Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026

PocketFab@USP: uma estratégia inovadora para a soberania brasileira em semicondutores

O Brasil vive hoje uma encruzilhada estratégica, diante das oportunidades abertas pelo atual e turbulento contexto geopolítico. Ao mesmo tempo em que figura entre as maiores economias do planeta, lidera agendas globais em meio ambiente, energia e alimentos e mantém uma diplomacia reconhecida por sua capacidade de diálogo, o País dispõe de imensos recursos naturais, como minerais estratégicos, água e energia em abundância, além de um sistema de pesquisa e desenvolvimento relativamente bem estruturado e produtivo.

Ao viajar pelo mundo, é comum encontrar cientistas brasileiros em posições de destaque nos principais centros internacionais de pesquisa e inovação e, mais recentemente, também em posições de liderança empresarial. Ainda assim, o Brasil permanece altamente dependente de tecnologias críticas produzidas fora de suas fronteiras.

Os semicondutores — componentes invisíveis, mas essenciais a praticamente tudo que nos cerca —, de celulares a hospitais, de satélites a sistemas de defesa, tornaram-se o exemplo mais contundente dessa dependência. Para se ter uma dimensão do problema, em 2025, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee), entre janeiro e novembro, as importações brasileiras de componentes eletroeletrônicos, categoria na qual os semicondutores estão majoritariamente embutidos, atingiram US$ 45 bilhões, com crescimento de 2,5% em relação ao ano anterior. Destacam-se, entre as principais aquisições, dois itens emblemáticos: módulos fotovoltaicos e servidores de dados, refletindo a forte expansão de data centers e da infraestrutura de inteligência artificial no País.

Nesse mesmo ano, a emergente indústria de semicondutores no Brasil apresenta-se como um ecossistema em consolidação e de crescente relevância estratégica, abrangendo atividades ao longo da cadeia de valor, desde o design de circuitos integrados até operações de encapsulamento, teste e serviços especializados. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), o setor faturou cerca de US$ 1,3 bilhão em 2025, gerando aproximadamente 2.500 empregos diretos altamente qualificados.

As crises globais recentes, da pandemia ao recrudescimento das disputas geopolíticas, deixaram claro que o acesso a chips deixou de ser apenas uma questão de mercado, passando a configurar um fator decisivo de poder, autonomia econômica e segurança nacional. Nesse cenário, soberania e resiliência tecnológica deixam de ser conceitos abstratos e ganham sentido prático.

Soberania, no século 21, não significa fechar-se ao mundo, mas possuir capacidade interna de conceber, projetar, testar e produzir tecnologias estratégicas, ainda que em nichos bem definidos. Resiliência é a habilidade de responder a choques externos, reduzir vulnerabilidades e garantir continuidade produtiva em momentos de crise.

Para o Brasil, desenvolver competências próprias em recursos humanos, infraestrutura industrial e processos em semicondutores é condição essencial para fortalecer sua indústria, formar profissionais altamente qualificados, apoiar políticas públicas e participar das cadeias globais de valor em bases mais equilibradas e menos subordinadas a interesses externos.

É nesse contexto que um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo, em parceria com especialistas do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-SP), concebeu a PocketFab, uma iniciativa que propõe uma mudança de paradigma na manufatura de semicondutores em escala global. Em vez de replicar o modelo das gigantescas megafabs, concentradas em poucos países, onde cadeias de suprimentos e capitais já se encontram consolidadas, a PocketFab aposta num ecossistema distribuído, composto por microfábricas modulares, flexíveis e orientadas à inovação, intimamente integradas à indústria e à universidade e voltadas à produção de lotes delimitados, à pesquisa de processos e chips de ponta, incluindo tecnologias quânticas, e à formação de talentos.

Essa abordagem incorpora três conceitos centrais: 1) right sizing, entendido como o dimensionamento ótimo e intencional de capacidades, ativos e processos produtivos, alinhado à finalidade estratégica; 2) verticalização até o nível do chip, isto é, a capacidade de projetar, prototipar, fabricar, encapsular, testar e integrar semicondutores de forma coerente com o produto final; e 3) greening, que visa a manufatura de semicondutores para a sustentabilidade ambiental, eficiência no uso de recursos e redução de impactos ao longo de todo o ciclo de vida tecnológico.

Essa abordagem inovadora permite acelerar ciclos de desenvolvimento, reduzir barreiras de entrada para startups e indústrias e consolidar um ecossistema de inovação mais ágil, resiliente e distribuído. Com o protagonismo da USP e o apoio institucional da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Senai, a PocketFab indica que o Brasil pode, e deve, ocupar um novo espaço no mapa global dos semicondutores: não como mero consumidor, mas como inovador, produtor de conhecimento, tecnologia e soluções estratégicas, com impacto não apenas nacional, mas também internacional.

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MARCELO ZUFFO (PROFESSOR TITULAR POLI-USP); ROSELI LOPES (PROFESSORA TITULAR POLI-USP); ALFREDO GOLDMAN (PROFESSOR ASSOCIADO IME-USP); CARINA ULSEN (PROFESSORA ASSOCIADA POLI-USP); EDUARDO ZANCUL (PROFESSOR ASSOCIADO POLI-USP); BRUNO SANCHEZ (PROFESSOR DOUTOR POLI-USP); FERNANDO CHUBACI (PROFESSOR DOUTOR IF-USP); LAISA COSTA (PROFESSORA DOUTORA POLI-USP); THIAGO MARTINS (PROFESSOR ASSOCIADO POLI-USP); MANOLO VILCHES (PESQUISADOR COLABORADOR IEA-USP); PAULO NOBRE (INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS); CLAUDIO MOTTA (CENTRO TECNOLÓGICO DA MARINHA EM SÃO PAULO); E WILSON CARDOSO (SENAI-SP)

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