Terça-feira, 3 de Março de 2026

Netflix fecha compra da Warner Bros. em transação de US$ 82,7 bilhões

A Netflix e Warner Bros. Discovery (WBD), anunciaram nesta sexta, 5, que entraram em um acordo definitivo sob o qual a Netflix adquirirá a Warner Bros., incluindo seus estúdios de cinema e televisão, e os serviços de streaming HBO Max e HBO.

A transação de dinheiro e ações está avaliada em aproximadamente US$ 82,7 bilhões em valor total de empresa, com um valor de capital de US$ 72 bilhões. O acordo une o alcance global da Netflix com o legado de um século da Warner Bros. em produção de conteúdo.

O fechamento da transação está previsto para ocorrer entre 12 e 18 meses, após a separação prévia da divisão Global Networks da WBD, a Discovery Global, em uma nova empresa de capital aberto, processo que deve ser concluído no terceiro trimestre de 2026.

A transação estabelece o valor de US$27,75 por ação da WBD. Sob os termos do acordo, cada acionista da WBD receberá US$23,25 em dinheiro e US$4,50 em ações ordinárias da Netflix para cada ação ordinária da WBD em circulação no fechamento.

O componente de ações da Netflix a ser recebido pelos acionistas da WBD será de no mínimo 0,0376 ações e no máximo 0,0460 ações para cada ação da WBD, dependendo das condições de mercado no momento do fechamento do negócio.

A Netflix espera realizar pelo menos US$2-3 bilhões em economias de custo por ano até o terceiro ano da transação e prevê que o negócio seja aditivo ao lucro por ação no segundo ano. Greg Peters, co-CEO da Netflix, afirmou que “esta aquisição melhorará nossa oferta e acelerará nosso negócio por décadas”.

Ele ressaltou que a combinação com a Warner Bros. permitirá à Netflix “introduzir um público mais amplo aos mundos que eles criam – dando aos nossos membros mais opções, atraindo mais fãs para o nosso melhor serviço de streaming na categoria, fortalecendo toda a indústria do entretenimento e criando mais valor para os acionistas”.

A união das empresas adicionará franquias como “The Big Bang Theory,” “The Sopranos,” “Game of Thrones,” “O mágico de Oz,” e o Universo DC ao portfólio da Netflix, que inclui “Wednesday,” “La casa de papel,” “Bridgerton,” “Adolescence,” e “Extraction”. A Netflix planeja manter as operações atuais da Warner Bros. e “construir sobre suas forças, incluindo lançamentos em salas de cinema para filmes”.

O Futuro da Discovery Global
A conclusão da aquisição pela Netflix está condicionada à separação prévia da divisão Global Networks da WBD, a Discovery Global, em uma nova empresa de capital aberto. A WBD havia anunciado a intenção de separar suas divisões Streaming & Estúdios e Redes Globais em junho de 2025.

A Discovery Global, a empresa resultante da segregação, incluirá marcas de televisão de entretenimento, esportes e notícias em todo o mundo, como a CNN, a TNT Sports nos EUA, e os canais abertos Discovery na Europa. Também farão parte os produtos digitais Discovery+ e Bleacher Report. A Discovery Global é concebida para deter os ativos e negócios da WBD não adquiridos pela Netflix na fusão.

A transação foi aprovada por unanimidade pelos Conselhos de Administração da Netflix e da WBD. Além da conclusão da separação da Discovery Global, o fechamento está sujeito a aprovações regulatórias, aprovação dos acionistas da WBD e outras condições habituais de fechamento.

Análise
A fusão entre Netflix e Warner Bros. traz impactos ao mercado de mídia brasileiro. A união dos catálogos de conteúdo da Netflix e da Warner Bros. (incluindo o HBO Max) resultará na concentração de dois dos maiores acervos de propriedade intelectual (PI) do mundo, aumentando a pressão competitiva sobre concorrentes.

No Brasil, a Netflix lidera o mercado de SVOD, mas tem enfrentado concorrência crescente de plataformas como Prime Video, Disney+ e a própria Max (WBD). A Globoplay, único serviço nacional com peso para disputar mercado com os grandes estrangeiros, vem mantendo crescimento. A nova e maior empresa resultante da fusão solidificará uma potência de conteúdo, o que pode pressionar as estratégias e participações de mercado de concorrentes, como o Prime Video, Disney+ e o Globoplay.

A transação deve ser submetida ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) no Brasil devido ao seu porte global e aos impactos no mercado nacional. O Cade já analisou em 2022 o ato de concentração da fusão entre Discovery e WarnerMedia (que deu origem à WBD).

A nova fusão (Netflix/Warner Bros.), que concentra ainda mais market share no streaming e integra dois gigantes da produção, deve reacender o debate sobre a concentração de mercado e o impacto sobre a produção independente e os players nacionais.

A aprovação da transação está sujeita a “aprovações regulatórias exigidas”. A fusão de duas das maiores produtoras e distribuidoras de conteúdo do mundo, especialmente após a spin-off da Discovery Global, deve gerar um forte escrutínio regulatório nos Estados Unidos e na Europa.

O setor de produção observa o movimento com atenção. A Netflix, que historicamente adota a estratégia de “construir, não adquirir”, busca agora a integração vertical de um dos maiores estúdios de Hollywood. No entanto, a Netflix argumenta que a aquisição irá “melhorar as capacidades de estúdio” e “expandir significativamente a capacidade de produção nos EUA e continuar a aumentar o investimento em conteúdo original a longo prazo, o que criará empregos e fortalecerá a indústria do entretenimento”.
O objetivo é criar “maior valor para o talento – oferecendo mais oportunidades para trabalhar com propriedade intelectual amada, contar novas histórias e se conectar com um público mais amplo do que nunca”.
O mercado de mídia dos EUA tem um histórico de intervenções antitruste notáveis. Um precedente é a proibição histórica dos Decretos Paramount (Paramount Decrees), que proibiram os grandes estúdios de Hollywood (incluindo a Warner Bros.) de possuírem cadeias de cinemas.

Esta regra visava desmantelar a integração vertical excessiva e garantir a competição na exibição. A combinação de dois catálogos de conteúdo globalmente dominantes na Netflix levanta questões sobre o poder de negociação e a concentração de mercado que podem levar a uma reação antitruste.

A Federal Communications Commission (FCC), o órgão regulador de meios audiovisuais dos EUA, também tem histórico de impor regras para impedir a propriedade cruzada e garantir o pluralismo, embora essas regras tenham sido flexibilizadas.

Por outro lado, a fusão em curso, com a inclusão de um estúdio tradicional (Warner Bros.), poderia ser vista como um fortalecimento da ferramenta de influência cultural e econômica norte-americana. O governo dos EUA tem um interesse histórico na projeção global de seus valores e cultura, o soft power.

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