CPQD avalia uso de OpenRAN com satélites de baixa órbita no 5G
O CPQD está experimentando a combinação de equipamento OpenRAN com satélites de baixa órbita (LEO) para permitir conexão direct-to-device (D2D) em 5G. Em conversa com Mobile Time, Gustavo Correa, diretor de tecnologia e inovação do centro de tecnologia, explicou que o projeto está em etapa de gestação, mas terá potencial para atender operadoras e companhias com redes privativas em regiões que as redes tradicionais não chegam ou não cobrem, se avançar.
“Entendemos que o OpenRAN com LEO atende as operadoras e corporações que têm suas necessidades de conectividade em áreas de baixa densidade e (alto volume) de terminais”, afirmou o executivo. “Por exemplo, uma empresa de logística jamais terá uma rede privativa celular no Brasil inteiro. Já uma rede satelital é algo viável e interessante. Desde que o modelo de negócio seja compartilhado com vários outros usuários dessa rede”, detalhou.
Apesar de estar no estágio inicial de desenvolvimento, ou seja, na bancada de pesquisa, o executivo afirmou que a junção do sistema de redes abertas com D2D em quinta geração é importante. Mas para isso acontecer precisam estar confiantes e maduros, pois a prova de conceito será no espaço: “O sonho aqui é colocar um small-sat em órbita com essa carga de conectividade em OpenRAN”, disse, em referência ao small cell existente em redes terrestres.
Mas essa pesquisa tem desafios.
Correa detalhou que um ponto técnico já superado e usado na bancada é o Integrated Sensing and Communications (ISAC), um padrão adotado pela ORAN Alliance que permite transformar a rede móvel em um sensor e usar o satélite como um repetidor de sinal, algo que é baseado nos releases 16 e 17 do 3GPP. Mas uma questão a ser tratada é a possibilidade de colocar a parte da estação rádio-base (gNB ou node de próxima geração) no satélite, uma ação permitida a partir do release 19.
“Se houver uma empresa com seus próprios satélites e com um transponder disponível para que façamos (o teste) ainda no release 16 e 17, algo chamado na comunicação satelital pessoal de ‘bent pipe‘, nós teríamos condições de fazer hoje. Inclusive, nós fazemos isso em bancada”, disse. “Mas colocar o release 19 com o gNB no satélite para ter uma qualidade de sinal muito melhor e gastar menos bateria no terminal é o grande desafio”.
Para atingir essas etapas, o centro de desenvolvimento está em conversas com parceiros de constelação satelitais LEO já operacionais para realizar os testes.
Importante dizer, o CPQD tem expertise para criar soluções e parcerias em satélite e redes terrestres. É o caso de monitoramento e proteção de queimadas em matas em parceria com a ID2T e conexão LoRA e o monitoramento de pecuária de precisão com Satelitot e SkyLo em NB-IoT.
CPQD e o OpenRAN
Em paralelo ao trabalho de pesquisa em satélites, o centro de pesquisa vem desenvolvendo as próximas etapas para o Brasil ter uma tecnologia plena em redes de padrão aberto. A mais recente é a capacitação de profissionais do mercado de telecomunicações para serem certificados e atuarem com OpenRAN e tecnológicas correlatas.
Funcionando desde 2024, o projeto que tem o apoio da Embrapii e chancela internacional do Telecom Infra Project (TIP) para profissionais do setor está próximo de 640 pessoas treinadas, se contar as turmas com aproximadamente 20 pessoas que terminará neste mês de janeiro, sendo:
550 pessoas com certificação básica focado mais em quem implementa;
90 trabalhadores com certificação profissional, um curso voltado para quem opera e gere a rede.
Curso de pós-graduação para OpenRAN lançado em setembro no Instituto Cesar e no Senai-Cematec voltado para pesquisadores que iniciou suas atividades em setembro de 2025 e está com 27 inscritos.
No curso profissional, o CPQD abre vagas gratuitas para funcionários de empresas com associação tecnológica e outras são abertas ao público que depois são selecionados com base em currículo e expertise, após chamada pública. Na pós-graduação, as vagas são gratuitas apenas aos associados.
