Alta do ouro preocupa setor de eletrônicos, mas efeito nos preços é pequeno
Condutor de baixa corrosão, o ouro é utilizado em pequenas quantidades na fabricação de celulares, televisores e computadores para auxiliar no funcionamento adequado dos equipamentos eletrônicos. Com a recente valorização do metal, o temor pela alta dos preços volta a assombrar a indústria e os consumidores.
Por que o ouro é relevante?
Metal tem papel de condutor de energia elétrica e térmica nos eletrônicos. O ouro é usado para banhar outros elementos presentes nos aparelhos em um processo chamado de galvanoplastia. O processo ajuda a fazer com que o íon dos equipamentos alcance outras superfícies que necessitam da boa condução sem que haja oxidação, o que danificaria todo o sistema. Outra aplicação que torna o ouro essencial é a possibilidade de ser utilizado para a construção de fios de baixíssima espessura.
Uso do metal precioso era mais frequente em equipamentos antigos. Com o passar dos anos, o ouro perdeu espaço e foi substituído por elementos mais baratos com a mesma função de auxiliar na condução de energia e inibir a corrosão dos equipamentos. Informações do centro de estudos de metais preciosos APMEX, dos Estados Unidos, apontam que um smartphone comum tem entre 7 e 34 miligramas de ouro em sua composição.
Entre os anos 70 e 90, o ouro era mais usado do que hoje em eletrônicos. Atualmente, somos mais dependentes do lítio.
Marcelo Brunella, diretor-executivo da Anoro
Cotação em alta
Preço do ouro atingiu nível recorde na semana passada. A marca recorde próxima de US$ 5.600 por onça (31,1 gramas) foi atingida na última quinta-feira (29) em meio à ampliação dos temores geopolíticos. As preocupações envolvem a persistência da guerra na Ucrânia e as ofensivas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela anexação da Groenlândia e insinuações de ataque ao Irã.
Conflitos ampliam papel do ouro como ativo de segurança. A valorização do metal é motivada pela busca dos investidores por refúgios em elementos preciosos em períodos de incerteza. “Todos os ativos que sobem [em meio às tensões globais] têm um caráter mais especulativo por serem considerados um seguro contra a inflação”, explica Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos.
Redução das tensões geopolíticas derrubou as cotações. Desde a máxima histórica, o preço do ouro recuou cerca de US$ 900, para US$ 4.708,1 por onça, após cair quase 10% na última sexta-feira. Trata-se da maior queda diária do metal desde 1983. Nos últimos dias, o valor voltou a encostar em US$ 5.000 por onça. “Há a previsão de que as autoridades monetárias continuem comprando ouro em meio ao avanço da instabilidade geopolítica”, afirma Marcelo Brunella, diretor-executivo da Anoro (Associação Nacional de Ouro).
Efeito sobre os preços
Fabricantes manifestam preocupação com a valorização dos metais. A última sondagem conjuntural da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), publicada em dezembro de 2025, mostra que um em cada quatro (24%) produtores relata pressões nos custos de componentes e matérias-primas. Além do ouro, as preocupações também envolvem os aumentos nos custos de memórias, da prata, do cobre e do alumínio.
Impacto da alta em celulares, TVs e computadores ainda é descartado. Os especialistas afirmam que a quantidade de ouro presente nos equipamentos eletrônicos é insuficiente para que a valorização do metal altere o preço dos produtos. “Os componentes eletrônicos têm menos de 1% de ouro. Então, esse impacto pode ser psicológico nas unidades industriais, mas distante de ser um material tão relevante quanto o lítio, utilizado nas baterias”, afirma Brunella.
Ouro representa pequena parcela do valor final de um aparelho eletrônico. Com a cotação do metal na faixa dos US$ 5.000, um equipamento fabricado com 34 miligramas de ouro (quantidade máxima indicada pela APMEX) conta com somente US$ 5,47 (o equivalente a R$ 28,70 na cotação atual do dólar) de seu valor atrelado ao elemento precioso. Para de um celular de R$ 2.000, o valor equivale a menos de 1,5% do preço.
Cotação do dólar tem peso mais relevante sobre o preço dos produtos. A variação da moeda norte-americana é citada como elemento determinante para definir o valor final dos aparelhos eletrônicos, que são importados e têm seus custos atrelados ao dólar. Desde o início do ano passado, o valor comercial da divisa dos EUA desabou 15% em relação ao real.
Quando o dólar sobe, o reflexo na formação de preços é praticamente imediato. Por outro lado, o impacto do ouro é mais difuso e tende a afetar os preços ao consumidor apenas no médio e longo prazo.
Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos
Gargalos logísticos têm potencial para elevar preço dos eletrônicos. Conforme o relatório da Abinee, 13% das empresas importadoras indicaram atrasos no recebimento de cargas. Ainda que o percentual seja o menor desde 2021, Brunella relata que a questão é dominante para o preço final dos equipamentos. “Uma interrupção, ainda que mínima, nas cadeias logísticas, como a que aconteceu nos últimos anos no Canal de Suez, é muito mais relevante para os eletrônicos”, afirma ele.
O Canal de Suez é por onde passa boa parte da cadeia de suprimentos dos mercados europeu e asiático, que encurta o caminho para não passar pelo Cabo da Boa Esperança. Qualquer interrupção provocada por um conflito armado é muito mais relevante do que o preço do ouro.
Marcelo Brunella, diretor-executivo da Anoro
