Biomassa e biometano: a segurança energética do Brasil para 2026
O calendário virou, estamos em 2 de janeiro de 2026, e a ressaca das festas de fim de ano dá lugar a uma análise sóbria sobre o que moverá o Brasil nos próximos doze meses. Se nos romances de ficção científica que tanto leio a energia costuma ser infinita ou vir de fontes misteriosas, na vida real a equação é bem mais complexa e exige cálculo na ponta do lápis. O cenário energético brasileiro para este ano apresenta um horizonte desafiador, onde a biomassa e o biometano deixam de ser coadjuvantes para assumirem papéis de protagonistas na segurança do sistema elétrico nacional.
Recentemente, a Associação da Indústria de Cogeração de Energia (COGEN), em conjunto com a Abinee e a UNICA, reuniu especialistas para traçar as perspectivas do setor. O debate, ainda ecoando nas mesas de negociação neste início de ano, deixou claro que a transição energética não é apenas uma questão ambiental, mas de sobrevivência econômica e estrutural.
Leonardo Caio, diretor de Tecnologia e Regulação da COGEN, foi cirúrgico ao destacar a importância da bioeletricidade – aquela gerada a partir da biomassa, como o bagaço da cana-de-açúcar. Segundo ele, esta é uma fonte estratégica para a segurança do sistema, especialmente quando olhamos para os períodos de seca que ciclicamente assombram o país. “A bioeletricidade é uma fonte renovável firme, próxima ao centro de carga, que contribui diretamente para a preservação dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste”, afirmou o diretor.
Para nós, aqui no Pará, terra de grandes hidrelétricas, pode parecer que a água é um recurso inesgotável, mas a integração do Sistema Interligado Nacional (SIN) faz com que a gestão dos reservatórios no resto do país impacte diretamente o custo e a oferta de energia em todo o território.
O Fantasma do Curtailment
Um termo técnico que deve frequentar o noticiário econômico de 2026 é o curtailment (o corte forçado de geração de energia). Embora pareça contraditório cortar produção num país sedento por crescimento, isso ocorre por restrições na transmissão ou excesso de oferta momentânea em fontes intermitentes (como solar e eólica).
Leonardo Caio alertou para os riscos dessa prática sobre o setor sucroenergético, uma das bases da nossa economia agrícola. “O curtailment nas biomassas propiciaria a redução de vapor no processo industrial da usina, acarretando uma diminuição na produção do açúcar e do etanol”, explicou. Ou seja, uma decisão técnica na rede elétrica pode encarecer o combustível no posto e o açúcar no supermercado. É a “teoria do caos” aplicada à economia doméstica: o bater de asas de uma borboleta (ou o desligar de uma turbina) causando tempestades nos preços.
Mercado Financeiro e Insegurança
Na frieza dos números, o mercado financeiro reage com cautela. Douglas Domingos, gerente de Mesa e Trading da Comerc Energia, ressaltou que a liquidez – a facilidade de transformar ativos em dinheiro – é um ponto de atenção para este ano. “Estamos vendo menos agentes operando e uma seletividade maior de crédito, o que reduz o volume de negociações e aumenta a cautela nas decisões”, pontuou.
Domingos também observou que as constantes mudanças nas regras do jogo (as metodologias do setor) trazem uma camada extra de complexidade. “O mercado ainda está tentando interpretar e se adaptar a essas alterações, o que gera insegurança e posterga investimentos”, completou. Para o investidor, incerteza é sinônimo de freio de mão puxado.
A Esperança no Biogás e Biometano
Se por um lado o cenário elétrico exige cautela, por outro, o setor de biocombustíveis respira ares de oportunidade. O biometano, obtido a partir da purificação do biogás, surge como uma alternativa robusta para a descarbonização, especialmente no transporte pesado – um setor difícil de eletrificar.
Bárbara Barros, da Eren Biogás Brasil, avaliou o momento atual como uma convergência positiva. “Existe hoje uma janela muito interessante, com políticas públicas, instrumentos financeiros e mecanismos de descarbonização caminhando juntos”, disse. No entanto, ela ressalta que não há mágica: “A viabilização dos projetos passa necessariamente pela construção de uma demanda firme, com contratos de longo prazo bem definidos”.
Reforçando essa visão, Laila Schiphorst, também da Eren Biogás, destacou a capilaridade dessa tecnologia. “O biogás permite levar desenvolvimento energético para regiões com menor infraestrutura de gás, ao mesmo tempo em que valoriza resíduos”, concluiu, lembrando que o Brasil tem uma demanda gigante por combustíveis para sua frota de caminhões e ônibus. “O país tem uma demanda expressiva por combustíveis no transporte pesado, e o biometano pode ter um papel relevante na substituição de fontes fósseis”, afirmou Schiphorst.
SERVIÇO
Para acompanhar a evolução dos preços de energia e os níveis dos reservatórios, os consumidores e empresários podem consultar os boletins semanais do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e as atualizações da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), disponíveis em seus respectivos portais online. Manter-se informado é a melhor estratégia para prever custos neste ano de 2026.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.