Correa explicou que o objetivo dessa linha de trabalho é trazer maturidade e atender a demanda do setor de telecomunicações com OpenRAN: “Um dos grandes ofensores das redes de padrão aberto é a preocupação das operadoras em como gerir a rede. Se desagrega, ele trabalha com múltiplos fornecedores, tecnologias que não estavam na tradição de telecom”, disse.
“Antes, o engenheiro trabalhava com hardware e com pouca configuração de software, mas quando começa a trabalhar com OpenRAN e vRAN há uma introdução de camada de TI. A nossa academia (de telecom) não se preparou para isso. TI e Telecom são tratados como se fossem cursos diferentes. A união desses dois mundos requer estudos de disciplinas e mindsets diferentes. Nós estamos auxiliando as operadoras a se aculturar e operar”, afirmou, ao explicar que os cursos abordam temas não apenas de RAN aberto, mas kubernetes, redes virtualizadas e inteligência artificial.
OpenRAN no Brasil
Além do educacional, o diretor do CPQD explicou que o projeto de desenvolvimento de um padrão nacional de OpenRAN com a RNP está chegando em sua terceira fase, o desenvolvimento das aplicações. Já estão confirmadas as participações de UNB em Brasília e a UFG de Goiás, devido a parceria do instituto com a Anatel. Mas a ideia é ter um ponto de presença em cada região do país, portanto, a ICT quer definir novos parceiros no norte, nordeste e sul do Brasil.
Vale lembrar, o projeto de OpenRAN nacional foi desenhado da seguinte forma:
Na primeira fase (já concluída) um test-bed da rede aberto foi feito em Campinas no CPQD e outro na sede da RNP em Praia Vermelha, Rio de Janeiro;
A fase dois (em curso) está desenvolvendo um equipamento de rádio nacional;
E a terceira fase está em um momento de seleção de parceiros hospedeiros e aplicações que vão funcionar em OpenRAN, como em gaming, segurança pública e medicina.
Com esse ecossistema formado por educação, pesquisa e desenvolvimento de tecnologia, Correa prevê que OpenRAN pode ser o habilitador para o Brasil se inserir na cadeia global com uma arquitetura e vários componentes que os profissionais e as empresas locais podem se especializar, assim como deixar o país muito mais preparado para entrar em infraestrutura no 6G que terá como alicerce o release 19 do 3GPP e softwares estruturados.
“Nós olhamos muito quais são os nichos que o CPQD poderá atuar em OpenRAN. Acreditamos em redes privativas. Vamos trabalhar com operadoras que tenham as suas necessidades, mesmo que elas trabalhem com soluções que não sejam OpenRAN”, disse. “Querendo ou não, temos dois grandes fabricantes (Ericsson com AirApps e Nokia com xApps) que abraçaram algumas interfaces do OpenRAN. Não são todas, mas já podem desenvolver uma aplicação de otimização da rede. Então, para nós aqui, quando chegar a mudança do 6G, nós acreditamos que as operadoras vão demandar do mercado soluções, como otimização do consumo de energia. Isso nós já estamos fazendo hoje, ao usar essa infraestrutura de OpenRAN”, completou.
De operadora para TechCo
O movimento de preparar o setor de telecomunicações para as tecnologias de fronteira também recebeu uma ação direta do CPQD. É a jornada de transformação de operadora tradicional para virar uma empresa de tecnologia e serviços (TechCo), uma série de artigos científicos que o ICT lançará a partir deste ano sobre como operadoras, pequenos provedores e redes neutras podem se beneficiar de soluções avançadas, como gêmeos digitais, virtualização e inteligência de dados.
Com periodicidade trimestral, a primeira delas deve sair até o final de janeiro e abordará o uso da inteligência artificial aplicada às redes de telecomunicações. Sem entrar em detalhes técnicos, a ideia é que o artigo colabore para que o gestor de uma operadora compreenda como usar a IA para reter clientes, planejar e operar uma rede com sustentabilidade e automações.
O material será gratuito e ficará disponível em uma página dedicada. Correa adiantou que os textos serão desenvolvidos em parcerias entre os especialistas do CPQD e executivos do mercado de telecomunicações.
Ainda em 2026, o ICT quer lançar outras séries de papers em áreas que atuam, como IA, segurança e privacidade.
