EUA: nova maneira de pensar a reciclagem
A indústria recicladora de plásticos precisa deixar de dar murro em ponta de faca, ou seja, atravessar no caminho da resina virgem. Noticiado em 25/8 no site Plastics News, este alerta foi dado em evento setorial recente nos EUA pelo palestrante Greg Janson, CEO da empresa Triton Ties, expoente da reciclagem de resíduos rígidos e fabricante de dormentes ferroviários de compósitos.
Para Janson, a cadeia recicladora dos EUA é hoje um negócio sem demanda suficiente para servir de base de sustentação e minado por uma invasão de resinas virgens e off spec (grades gerados por petroquímicas na fase de ajuste do processo à formulação desejada e vendidos com desconto). “Se você não tem mercado, não há porque reciclar e sem demanda realista, seu negócio vai colapsar”, ele vaticinou na sua apresentação. “Com demanda racional contratada a longo prazo”, argumenta Janson, “o reciclador tem respaldo para financiar o investimento necessário para prover o fornecimento”. Em sua exposição, aliás, o dirigente passou batido pela possibilidade (remota na era Trump) de os EUA seguirem as pegadas da União Europeia quanto a regulamentar a utilização, a partir de 2030, de teores de plásticos reciclados na composição de produtos transformados de uso único.
Mas não há labirinto sem porta de escape, asseverou Janson. “Plástico é um material genial, por ser leve, durável e super amoldável a qualquer aplicação. São boas notícias, mas também são ruins”, ele ponderou. Uma pedra no caminho, mencionou o reciclador, é a praxe generalizada de se coletar e processar resíduos rígidos misturados e oriundos de aplicações diversas, tendo em vista a obtenção de uma versão reciclada do polímero original. “Isso não funciona”, ele disse, comparando a situação a tentar enfiar na marra parafuso quadrado num buraco redondo, que seria o mercado por vocação da resina virgem.
Janson propõe uma nova maneira de pensar sobre a reciclagem. “Imagine um futuro em que o plástico hoje vilanizado como poluidor será a espinha dorsal da resiliente infraestrutura global erguida para conter a crise climática. É uma mudança de paradigma e por isso convém à cadeia recicladora parar de brigar com o plástico virgem que, aliás, ela não conseguirá substituir”.
Para Jason, os recicladores devem abraçar campos na infraestrutura capazes de reconhecer e favorecer as virtudes do plástico recuperado na competição com materiais estabelecidos, como madeira, concreto e aço. “Será a futura onda da inovação plástica”, ele aposta.
Bem a propósito, conforme divulgado em 28/8 por Plastics News, a associação Plastics Recyclers Europe (PRE) admite em comunicado que o setor de recuperação de polímeros no continente ruma para um colapso iminente. “O surto de reciclados importados de baixo preço, a consequente queda na demanda por esses materiais na União Europeia, pressões econômicas crescentes e legislação complexa e desnecessária estão encaminhando um punhado crescente de recicladores locais para fora do negócio”, percebe a PRE. Em decorrência, o recuo na produção e capacidade instalada comprometem a sobrevivência da reciclagem de plástico pós-consumo europeia. A entidade comprova este risco ao apontar para a ausência absoluta de investimentos este ano em novas capacidades locais de reciclagem versus expansão de 6% em 2023; de 10% em 2022 e de 17% em 2021.
