Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026

Bioenergia é pilar de segurança e “âncora” contra o estresse hídrico, defendem associações

Webinar debate cenários do mercado elétrico, desafios regulatórios e aponta bioenergia como vetor estratégico de segurança, descarbonização e desenvolvimento regional
O debate sobre os rumos do mercado elétrico brasileiro e os caminhos da transição energética ganhou novos contornos durante o 48º Webinar sobre Cenários no Mercado de Energia Elétrica, promovido pela Associação da Indústria de Cogeração de Energia (COGEN), em parceria com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA). O evento reuniu especialistas de diferentes segmentos para discutir perspectivas de curto e médio prazo, desafios regulatórios e o papel crescente da biomassa e do biometano em um sistema elétrico cada vez mais pressionado por mudanças estruturais.

Realizado no auditório da FIESP, em São Paulo, com transmissão simultânea pela plataforma Microsoft Teams, o encontro reforçou a relevância da articulação entre indústria, agentes de mercado e formuladores de políticas públicas diante de um cenário marcado por volatilidade, restrições de liquidez e necessidade de fontes renováveis firmes para garantir a confiabilidade do sistema.

Bioenergia como pilar da segurança elétrica
A condução do debate ficou a cargo de Leonardo Caio, diretor de Tecnologia e Regulação da COGEN, Zilmar Souza, gerente de Bioeletricidade da UNICA, e Roberto Barbieri, assessor de Coordenação da Abinee. Logo na abertura, o painel destacou a importância estratégica da biomassa no contexto da segurança do suprimento elétrico, especialmente em períodos de maior estresse hídrico.

Ao abordar o papel da bioeletricidade na matriz nacional, Leonardo Caio ressaltou que se trata de uma fonte renovável com atributos singulares do ponto de vista sistêmico. “A bioeletricidade é uma fonte renovável firme, próxima ao centro de carga, que contribui diretamente para a preservação dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste”, afirmou.

A declaração reforça uma visão recorrente entre especialistas do setor: ao contrário de fontes intermitentes, a biomassa oferece previsibilidade e despacho controlável, características cada vez mais valorizadas em um sistema com crescente participação de solar e eólica.

Curtailment e impactos sobre o setor sucroenergético
Ainda sob a ótica da bioeletricidade, Leonardo Caio chamou atenção para um tema sensível e cada vez mais presente no debate regulatório: o curtailment. Segundo o executivo, os cortes de geração não representam apenas um problema elétrico, mas afetam diretamente a cadeia produtiva do setor sucroenergético.

“O curtailment nas biomassas propiciaria a redução de vapor no processo industrial da usina, acarretando uma diminuição na produção do açúcar e do etanol”, afirmou.

O alerta evidencia que decisões operativas e regulatórias no setor elétrico têm efeitos que extrapolam o sistema de energia, impactando cadeias industriais relevantes para a economia nacional, o emprego e as exportações.

Liquidez e cautela marcam o mercado de energia
A análise do cenário de mercado ficou a cargo de Douglas Domingos, gerente de Mesa e Trading da Comerc Energia, que trouxe uma leitura pragmática sobre o ambiente de negociações no setor elétrico. Segundo ele, a liquidez segue como um dos principais pontos de atenção para agentes e investidores.

“Estamos vendo menos agentes operando e uma seletividade maior de crédito, o que reduz o volume de negociações e aumenta a cautela nas decisões”, explicou.

Domingos também destacou que as mudanças metodológicas recentes no setor adicionam uma camada extra de complexidade ao planejamento dos agentes. “O mercado ainda está tentando interpretar e se adaptar a essas alterações, o que gera insegurança e posterga investimentos”, completou.

O diagnóstico reforça a percepção de que previsibilidade regulatória e estabilidade institucional seguem como fatores-chave para destravar investimentos, especialmente em um ambiente de transição energética.

Biometano ganha espaço na agenda de descarbonização
O painel dedicado ao biometano apontou um cenário considerado favorável para o desenvolvimento de novos projetos no Brasil, impulsionado pela convergência entre políticas públicas, instrumentos financeiros e metas de descarbonização.

Ao analisar esse contexto, Bárbara Barros, business development da Eren Biogás Brasil, avaliou que o setor vive um momento singular. “Existe hoje uma janela muito interessante, com políticas públicas, instrumentos financeiros e mecanismos de descarbonização caminhando juntos”, afirmou.

Apesar do ambiente positivo, a executiva destacou que a viabilidade dos projetos depende de uma estruturação comercial robusta. “A viabilização dos projetos passa necessariamente pela construção de uma demanda firme, com contratos de longo prazo bem definidos”, disse.

Biometano como vetor de interiorização energética
Complementando a análise, Laila Schiphorst, head de Novos Negócios da Eren Biogás Brasil, ressaltou o potencial estratégico do biometano para além do setor elétrico, especialmente no segmento de transportes e no desenvolvimento regional.

“O país tem uma demanda expressiva por combustíveis no transporte pesado, e o biometano pode ter um papel relevante na substituição de fontes fósseis”, afirmou.

Segundo ela, o biogás também se destaca por sua capacidade de promover a interiorização da energia. “O biogás permite levar desenvolvimento energético para regiões com menor infraestrutura de gás, ao mesmo tempo em que valoriza resíduos”, concluiu.

Transição energética com base na realidade brasileira
O 48º Webinar sobre Cenários no Mercado de Energia Elétrica, realizado em 17 de dezembro, reforçou uma mensagem central: a transição energética no Brasil passa, necessariamente, pelo aproveitamento inteligente de ativos já disponíveis, como a biomassa e o biometano.

Em um contexto de desafios regulatórios, restrições de liquidez e necessidade de segurança do suprimento, as fontes bioenergéticas surgem como soluções alinhadas à realidade brasileira, capazes de combinar descarbonização, confiabilidade e desenvolvimento econômico regional.

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