Com 5 milhões de unidades no país, minicelulares se espalham pelas cadeias e desafiam autoridades
O tamanho pode ser o de uma tampa de caneta ou um isqueiro. O peso, de 20 gramas, equivalente ao de uma pilha AA, é quase imperceptível. Celulares minúsculos, embora não tenham autorização para venda no Brasil, tornaram-se comuns em presídios do país, onde entram despercebidos e param facilmente nas mãos de bandidos encarcerados. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) estima que o número de minitelefones circulando nacionalmente já se aproxima das 5 milhões de unidades — uma fração diante dos 270 milhões de aparelhos ativos convencionais, mas mais do que suficiente para desafiar autoridades carcerárias.
Os primeiros casos de minicelulares encontrados em presídios remontam a 2015, quando um aparelho de apenas 7 centímetros foi localizado dentro de uma pomada enviada por correio ao Centro de Detenção Provisória de São Paulo. Os agentes acharam o dispositivo ao tentarem, e não conseguirem, espremer a pasta como parte da fiscalização de rotina. Dois anos depois, também em São Paulo, telefones diminutos voltaram a ser encontrados em um sabonete ou transportados por um pombo-correio. Em 2018 e 2019, episódios similares foram registrados no Rio de Janeiro e em Goiás.
Mas, se antes havia apreensões esparsas, agora elas tornaram-se mais frequentes, espalhando-se por diferentes estados. Em setembro, a Secretaria estadual de Justiça de Mato Grosso anunciou ter encontrado um minicelular que imitava uma lata de Coca-Cola dentro de uma cela do Centro de Detenção Provisória de Juína, após um ano sem apreensões de aparelhos telefônicos na unidade. Já em São José do Rio Preto (SP), em abril, um detento que cumpria o regime semiaberto foi pego ao passar pelo raio x após ingerir três minicelulares e quatro baterias.
— São uma opção nas unidades em que há fiscalização mais apurada e equipamentos de controle mais efetivos. É mais fácil de transportar, inclusive dentro do corpo — diz o promotor Edmundo Reis, coordenador do Grupo Especial de Execução Penal (Gaep) da Bahia. — Funciona, inclusive, como um backup. Quando o smartphone é apreendido, o detento usa esse para avisar que precisa de outro.
Segundo o promotor, os minicelulares começaram a aparecer nos presídios locais há cerca de três anos, numa incidência que se acentuou recentemente. A cada “baculejo”, gíria que diz respeito a revistas e inspeções internas feitas por policiais penais, dois ou três aparelhos do tipo são descobertos. Reis frisa que o tamanho reduzido facilita a ocultação no interior das celas:
— Algumas unidades na Bahia tem scanner corporal, mas outras não. A depender do que envolve esse telefone, e como ele já tem um tamanho reduzido, pode ser confundido com outra coisa. Se não existir certeza do que se trata, não se pode levar a pessoa para o hospital para fazer a retirada contra a vontade dela. Seria invasivo.
Outros estados também tentam aprender a lidar com a tecnologia. Em Minas Gerais, garis foram pegos, em setembro, tentando entrar em uma cadeia com vários telefones em um caminhão — entre eles, minicelulares. O caso chamou a atenção pois eles também levavam carregadores hidráulicos, capazes de recarregar um celular com fluxo de água. No ano passado, os aparelhos em miniautra foram encontrados dentro de rosquinhas enviadas por Sedex ao presídio de São João del Rei (MG).
— Conseguimos verificar, sim, um aumento. Obviamente, pelo tamanho, é um pouco mais complexo localizar — admite o diretor-geral do Departamento Penitenciário de Minas Gerais, Leonardo Badaró, destacando que a introdução em partes íntimas de visitantes é uma das principais formas desses aparelhos entrarem nas penitenciárias. — Temos também apreensões por arremesso de drones ou manual por menores de idade.
De acordo com Badaró, como o objetivo dos detentos é garantir um meio de comunicação com o mundo externo, há pouca diferença de preço entre os celulares convencionais e as versões em miniatura. O custo varia conforme a realidade de cada presídio, pois estão atrelados à dificuldade de ingresso em cada unidade.
Até R$ 100 na internet
Os minicelulares entram no Brasil de forma irregular a partir de países como o Paraguai. Eles também podem ser comprados por menos de R$ 100 em plataformas de e-commerce. Procurada, a Anatel disse que os pedidos de homologação desses dispositivos são indeferidos por serem produtos que se prestam a fins ilícitos.
Uma das marcas mais comuns, a L8Star, por exemplo, não tem aparelhos autorizados a serem comercializados no país. Segundo a Abinee, a participação dos telefones irregulares, de modo geral, nas vendas de 2025 representou 12% do total do mercado, o equivalente a 4,5 milhões de unidades. A entidade também estima que circulem no país 5 milhões de minicelulares não homologados.
O problema não se limita ao Brasil. Em maio deste ano, a França deflagrou a operação “Prison Break” para combater a circulação desses aparelhos em 66 presídios. As autoridades do país europeu buscavam 5 mil telefones que estariam escondidos em 500 celas.
Por meio dos microcelulares, de forma não muito diferente dos detentos brasileiros, os presos franceses seguiam no tráfico de drogas e chegavam a ordenar a execução de desafetos. Na ocasião, a polícia francesa destacou que os miniaparelhos são vendidos com a promessa de serem “indetectáveis pelos portões de segurança de centros de detenção”.
— Não diria que há, por ora, a substituição (dos celulares normais para os minis). Passaram, sim, a ser encontrados com mais frequência, mas os avanços tecnológicos ainda não são equivalentes, e eles não dispõem de muitas funcionalidades — diz Edmundo Reis, o promotor da Bahia, que frisa, porém, que os aprimoramentos já são visíveis. — Alguns modelos são só telefones, e outros já trazem uma ou outra característica dos smartphones.
Fraudes em concursos
Os minicelulares também são usados em outros contextos para o cometimento de crimes. Em julho, a Polícia Civil do Pará deflagrou uma operação contra fraude em concursos públicos que prendeu cinco pessoas na cidade de Marituba, na Grande Belém. Era por meio desses microtelefones, escondidos de forma estratégica nas roupas, partes íntimas e calçados, que as respostas das questões eram repassadas aos candidatos.
Os suspeitos foram presos em flagrante nos locais de prova, com policiais atuando disfarçados como fiscais para capturá-los. Um dos detidos, ao perceber a movimentação, correu para o banheiro e tentou se livrar do aparelho pela descarga do vaso sanitário.
Em março, 13 pessoas foram presas por participarem de esquema similar nas cidades de Castanhal e Belém durante uma prova para o concurso do Banco do Estado do Pará (Banpará). Casos parecidos ocorreram em Minas Gerais, Ceará e Alagoas ao longo deste ano.
— A prática dos criminosos consiste em utilizar professores que resolvem as provas e repassam os gabaritos, por meio dos minúsculos aparelhos, aos candidatos à vaga. Na investigação, apuramos que o grupo cobrou R$ 2 mil e, caso o candidato fosse aprovado, pagaria um valor adicional de R$ 20 mil — conta o delegado Joubert da Silva, da Delegacia de Estelionato e Outras Fraudes (Deof) do Pará.
