Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026

México analisa dois modelos de acesso ao espectro para redes 5G industriais

A Comissão Reguladora de Telecomunicações (CRT) abriu o debate sobre o uso do 5G para Redes Celulares Privativas (RCPs) no México, ao propor dois modelos distintos de acesso ao espectro radioelétrico e avaliar se existe mercado para um modelo de prestação comercial de serviços de conectividade industrial, para além do autoprovimento pelas próprias empresas.

Durante uma mesa de discussão sobre o plano de licitações, funcionários da CRT explicaram que a legislação vigente já permite a implantação de redes industriais, mas sob figuras regulatórias com alcances diferentes — o que tem implicações diretas no modelo de negócio, no tipo de usuário e nas obrigações associadas.

Autoprovimento como ponto de partida regulatório

A CRT deixou claro que a implantação de redes 5G industriais no México hoje ocorre principalmente sob esquemas de autoprovimento, ou seja, redes privadas operadas diretamente pelas próprias empresas para seus processos produtivos, sem intermediários e sem fins comerciais.

Esse modelo se articula por meio de autorizações de redes inteligentes e autorizações de uso secundário do espectro, figuras que permitem a uma empresa industrial acessar o espectro de forma direta, desde que a rede seja utilizada exclusivamente para sua operação interna.

Nesse esquema, uma empresa pode implantar redes privadas 5G para automação, controle de processos, logística interna ou monitoramento, mas é proibida de oferecer serviços de telecomunicações a terceiros, mesmo que estes estejam dentro do mesmo parque industrial.

Funcionários da CRT concordaram que esse ponto é central: o autoprovimento não é um mecanismo para criar oferta de conectividade, mas uma ferramenta para que indústrias com alta maturidade tecnológica gerenciem sua própria infraestrutura 5G.

5G como serviço industrial

A partir desse marco de autoprovimento, a CRT propõe a possibilidade de abrir um segundo nível do ecossistema 5G industrial, focado na prestação comercial de serviços de conectividade, em que o espectro não seja solicitado pela indústria usuária, mas por fornecedores especializados.

Esse modelo implicaria licitações públicas de espectro para empresas integradoras, operadoras ou desenvolvedoras de soluções, que poderiam oferecer 5G industrial como serviço, em esquemas “chave na mão” que incluam projeto, implantação, operação e administração da rede.

Isso significa que, enquanto o autoprovimento transfere a carga técnica e regulatória para a indústria, o modelo comercial permitiria que empresas sem capacidades próprias em telecomunicações acessem soluções 5G, contratando conectividade como um serviço especializado.

“A pergunta central é se há espaço no México para um mercado de comercialização de serviços de conectividade industrial”, assinalou a CRT, ao explicar que o objetivo não é replicar o modelo do mercado móvel massivo, mas viabilizar soluções desenhadas para necessidades produtivas específicas.

Uso do espectro 5G: redes dedicadas e cobertura localizada

Na mesa, foi destacado que o uso do espectro para redes industriais tem características diferentes das dos serviços móveis tradicionais.

Em vez de atender grandes volumes de população, essas redes podem operar em áreas geográficas muito restritas, como uma planta, uma mina ou um terminal logístico, conectando principalmente máquinas, sensores e sistemas — e não usuários finais com telefones móveis.

A CRT também explicou que a legislação já contempla essas diferenças, tanto em termos de atribuição quanto de valores a serem pagos, e que a análise de custos e contrapartidas deve ser feita caso a caso, considerando fatores como a banda utilizada, a tecnologia, o tipo de serviço e a cobertura requerida.

Além disso, destacou-se que o marco legal permite o uso de diferentes bandas e tecnologias, não apenas o 5G, embora este último seja visto como um habilitador-chave para aplicações de automação, baixa latência e alta confiabilidade em ambientes industriais.

Já existem projetos 5G

Embora o debate sobre um mercado comercial de redes industriais ainda esteja em aberto, a CRT reconheceu que já existem projetos em operação ou em fase piloto no México sob esquemas de uso secundário do espectro.

Entre os casos mencionados estão implantações de redes 5G em fábricas, terminais portuários e aplicações de realidade aumentada, como um projeto desenvolvido em um sítio arqueológico.

Esses projetos, explicaram os funcionários, hoje podem ser enquadrados nas autorizações de redes inteligentes, mas com a limitação de não permitir a prestação de serviços comerciais — o que abre a discussão sobre se um modelo de licitação poderia ampliar o alcance e a escala desse tipo de solução.

Custos, fiscalização e próximos passos

Durante a mesa também foram abordadas preocupações relacionadas ao custo do espectro, que participantes do setor alertaram poder inibir investimentos em projetos industriais, assim como a necessidade de reforçar os mecanismos de fiscalização e verificação do uso autorizado do espectro para evitar assimetrias regulatórias.

A CRT respondeu que o tratamento do espectro para redes industriais não deve ser generalizado a partir do modelo da banda larga móvel e que já existem esquemas diferenciados na Lei Federal de Direitos. O regulador assegurou que trabalha para fortalecer suas capacidades de monitoramento e supervisão.

Como próximo passo, os interessados foram convidados a enviar comentários e propostas para o e-mail plan-licitaciones@crt.gob.mx, além de participar de futuros formulários e mesas de trabalho que servirão para avaliar o interesse real do mercado e definir, se for o caso, as diretrizes de uma eventual licitação de espectro para redes industriais.

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