Em meio a protestos e pressão política, maioria dos países da União Europeia aprovou acordo com o Mercosul
Após mais de 25 anos de negociações e sucessivos avanços e recuos, o acordo entre Mercosul e União Europeia foi aprovado nesta sexta-feira (9). A maioria dos países do bloco europeu votou a favor do texto, que dará origem à maior zona de livre-comércio do planeta. Ao todo, 21 dos 27 países da União Europeia aprovaram o acordo. A Bélgica optou pela abstenção, enquanto Hungria, Polônia, Irlanda e França votaram contra. É justamente na França que a decisão vem sendo contestada de forma mais intensa por agricultores locais.
Depois de bloquearem estradas de acesso a Paris e pontos turísticos da cidade na quinta-feira (8), agricultores franceses voltaram a realizar manifestações nesta sexta-feira. Protestos também ocorrem na Polônia e na Bélgica. Agências internacionais informam que manifestantes posicionaram tratores em entradas da capital francesa, além de registros de atos em cidades como Bordeaux e Le Mans. No cenário europeu, a aprovação do acordo entre UE e Mercosul é vista como uma derrota política para o presidente francês Emmanuel Macron, que vem sendo criticado internamente por não conseguir barrar o avanço do tratado.
Na Polônia, cerca de mil agricultores participaram de uma marcha pelo centro de Varsóvia. Vestindo coletes amarelos e empunhando bandeiras, os manifestantes seguiram em direção ao Parlamento e aos gabinetes do primeiro-ministro Donald Tusk para protestar contra o acordo com os países sul-americanos, que, segundo eles, pode resultar em concorrência desleal.
O principal receio dos agricultores europeus é que produtos do Mercosul cheguem ao mercado europeu a preços mais baixos, afetando a renda dos produtores locais. Apesar da aprovação desta sexta-feira, o acordo ainda não entra em vigor automaticamente, pois o texto precisa ser submetido à votação do Parlamento Europeu. Até lá, a expectativa é de que haja novas pressões e resistência por parte de setores contrários ao acordo.
Até o fechamento desta reportagem, havia divergências quanto à data da assinatura do acordo. Inicialmente, a expectativa era de que o documento fosse assinado na próxima segunda-feira (12). Posteriormente, o Ministério das Relações Exteriores da Argentina indicou que a formalização poderia ocorrer no dia 17. O governo brasileiro, por meio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), ainda não confirmou uma data e informou que “a cerimônia de assinatura deverá ocorrer em data e local a serem acordados em conjunto entre os países do Mercosul e o lado europeu”.
“Após mais de 25 anos, as decisões de hoje representam um passo histórico no fortalecimento da parceria estratégica da UE com o Mercosul”, afirmou o ministro da Energia, Comércio e Indústria do Chipre, Michael Damianos. “Estes acordos criarão novas oportunidades para as empresas de ambos os lados, garantindo, ao mesmo tempo, salvaguardas robustas para os nossos setores mais sensíveis e um quadro justo e sustentável para o comércio”, declarou em comunicado.
REPERCUSSÕES NO BRASIL
Em nota, o MDIC, chefiado por Geraldo Alckmin, afirmou que a aprovação do acordo integra dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 22 trilhões. “Trata-se do maior acordo comercial negociado pelo Mercosul e um dos maiores dentre aqueles pactuados pela União Europeia com parceiros comerciais”, informou o ministério.
Entidades setoriais também repercutiram a decisão. A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) avaliou de forma positiva a aprovação do acordo, afirmando que o tratado representa um marco estratégico para o setor ao ampliar o acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo, estimular investimentos, fortalecer a inovação e impulsionar uma agenda de sustentabilidade alinhada aos princípios ESG.
“O acordo representa uma oportunidade concreta de reposicionar a indústria química brasileira em cadeias globais de maior valor agregado. Ele amplia o acesso a mercados, incentiva o intercâmbio tecnológico e cria um ambiente mais previsível e moderno para investimentos, especialmente em áreas como bioeconomia, química de base renovável e energia limpa”, afirmou o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro.
A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) também classificou o acordo Mercosul–UE como um marco relevante para o comércio internacional. Segundo a entidade, o entendimento entre os blocos pode elevar as exportações do setor eletroeletrônico para a União Europeia entre 25% e 30% no médio prazo, além de permitir a diversificação de fornecedores de insumos para a indústria.
Em comunicado, a Abinee lembrou que, há mais de 20 anos, o Brasil foi “graduado” pela União Europeia, perdendo os benefícios do Sistema Geral de Preferências (SGP) concedido a países em desenvolvimento, o que reduziu a competitividade das exportações brasileiras frente a fornecedores ainda contemplados pelo regime, como Turquia e Índia. “Com o acordo, a indústria instalada no Brasil ganhará competitividade em relação a esses países, podendo abrir novos mercados. A Associação acrescenta que a desoneração das exportações, prevista na Reforma Tributária, também poderá estimular as vendas externas industriais nesse novo cenário”, informou a entidade.
