Terça-feira, 17 de Março de 2026

Geração solar nas empresas médias triplica

A perspectiva de reduzir a conta de luz, que em alguns casos pode ser em até 90%, acelerou nos últimos anos a instalação de sistemas solares fotovoltaicos em médias empresas com faturamento anual entre R$ 15 milhões e R$ 500 milhões. Tanto que projetos de geração própria no local da carga nessa faixa do mercado já somam 4,3 gigawatts (GW) de potência instalada, representando pouco mais de 10% da capacidade instalada total na modalidade de geração distribuída no país (42 GW), segundo a Greener Consultoria.

A instalação anual crescente de sistemas fotovoltaicos com porte entre 100 quilowatts (kW) e 1 megawatt (MW) fez triplicar a capacidade instalada de geração solar nos médios negócios: de 349 MW adicionados em 2020 passou para 1.180 MW no exercício passado, ultrapassando o teto de potência. Até julho deste ano foram mais 569 MW e a previsão é chegar a dezembro com cerca de 900 MW.

As empresas aproveitaram uma janela de oportunidades, aberta pela legislação que redefiniu a classificação de usinas fotovoltaicas e estabeleceu a cobrança a partir do uso da rede da distribuidora para o escoamento do excedente da energia gerada, afirma Luiza Bertazzoli, diretora de inteligência da Greener.

A energia está entre os principais itens dos custos operacionais das empresas. Com a geração própria, se livram de impostos, de reajustes de tarifa muitas vezes acima da inflação e da variação de bandeira tarifária. Na conta de luz são cobrados também encargos, como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que financia políticas públicas do setor elétrico. Segundo Donato da Silva Filho, diretor geral da consultoria Volt Robotics, a CDE que representa, atualmente, 25% do valor da conta e pode subir para 30% em 2030.

Os preços dos sistemas solares e o período necessário para recuperar o valor inicial investido (payback) tornaram os projetos mais atraentes para as empresas. Segundo Bertazzoli, da Greener, houve uma redução de 19% no preço final dos sistemas fotovoltaicos comercial de 1 MWp (megawatt pico), com custo médio em janeiro deste ano chegando a R$ 2,18 milhões, ante R$ 2,70 milhões registrados no mesmo mês do exercício passado. Já o tempo de retorno, considerando os sistemas fotovoltaicos de 4 kWp (quilowatt pico), baixou de 4,4 anos, em janeiro de 2023, para 3,2 anos em janeiro de 2025.

De acordo com Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), os preços dos equipamentos, incluindo os módulos fotovoltaicos, que são o principal item do sistema de geração solar, baixaram ao longo dos últimos anos em virtude da superoferta da China. “O momento nunca foi tão favorável para instalação de sistemas solares nas médias empresas como agora”, ressalta Koloszuk.

Tempo entre a contratação do projeto e o início da geração é curto” — Silva Filho

A facilidade de implementação é outro grande apelo para a geração própria na carga baseada em sistemas solares fotovoltaicos. “As obras de instalação estão ficando cada vez mais simples e o tempo entre a contratação do projeto e o início da geração de energia é muito curto, o que ajuda a mitigar riscos inerentes à construção”, explica Silva, da Volt Robotics. Outra vantagem é que os sistemas solares não precisam de manutenção e os fabricantes concedem uma garantia de 25 anos, acrescenta Koluszuk, da Absolar.

A economia obtida com a conta de luz permite direcionar recursos para outros projetos importantes nas empresas. Especializada em sementes de hortaliças e com faturamento de R$ 250 milhões, a Agristar investiu em projetos voltados à irrigação. Na sede da empresa, em Santo Antônio de Posse (SP), funcionam uma estação de tratamento de efluentes e um tanque com capacidade para armazenar 3 milhões de litros de água da chuva que cai no telhado.

Em 2019, a Agristar aplicou R$ 1,2 milhão na montagem de 12 placas fotovoltaicas. Na época, a geração de 50 mil kW por mês atendia 95% da demanda por energia, mas atualmente supre apenas 60% do consumo por causa da ampliação das instalações. Mesmo com retorno em torno de 20% ao ano, Silvio Valente, diretor de operações da empresa, diz que não haverá necessidade de ampliar o sistema de geração para cobrir os 40% restantes porque “podemos comprar energia no mercado livre, que é mais barata.”

Sistemas fotovoltaicos com baterias tendem a fazer parte do próximo ciclo de investimentos em projetos de geração distribuída de médias empresas porque permitem o armazenamento de energia para o balanceamento de carga durante o dia. Além disso, reduzem a exposição ao risco de falhas do fornecimento das distribuidoras. “As baterias têm um papel relevante para garantir a resiliência energética durante a ocorrência de eventos climáticos extremos”, assinala Carlos Evangelista, presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD).

A instalação de baterias está no radar da indústria Bohr a partir do próximo ano. Localizada em Campinas (SP) e com faturamento de R$ 120 milhões, a empresa se dedica à reciclagem e manufatura de eletroeletrônicos e investiu R$ 5 milhões em um sistema solar de 3,5 MWp, com retorno esperado entre 36 e 48 meses, segundo Philipp Fox, diretor de pesquisa e desenvolvimento da companhia.

 

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