5 milhões de celulares na cadeia: o escândalo silencioso que transformou presídios em escritórios do crime
O Brasil convive há décadas com uma verdade inconveniente que todos conhecem, mas poucos enfrentam com a seriedade necessária: os presídios nunca estiveram isolados do mundo exterior. Ao contrário do que determina a lei e do que espera a sociedade, as cadeias brasileiras funcionam como extensões operacionais do crime organizado. E o principal elo dessa engrenagem é simples, barato, discreto e devastador: o telefone celular.
Hoje, não se trata mais apenas de smartphones comuns. O avanço da miniaturização tecnológica deu ao crime um aliado quase invisível. Minicelulares do tamanho de uma tampa de caneta, de um isqueiro ou de uma pilha AA circulam livremente nas unidades prisionais do país. Entram camuflados em alimentos, sabonetes, pomadas, latas falsas, transportados por drones, pombos-correio, arremessos externos ou, de forma ainda mais chocante, introduzidos no próprio corpo humano. A criatividade criminosa supera, com folga, a capacidade de reação do Estado.
Estimativas da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica – Abinee, apontam que o Brasil já convive com cerca de 5 milhões de minicelulares irregulares em circulação. É um número estarrecedor. Representa cinco vezes mais que o número de detentos que é de pouco mais de 900 mil presidiários. Mesmo representando uma fração do mercado total de telefonia, essa quantidade é mais do que suficiente para manter redes de tráfico, extorsão, golpes financeiros, sequestros, homicídios encomendados e fraudes operando a partir de dentro das celas. A prisão, que deveria ser o fim da linha para o criminoso, transforma-se em escritório, central de comando e bunker estratégico.
O discurso oficial insiste em tratar cada apreensão como um “caso isolado”. Mas os fatos desmontam essa narrativa. Os primeiros registros desses aparelhos em presídios remontam a quase uma década. De lá para cá, as ocorrências deixaram de ser exceção e passaram a integrar a rotina carcerária em diversos estados. Em algumas unidades, a cada revista interna, dois ou três minicelulares são encontrados. Em outras, só não aparecem porque faltam scanners corporais, tecnologia adequada ou respaldo legal para intervenções mais rigorosas.
O problema não é apenas tecnológico. É estrutural, institucional e político. A fiscalização falha porque o sistema penitenciário brasileiro é cronicamente subfinanciado, mal gerido e, em muitos casos, infiltrado. Não se introduzem milhões de aparelhos em cadeias superlotadas sem a existência de redes de facilitação, corrupção ou omissão deliberada. Fingir surpresa diante disso é, no mínimo, desonesto.
A própria Anatel reconhece o caráter ilícito desses dispositivos e indefere pedidos de homologação por saber que eles se prestam majoritariamente a fins criminosos. Ainda assim, os aparelhos entram no país por fronteiras frágeis, especialmente via Paraguai, e são vendidos abertamente na internet por valores irrisórios. O Estado falha na origem, falha no controle e falha na repressão.
O impacto vai muito além dos muros das penitenciárias. Por meio desses microaparelhos, presos comandam o tráfico, aplicam golpes em aposentados, organizam sequestros, ordenam execuções e ainda participam de fraudes em concursos públicos. Casos recentes mostram esquemas sofisticados em que professores resolvem provas e repassam gabaritos em tempo real a candidatos, tudo mediado por celulares escondidos em roupas, calçados ou partes íntimas. O crime se adapta, evolui e lucra, enquanto o poder público reage sempre atrasado.
Comparações internacionais mostram que o Brasil não está sozinho no problema, mas está entre os que menos conseguem enfrentá-lo com eficiência. Operações de grande escala em países europeus revelam que, quando há decisão política, inteligência e investimento, é possível reduzir drasticamente esse tipo de prática. Aqui, porém, a sensação é de convivência resignada com o absurdo.
A pergunta que se impõe é incômoda, mas necessária: a quem interessa que os presídios continuem conectados ao crime? Certamente não à sociedade, que paga a conta com insegurança, medo e violência cotidiana. Enquanto celulares forem mais comuns do que dignidade nas cadeias, enquanto o Estado aceitar que presos comandem o caos com um aparelho de 20 gramas, qualquer discurso sobre segurança pública será vazio.
O império invisível da comunicação criminosa não se sustenta por acaso. Ele prospera na negligência, na hipocrisia institucional e na falta de coragem política. Enfrentá-lo exige mais do que apreensões pontuais e notas oficiais. Exige romper com a normalização do absurdo. Porque, enquanto houver sinal nas celas, o crime seguirá em linha direta com a sociedade livre.
