a oferta” — Lino Cançado
A Eneva considera ainda a possibilidade de recontratação de 148 megawatts (MW) de capacidade instalada das usinas envolvidas na transação com contratos regulados com vencimento em dezembro de 2025.
O diretor de comercialização da Eneva , Marcelo Lopes, disse, em teleconferência, que existe estimativa de aumento potencial da capacidade instalada da Eneva de até 3,3 gigawatts (GW). Para Lopes, a distribuição de ativos térmicos em três Estados cria a possibilidade de acesso a terminais de gás natural liquefeito (GNL), sendo cerca de 1,1 GW localizado no Espírito Santo, com acesso a malha da TAG e possível suprimento de gás do “Hub Sergipe”, para participação em novos no leilão de reserva de capacidade. “A aquisição nos coloca com mais força para participar do leilão de forma competitiva e atender demanda do setor.”
O ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Edvaldo Santana, explica que hoje o Brasil não vive um problema de abastecimento e segurança energética, mas, sim, o atendimento da “ponta da demanda”, nos momentos entre 18h e 21h, quando a geração solar zera, mas o consumo de eletricidade nas residências se mantém alto. Neste contexto, o especialista vê importantes negócios que a Eneva pode aproveitar, já que a segurança do serviço e a confiabilidade do sistema elétrico tem sido mantida por despacho de termelétricas na alta demanda.
A Eneva estima que, com a transação, a receita da companhia saia dos R$ 10,1 bilhões em 2023 para R$ 12,2 bilhões. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) sobe para R$ 6,1 bilhões. O lucro líquido da Eneva de R$ 200 milhões, em 2023, se soma ao lucro das térmicas e totaliza lucro líquido projetado de R$ 1,6 bilhão. A empresa não informou o prazo para atingir esse aumento.
Para o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, o negócio pode enfrentar questionamentos sobre a governança, uma vez que o BTG além de vender o ativo também é importante acionista da Eneva: “O conselho aprovou e o representante do BTG se declarou impedido, pelo que foi dito na teleconferência. Resta saber se o mesmo acontecerá na assembleia.”
A expectativa da Eneva é de que a assembleia que avaliará a operação seja realizada no terceiro trimestre de 2024. A operação também depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central.
O analista pondera ainda que os acionistas minoritários podem classificar o negócio como positivo por dar espaço para que a companhia possa abrir novas frentes de investimentos e até pagar dividendos. “No ano passado a empresa dizia que poderia pagar dividendo no fim de 2023, depois passaram para o início de 2024. Com aquisições recentes, a possibilidade de remunerar acionistas saiu do radar.”
